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UM CONTO DE DRÍOPE E O NASCIMENTO DE PÃ

Rafael López-Pedraza

Este texto faz parte do livro Hermes e Seus Filhos de Rafael López-Pedraza. Agradecemos a Paulus Editora pela permissão de reproduzirmos este capítulo aqui na Rubedo. Conheça mais sobre este e outros livros da Paulus acessando a Revista de Literatura.

No "Hino homérico a Pã ", encontramos uma passagem relativa a Hermes, na qual este deus está na particular situação de servo de um mortal.

O "Hino Homérico a Pã " fala de como Hermes chegou à Arcádia:

Essa criança era Pã.

Calímaco registra a situação similar do irmão de Hermes, Apolo, no papel de servo de um rei mortal.

Febo e Nomius o chamamos, desde a época em que, para Amfriso, ele cuidou das juntas de boi, incendiada de amor pelo jovem Admeto.2

Bem, a diferença entre os dois estilos de servidão masculina foi observada por Kerényi, que diz a respeito de Hermes:

Uma história parecida com a da servidão de Apolo ao rei Admeto, na Tessália, também era contada acerca de Hermes... Por outro lado, a história relativa a Hermes era situada na Arcádia. Hermes pastoreava os carneiros, para um patrão mortal, e enquanto fazia, apaixonou-se por uma "ninfa de Dríope" . Não está dito que Dríope era dono mortal de Hermes, mas parece que foi.3

Quanto a Apolo, Kerényi diz:

Levando essa observação mais adiante, começamos a discernir dois tipos de relacionamento entre os homens. A imagem de Apolo com Admeto – em que a relação é direta – fornece o lastro arquetípico da iniciação adolescente e, através da semelhança de Jacinto com o menino Apolo,5 a invenção da pederastia. A imagem de Hermes com Dríops fornece uma imagem bem diferente, pois o relacionamento nesse caso era indireto: a história nos conta que o amor de Hermes era pela "Ninfa de Dríope", movimento que se registra na fantasia e através desta (ninfa). O desfecho deste relacionamento indireto é o nascimento de um deus, o grande Pã, filho de Hermes com a ninfa de um rei mortal.

Essas duas imagens, de Hermes e Apolo, sugerem relacionamentos relevantes para a psicologia. Podemos deixar de lado o que a literatura nos diz a respeito de um deus que se apaixona por um mortal e nos voltar para o que isso indica psicologicamente: um relacionamento entre dois homens regido pelos padrões arquetípicos dos deuses. Temos a imagem de Hermes amando Dríope através de uma ninfa e, por outro lado, a imagem de Apolo amando Admeto diretamente. Como meu interesse principal, neste capítulo, é Hermes e o nascimento do deus Pã, colocarei Apolo como baixo-relevo contrastante, para nos ajudar a aprender sobre as ligações entre os homens.

Na psicologia moderna, o enquadre conceitual situou a homossexualidade dentro de um causalismo estéril que tenta entender esse fenômeno em termos da história pessoal. Se, dúvida, a psicologia tem visto a homossexualidade debaixo da pressão imposta pela repressão da cultura ocidental, e tem-se mostrado incapaz de vê-la em relação a natureza do homem, com sua biologia, expressa através das possibilidades dos diferentes arquétipos. Nesse sentido, uma visão arquetípica do homoerotismo tem feito falta. Os conceitos cunhados pela psicologia são palavras-fachadas, extraídas de fantasias "científicas" mas, na realidade, são um disfarce de um comportamento básico da história da cultura ocidental. Sem pretender avaliar-julgar a abordagem causalista científica, ela não obstante impede o trabalho de rastrear o aparecimento de outros arquétipos que, ao longo da vida, podem apoderar-se do relacionamento entre os homens. Duas dessas situações arquetípicas são justamente de nosso interesse.

Recentemente tem havido uma mudança de atitude perante o eros entre homens, e têm sido feitas tentativas de modificar o enfoque que herdamos. Por exemplo, podemos ler no Time como os jesuítas tentaram corrigir suas regras e tradições para os homens em sua Ordem: "Segundo a velha regra do tactus, os seminaristas jesuítas eram proibidos de sequer colocar um braço em volta dos ombros de um colega: agora, cumprimentam-se com calorosos abraços." 6 Não há dúvida de que tem uma importância histórica a reflexão sobre o erotismo entre os homens. Parte de sua historicidade foi trabalhada por D. P. Walker em sua introdução ao seu livro The Ancient Theology.7 Ali vemos que a repentina repressão do erotismo entre os homens, nos primeiros tempos do cristianismo (são Paulo), está inscrita nos próprios alicerces da cultura ocidental. Walker oferece um modelo para refletir sobre essa repressão, a qual tem sido um gatilho para conflitos constantes no cerne de nossa cultura, conflitos dos quais nós, psicólogos, devemos estar cientes, e a cujo respeito devemos aprofundar nossas informações para podermos refletir segundo uma perspectiva mais consciente e penetrante e com isso retificar o jargão que herdamos da psicologia moderna. Uma coisa é ver o homoerotismo como o herdamos, e outra muito diferente é encará-lo num plano arquetípico. Essas duas abordagens do homoerotismo (a visão herdada e a arquetípica) proporcionam, evidentemente, resultados muito diferentes na psicoterapia. O jargão psicológico aplicado aos relacionamentos entre os homens – "homossexualidade latente", "complexo materno negativo", "homossexualidade transferencial" etc. – tem sido aceito com demasiada facilidade, e os deuses que estão por trás do conflito em que muitos homens se debatem continuam passando despercebidos. O único recurso inadequado é tentar, por meio desses clichês, "controlar" o confronto introduzido pelos próprios deuses.

Se queremos melhorar a nossa leitura dos arquétipos, dificilmente podemos aceitar uma psicoterapia negativamente preconcebida contra os relacionamentos entre homens, propensa a ver essas ligações só em termos de enfermidades a serem curadas ou controladas. Essa atitude equivoca-se na atribuição do rótulo de doença e, o que ainda é mais importante, exclui a possibilidade de enxergar através e ver os deuses que, ao expressar aspectos da natureza, estão na base desses relacionamentos. O que aparece no quadro pessoal como "desordens", mais provavelmente são fricções desencadeadas por uma mistura peculiar de arquétipos da natureza tentando conter-se através daquilo que chamamos de homossexualidade. Vista por esse ângulo, a psicoterapia poderia encorajar o movimento psíquico seguindo o arquétipo dominante dentro do qual aparece o erotismo entre os homens, e aceitaria esse predomínio como o próprio veículo para o movimento psicoterapêutico.

Encontramos dois exemplos que oferecem modelos mais diferenciados para relacionamentos entre homens: a imagem de Hermes com Dríope, em contraste com o relacionamento com homossexual pastoral de Apolo com Admeto. Poderiam aparecer padrões arquetípicos adicionais de relacionamentos masculinos, em outras figuras mitológicas, como, por exemplo, Zeus e Ganimedes.

Mas a psicoterapia, afora o jargão conceitual já citado, fez muito pouco em termos de investigar o eros entre homens. Quando lemos The Freud / Jung Letters, 8 é difícil ignorar o fato de que o relacionamento entre esses dois pioneiros (e com o grupo de homens que se reuniu em torno deles) teve um forte componente missionário.9 Eles haviam descoberto uma causa comum e, por um certo tempo, seu relacionamento dependeu dos interesses dessa causa. Hoje, porém, nesta fase do século, estamos cientes de não havermos herdado o suficiente desses dois gênios da psicologia moderna, e de seu relacionamento homem-a-homem, para conseguirmos entender psiquicamente com o que estamos lidando aqui. Essa própria falta faz parte do legado que herdamos.

Além disso, se estudarmos o primeiro encontro desses dois pioneiros em 1907, em Viena, apesar da natureza hermética de Jung, temos, nessa cena, uma imagem de dois homens tentando ganhar poder sobre o outro.10 Freud usou seu "cientismo" e sua descoberta da transferência, dentro de uma fantasia patriarcal. Jung exercitou seu poder mediante os fenômenos ocultos. A amizade entre ambos mostra poucos traços de um intenso relacionamento entre suas respectivas psiques. Foi uma relação baseada na consolidação dos pilares da psicologia moderna, através de uma causa comum, de material de casos, de técnicas e teoria, mas o poder interferiu e, em última instância, destruiu sua amizade.

Seu relacionamento e conflito, união e separação, são a herança de seus seguidores e, nas diversas sociedades analíticas, podemos perceber a continuação do mesmo jogo de poder. Conforme foi se esvaindo a motivação missionária, a profissão foi se escondendo por trás da fachada de uma Sociedade Secreta, fachada que disfarça a ausência de relacionamentos psíquicos. Os conflitos internos têm sido aceitos, abertamente, em termos de um jogo de poder, enquanto algo tão importante quanto a falta de eros não tem sido denunciada, e nem sequer discutida.

A imagem clássica de Hermes sugere a in-direção de apaixonar-se pela fantasia de um outro homem: a fantasia/erotismo presente na ninfa. Esta poderia ser a base do que tem sido chamado de um relacionamento hermético entre dois homens. Essa in-direção, por meio de uma ninfa, pertencendo ao reino arquetípico de Hermes, contrasta com a concepção apolínea direta e idealizada do amor entre homens. O reino arquetípico de Apolo nos permite perceber a homossexualidade em termos de iniciação durante a adolescência. Também podemos ver o deus por trás das regressões a esta fase da iniciação adolescente, com seu lado apolíneo eventualmente catequizador. Por intermédio da perspectiva apolínea, podemos enxergar através do âmbito arquetípico e perceber o chão comum de onde brota o erotismo de toda a personalidade. Já o conto de Hermes com Dríope, por seu lado, permite-nos ver que essa in-direção nos relacionamentos homem-a-homem traz seu próprio resultado, o qual tem uma importância decisiva para a psicologia e a psicoterapia: o nascimento e a epifania de um deus – Pã.

Pã é um deus "morto" e, apesar de não o cultuarmos hoje em dia, ainda está presente em todos nós. Sua "morte" marcou uma mudança na imaginação da cultura ocidental, desde o momento em que Plutarco11 registrou o grito de lamento que ecoou quando o mundo clássico foi bombardeado pela notícia de que o "Grande Pã está morto". Essa notícia tem sido, em geral, considerada como um ponto de transição da história do Ocidente, que mais tarde levou à lenda de Pã ter morrido no momento em que Jesus Cristo estava sendo pregado na cruz.

"O Grande Pã morreu" teria sido uma morte histórica, factual, uma morte apontando na direção que estivemos sugerindo, não fosse por um outro grito de lamento, que desafia nosso senso de historicidade, e que está sendo desferido numa época tão historicamente extrema quanto a do tempo em que o grito ecoou, o tempo de Plutarco. Trata-se de uma voz vitoriana, a voz de uma poetisa inglesa, que se pronunciou quanto as fantasias da teoria da evolução atingiram seu ponto culminante. Por uma dessas curiosidades históricas, ela vivia em Harley Street, em Londres, antes que essa rua fosse ocupada pela primeira leva de psicanalistas e psicoterapeutas do século XX.

Em seu poema, "The Dead Pan" (Pã Morto), Elisabeth Barret Browning escreveu:

O lamento da poetisa12 não cita o elo perdido nas brumas da evolução, mas aquele que está faltando na história da cultura ocidental: Pã como o elo que falta com o corpo físico. E mais: seria inútil para a psicologia ouvir nesse verso um eco do lamento recolhido por Plutarco, não fosse pelas investigações de Jung e pelo seu trabalho sobre o inconsciente coletivo, que o levou a dizer para o mundo e para os estudiosos da psicologia que os antigos deuses não estavam mortos. Pelo contrário, estão perfeitamente vivos em nosso inconsciente, embora, em virtude da repressão histórica, tenham a tendência a aparecer no cerne de nossos complexos, às vezes de maneira autônoma nas neuroses e psicoses, e nas doenças físicas.13 Em seu lamento, a poetisa inglesa expressa uma tênue percepção do deus Pã como um complexo autônomo num contexto histórico e geográfico, aparentemente muito distante daquele em que os deuses pagãos clássicos se manifestaram.

Os elementos que cercam Pã – desde o grito registrado por Plutarco até o lamento de Elizabeth Barrett Browning – fazem parte do legado cultural do homem ocidental, e podem ser incluídos em nossos estudos de psicologia. Isso é possível na medida em que herdamos a teoria de Jung sobre o inconsciente, baseada na historicidade dos complexos e sus patologia. Contudo, nesta altura do nosso século, contamos com alimento mais nutritivo que, enquanto tivermos em mente o lado patológico dos deuses, favorece uma reflexão a partir de uma outra perspectiva, ao mostrar a continuidade entre esses deuses supostamente mortos, ao largo de toda a história da cultura ocidental. Jean Senec escreve:

Sendo assim, por que as pessoas tantas vezes falam da "morte dos deuses", junto com o declínio do mundo antigo, e sua "ressurreição" no alvorecer da Renascença italiana? Devemos lembrar de que foi apenas o conteúdo das imagens dos deuses que sobreviveu. O envoltório da forma clássica havia desaparecido, tendo sido gradualmente descartado em favor de seus usuários. E, por causa disso, até os dias de hoje a história não conseguiu mais reconhecê-los.14

Nós, psicoterapeutas, porém, não podemos deixar de reconhecê-los. Os resultados dessa ignorância para a psicoteapia seriam desastrosos, sabendo, como sabemos, que esses deuses são portadores de complexos que aparecem em sintomas e enfermidades. Temos um débito imenso para com os eruditos modernos, em particular os membros do Instituto Warburg em Londres (Seznec, Yates, Wind, Panofsky, Saxl, Gombrich, Walker etc). Seu trabalho, ao enfatizar a renascença, oferece novo alimento psicológico, estímulos e reflexões, além de uma pesquisa acadêmica incomparável em sua abordagem completamente direta dos arquétipos através de um enfoque em suas imagens (captadas na história da cultura e da arte ocidentais).

As reflexões que esse corpo de conhecimentos nos transmite revitalizam o espírito e alimentam a fantasia, de tal modo que aquilo que está acontecendo hoje na psicoterapia, falando historicamente, poderia ser visto em termos de um grade renascimento (Renascença), talvez a maior oportunidade da psicoterapia. Esses eruditos estão exclusivamente interessados noas raízes da cultura ocidental, com seu conflito Norte/Sul, conflito inscrito na alma de todo ocidental. Não estão ocupados com o Oriente, como aconteceu com muitos estudiosos no início desse século, interesse que levou a muitos estudos da religião e do simbolismo comparados. Esse acervo de conhecimentos teve uma influência imensa sobre a geração de Jung e ainda serve – para a desatenção diante da imagética cultura ocidental – como o currículo básico para o aprendizado do método de amplificação usado na psicologia junguiana.

Além disso, o trabalho dos modernos estudiosos nos dá a sensação de que os arquétipos do inconsciente coletivo não são tão remotos. Se os arquétipos forem considerados do ponto de vista do ego, e os insights forem simbólicos, então, é claro, o resultado é uma sensação de distância. Mas o conhecimento moderno fez a distância encolher o retreinar a psique a ler imagens. Temos a oportunidade de usar uma nova hermenêutica, capaz de rejuvenescer o estudo da psicologia, ao nos permitir permanecer no âmbito das complexidades e constâncias da cultura ocidental, quando abordarmos as imagens arquetípicas que se fizerem presentes na psicoterapia.

A escola de Zurique tem sua própria abordagem para o aparecimento, na psique, desse estranho deus Pã. As discussões e a interpretação dessa figura, nos sonhos e pinturas, fazem parte dos estudos junguianos. Embora nenhum arquétipo possa ser concebido em termos de um trabalho padrão, de um texto interpretativo básico, isso está mais evidente no caso do Pã. A relação com este deus depende, particularmente, dos complexos, da história e da atitude de cada analista, e de como a patologia (os complexos e a história) do paciente expressam o aparecimento de Pã na psicoterapia. Pã é o deus o pânico, e é nessa manifestação de sua patologia que Pã pode levar tanto o paciente quanto o analista a entrar em pânico. O pânico na situação analítica, pode tanto ter valor dentro do espectro de uma epifania de cura deste deus, como tornar-se incontrolável, trazendo a incompreensão e, no pior dos casos, resultados catastróficos.

Pã cria o máximo pânico quando sua imagem é apresentada sob a configuração histórica do demônio. Com esse tipo de aparecimento na psicoterapia, existe apenas uma mínima possibilidade de reverter a imagem para a do "Deus da Hélade", como a poetisa inglesa percebeu. No anseio expresso palas imagens de seu poema, ela pode ter conseguido circunscrever sua loucura, ao reviver a imagem de Pã como um verdadeiro deus, e não apenas como um dos lados da cisão entre deus e diabo.15 (Temos de lembrar que, ao longo de todo o cristianismo maniqueísta , Pã desincumbiu-se sozinho de representar a "sombra de Deus").

Pã é o deus dos pesadelos e da epilepsia, e a descoberta da masturbação16 é atribuída a ele. Quando reagimos ao pesadelo de um paciente, existe uma diferença entre tentar analisá-lo ou aceitá-lo como a epifania de um deus, através de um de seus sobrenomes: Efialtes.17 A ligação de Pã com a epilepsia assinala possibilidades de pesquisarmos uma psicoterapia para esse "mal", de abrirmos o continente do corpo físico para uma exploração que tem por objetivo melhorar o equilíbrio, nessa enfermidade; ou, para dizê-lo em termos mitológicos, para efetuar uma ligação mais favorável com o deus que foi concebido como sendo a origem dessa doença.

Na qualidade de descobridor da masturbação, Pã constitui um eixo referencial para toda a gama de fantasias masturbatórias, desde as obsessivo-compulsivas mais extremas, até aquelas que favorecem um relacionamento com o corpo; desde o destrutivo aparecimento de Pã como um complexo autônomo – no papel do "Diabo" que a história nos ensinou a rejeitar – até a possibilidade de um vínculo imaginativo com os diferentes deuses e deusas. (Na masturbação em si existem todas as possibilidades de uma conexão com os arquétipos.) Aqui eu gostaria de ir pouco mais adiante e sugerir que, através das fantasias masturbatórias, a imagem sexual repetida – refletindo aquela parte da natureza humana que não muda18 - pode ou ser aceita, e assim favorecer um mais profundo entendimento da própria personalidade, ou pode continuar obsessivamente imune a um entendimento. Além disso, a masturbação é o campo em que primeiro ocorrem as novas imagens sexuais. Em meio ao embate com a masturbação, o aparecimento dessas imagens novas – a parte da natureza do homem que se move – permite que a própria pessoa detecte os novos mobilizadores psíquicos. Mas isso não é tudo. Embora possa parecer um modo estranho para isso, a masturbação oferece a possibilidade de um autodiagnóstico do nosso estado de doença, ao se tornar mais precisa a respeito de quais fantasias estão agindo no nosso verdadeiro movimento psicológico. A masturbação tem sido vista, principalmente, segundo pontos de vista muito afastados da esfera arquetípica de Pã. De todo modo, não há como negar que a masturbação é a sexualidade atribuída a este filho de Hermes, e que Pã rege o corpo físico de nossa psique. A masturbação é a sexualidade básica, e uma das maravilhas da natureza, pois ela imediatamente coliga as imagens sexuais da pessoa com seu corpo físico e emocional. Quando existe uma masturbação no sonho, vemos nisso uma epifania de Pã, expressando a necessidade psíquica de que se reconheça e aceite aquilo que mais foi reprimido pelo cristianismo: a sexualidade básica e o corpo emocional. Tem-se de reconhecer que a masturbação a partir dessa complexidade. Após dois mil anos de repressão, a masturbação, que teve seu lugar nas grandes mitologias do passado, reapareceu na literatura desse século: James Joyce trouxe a masturbação e as fantasias e imagens masturbatórias para seu Ulysses. Isso pode ser visto como um renascimento de um deus pagão na psique de um homem do século XX.

Prosseguindo com nosso tema de Pã e a patologia, vemos que ele é capaz de ser quem vive lunático, como está demonstrado na imagem de Pã carregando Selene.19 Essa imagem sugere que a resposta da psicologia de Pã ao aspecto lunático da psique consiste em simplesmente carregá-lo. Desnecessário dizer que é Pã quem se incumbe a nossa loucura. Entre suas ninfas-fantasias, Eco era a mais querida, pois, desprovida como era de existência física, parecia proporcionar o elemento mais íntimo em Pã; e é em Eco que Pã reflete a existência instintiva de sua divindade. Pã e Eco são complementares. Os ecos de Pã têm uma repercussão na alma, configurando a alma no nível corporal de Pã.

A associação de Pã e Eco leva a um outro mito, o de Narciso, que, ao fugir da Eco de Pã (e portanto ao rejeitar Pã), começou a apaixonar-se por sua própria imagem e tornou-se aquilo que hoje em dia é chamado de um "caso psicótico agudo ou crônico". Num outro conto, o de Eros e Psiquê, registrado por Apuleio, Pã e Eco estavam próximos da margem de um rio quando Psiquê quis se matar. Esse conto, de maneira muito sutil, nos diz que eles a salvaram de sua tentativa de suicídio. Desse modo os mitos clássicos nos fazem lembrar que a Eco de Pã tem dois lados: o de deixar Narciso louco, e o de ajudar a resgatar Psiquê. Essas duas dimensões de Eco, uma exibindo a patologia, e outra a psicoterapia, têm reaparecido em nosso século naquelas que poderiam ser chamadas de as "condições ecoantes" da psique.

Eugen Bleuler20 descreveu a ecolalia e a ecopraxia como sintomas secundários da esquizofrenia. O gênio do psicoterapeuta Carl Rogers introduziu Eco, a ninfa de Pã, filho de Hermes, como um método de sua prática psicoterapêutica. Temos aqui dois quadros que pertencem à psicologia deste século: um psicoterapeuta que, sem tê-lo diagnosticado, abordou psicoterapeuticamente a psique, por meio de um palpite pessoal e, provavelmente desconhecendo seu fundamento arquetípico, valeu-se daquele próprio instrumento diagnosticado pelo psiquiatra como um sintoma secundário. Esses dois são quadros que valem a pena ser mantidos em mente, pois representam claramente dois aspectos da psicoterapia, duas abordagens diferentes da enfermidade. Por um lado, existe sempre a abordagem psiquiátrico-diagnóstica, e por outro existe a abordagem terapêutica, através de Pã. Juntas, ofereceram-me uma referência histórica dentro da qual situar a minha própria experiência, as minhas percepções, no contexto de uma psicoterapias constelada por Pã.21

O "acontecimento" de Pã na psicoterapia pode constelar uma verdadeira epifania de Pã, que é uma das mais vívidas expressões do relacionamento psicoterapêutico. O semelhante cura o semelhante. Similia similibus curantur. 22 Aqui é onde a verdadeira simetria acontece, onde está a dança, onde a psicoterapia de Pã está. É a expressão de dois corpos dançando em unissono, uma psicoterapia do corpo. Quando isso acontece, podemos estar seguros de que estamos no âmbito em que Pã aparece na psicoterapia, através de movimentos corporais, dentro de uma espécie de dança constelando a transferência que lhe pertence.23

O analista é desafiado quando as imagens do paciente envolvem arquétipos que estão fora do âmbito com o qual está familiarizado. Isso representa uma dificuldade: encontrar uma atitude condizente com o contexto arquetípico do paciente. O trabalho dos estudiosos modernos sobre retórica,24 os diferentes estilos de retórica como caminho para uma ligação com os diversos arquétipos, poderia ser de grande serventia nesse sentido. Precisamos saber mais da retórica arquetípica e nos treinar mais a esse respeito. Em minha discussão de uma psicoterapia de Pã. Parece-me que estive me referindo à "retórica de Pã": Eco. Que nos vincula com a constelação de Pã na psicoterapia.

A análise junguiana ainda tem de explorar uma psicoterapia baseada na constelação arquetípica trazida pelo paciente, e tornar-se familiarizada com o conceito clássico de retórica, com a medicina talismânica, e com os diferentes modos de vincular-se com os diversos deuses – com as constelações dos diferentes arquétipos. Estas são idéias muito antigas, mas que continuam aguardando ser desenvolvidas pela psicoterapia moderna. E, a despeito do fato de a psicologia junguiana ter aberto muitas portas novas para a psicoterapia, o trabalho analítico é basicamente efetuado por meio da discussão de sonhos, pinturas e imaginação ativa, principalmente amplificando os símbolos. Assim, se Pã aparece num sonho ou pintura, trazendo com sua imagem uma manifestação da exigência inconsciente do paciente, a discussão continua com mais ou menos a mesma atitude. Uma vez que Pã não teve permissão para aparecer com sua própria retórica ou estilo, a interpretação do material "de Pã" é invariavelmente baseada no aspecto "diabólico" deste deus, e assim o paciente é "advertido" dos perigos inerentes a ele. Ainda não existe, até o momento, uma psicoterapia que preste atenção na realidade essencial de que cada deus (ou deusa) precisa de um ritual e um culto diferentes, e de uma retórica viva.

Retornemos à imagem do nascimento de Pã, conforme está relatado no Hino homérico a Pã, atendo-nos a essa imagem e refletindo com base nela. Sugeri que Pã foi concebido a partir do relacionamento entre dois homens, através de sua fantasia (ninfa). A indireção desse terceiro elemento, a ninfa, pode transformar o relacionamento numa situação triádica. As possíveis repercussões de um tal triângulo na alma de um homem dificilmente podem ser compreendidas no plano conceitual. Mas, na qualidade de relacionamentos herméticos, contribuem com suas próprias possibilidades para a psicoterapia. Sobretudo, oferecem um modelo diferente para a própria terapia em si, ou seja, um relacionamento de homem para homem, através de uma ninfa, resultando em Pã, um deus cujo território pode ocorrer a cura. Como o aparecimento de Pã/Eco na psicoterapia é, em si, uma repercussão, nosso entendimento deve ser aqui determinado pela própria constelação que estamos tentando compreender, pois não quero presumir que seja possível apreender o que está acontecendo, a partir de uma outra perspectiva que não a configurada por Pã.

Em virtude do fato de as interpretações psicológicas de Pã terem seguido a tradição cristã e com isso ele ter sido pintado acentuadamente com as cores do diabo, tais interpretações tendem a cair em discussões sobre o demoníaco. Por isso aqui eu queria discutir Pã em termos da psicodinâmica da compensação. A função compensatória da psique, descoberta por Jung em 1907, e que estabeleceu a moderna visão psicodinâmica da psique, é importante para nossa discussão de Pã. Em uma de suas passagens sobre compensação, Jung escreve:

Pã estava no centro da repressão dos deuses pagãos, da mesma forma como estava no centro do anseio de compensação, expresso no poema da poetisa inglesa. A impressão é que Pã, em termos da função de compensação, representa uma possibilidade extrema para a psique em sua busca, seja de uma auto-regulação natural, seja do mergulho na loucura. Aqui, contudo, gostaria de enfatizar que uma coisa é ter consciência suficiente para ter sob alça de mira a função compensatória da psique, com sua "auto-regulação" natural; e outra bem diferente é aceitar, dentro da psicoterapia, a imagem de Pã. Não quero dizer explicitamente que a abordagem teórica compensatório/complementar de Pã, praticada pela psicoterapia moderna, tende a constelar o lado pânico desse dinamismo, embora não haja dúvidas de que, historicamente, a compensação psíquica tem sua validade na psique. Apesar disso, como me autoriza minha própria elaboração do tema, o aparecimento de Pã na psicoterapia pede uma resposta muito diferente: pede que o analista responda a partir de seu próprio Pã, numa dimensão consciente que inclui a função curativa desse deus, sua retórica, Eco, e a dança simétrica.

Para aqueles que preferem viver uma psicoterapia mais segundo a epifania dos deuses e dos arquétipos, um conhecimento básico e uma sensação de quem é quem na mitologia são ingredientes necessários. No caso de Pã, em razão das patologias específicas que lhe são atribuídas, é essencial ter uma perspectiva histórica, ou seja, perceber que, no cristianismo, por meio da repressão, Pã e os complexos que os cercam tornaram-se o mesmo que o demônio, e a própria imagem do maligno. (É interessante observar que uma tradição grega posterior nos diz que, na Hélade, também existiam diabos, "os malfeitores"26 – mas que eram os Titãs com alma feita de ferro e aço.) Na época do classicismo grego, nem Pã nem os deuses ctônicos desse tipo, jamais foram os receptáculos de projeções sequer remotamente ligadas com a cristã. Embora, desnecessário dizer, todos os deuses e deusas tenham, cada qual, seu estilo particular de destruição.

O objetivo deste capítulo foi introduzir a imagem de Pã – seu nascimento e epifania – na psicoterapia, e discuti-la do ponto de vista de uma psicologia dos arquétipos. Desejei acentuar, em particular, o fato de que o nascimento de Pã foi possível graças ao amor que uniu dois homens, através de uma ninfa. Perceber que Pã está coligado a uma psicoterapia do corpo pode abrir a porta para uma abordagem psicoterapêutica das patologias atribuídas a essa divindade. Pode oferecer, também, uma abordagem psicoterapêutica da situação analítica na qual a homossexualidade do paciente aparece no centro da cena. Em lugar de uma homossexualidade sem corpo psicológico, esta abordagem poderia proporcionar a essa homossexualidade a psicologia corporal de Pã, filho de Hermes.



1 Hesíodo, The Homeric Hymns Homerica, op. cit., XIX, "To Pan", p.445.

2 Callímaco, Hymns and Epigranms, Loeb Classical Library, trad. A.. W. Mair "Heinemann, Londres, 1912" Hino II. To Apollo, p.53.

3 Kerényi, The Gods of the Greeks, op. cit., p. 173.

4 Ibid., p.139.

5 Ibid., p. 139.

6 Time, 23 de abril de 1973, matéria de capa.

7 Walker, The Ancient Theology, op. cit., p. 8.

8 The Freud / The Jung Letters, ed. Por Willian McGuire, trad. R. Manheim e R. F. C. Hull Hogarth e Routledge & Kegan Paul, Londres, 1974.

9 Graças aos deuses, tanto Freud como Jung parecem esgotado, na primeira metade da vida, o aparecimento do missionarismo na psicologia. Evidentemente, precisaram do componente missionário para "se segurar" no início do século. Hoje em dia, quando um psicólogo se expressa em um nível missionário, sua atitude é percebida como uma zombaria, e a sensação é que o arquétipo está ultrapassado, esgotado.

10 Jung, Memories, Dreams, Reflections, op. cit., p. 152; para um comentário sobre a reação de Freud ao incidente ver Apêndice 1, pp. 333-34.

11 Plutarco, Moralia, 419 A-E.

12 Quero simplesmente apresentar o lamento como ele é, e não tentar "analisar" psicologicamente o conteúdo do verso, por exemplo, "ilhas flutuantes", "vento" e "impede que da orla se possa vê-los como dados a partir dos quais Pã pode ser compreendido como um complexo autônomo.

13 Jung, OC 13, § 54.

14 Seznec, The Survival of Pagan Gods, op. Cit., trad. B. F. Sessions, p. 149.

15 Uma visão diferente da função compensatória de Pã é oferecida por Edgar Wind:

Pagan Mysteries in he Renaissance, Capítulo XII, "Pan and Proteus" Penguin, Harmondsworth, 1967, p.199.

16 Hillman, "An Essay on Pan" in Pan and the Nightmare. Spring Publications, Nova York e Zurique, 1972), p. xxxii. Para suas reflexões completas acerca da masturbação, ver "Toward the Archetypal Model of the Masturbation Inhibition" (1966), in Loose nds, op. cit.

17 W. H. Roscher, "Ephialtes: A Pathological-Mythological Treatise on he Nightmare in Classical Antiquity," in Pan and the Nigtmare Spring Publications, Nova York e Zurique, 1972.

18 A idéia de que a natureza humana tem duas partes – uma que não muda e uma que se movimenta – é útil para a psicoterapia. Minhas reflexões nesse sentido foram estimuladas inicialmente pelo espanhol Antônio Machado em seu livro Juan de Mairena. Mais tarde, encontrei idéias semelhante em Hermetica, trad. de Walter Scott ( Dawson, Londres, 1968), Libellus II, p. 135 e seguinte, na discussão entre Hermes Trimegistus e Asclépio. Embora em outro capítulo deste livro eu discuta essas duas partes de uma maneira mais fácil, gostaria de apresentar o cerne de meus pensamentos a respeito. Tem um evidente valor Prático, para a psicoterapia, que haja a consciência desses dois elementos, para podermos detectar o que não muda na natureza humana, e com isso localizar nossos objetivos psicoterapêuticos em torno daquilo que se movimenta.

19 Virgelio, Georgica, 3.391.

20 Eugen Bleuler, lehrbuch der Psychiatrie, 9 Aufl. Spring Verlag, Berlim, 1955, p. 92.

21 Minhas próprias experiências terapêuticas com Eco aconteceram mais através da pequena referência de Bleuler do que da de Rogers, a cujo respeito, na ocasião, eu nada sabia.

22 Tive uma paciente que confessou que, finalmente, sua loucura tinha companhia. Discutimos a diferença entre loucura acompanhada e loucura solitária. A maior parte dessa terapia foi baseada em refletir o eco.

23 Para a minha satisfação, na primeira edição deste livro este trecho estimulou o trabalho de Joan Chodorow, uma dança-terapeuta. Ver seu artigo "Dance/Movement and Body Experience in Analysis"in Jungian Analysis , ed. Murray Stein (Open Court, La Salle, 1982). Na realidade, escrevi essa passagem como resultado de minha experiência com as reuniões dançantes que conduzi na Clínica Zurichberg quando ali trabalhava.

24 Yates, The Art of Memory, op. cit.; para a redescoberta de Hermógenes ver a mesma autora Giordano Bruno and the Hermetic Tradition. Routledge & Kegan Paul, Londres, 1964. Em 1971, um seminário sobre o Picatrix foi realizado por Spring Publications. Os intensos acontecimentos daquele seminário serviram de treinamento e de eixo de compreensão de diferentes planetas (arquétipos), de suas imagens, talimãs etc.

25 Jung, Modern Man in Search of a Soul, op. cit., trad. W. S. Dell & C. F. Baynes. Kegan, Paul, Londres, 1933, § 20.

26 Kerényi, Gods of the Greeks, op. cit., p. 208.

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