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SOBREVIVERÃO OS PÓS-JUNGUIANOS?
Andrew Samuels
| Este texto foi traduzido mediante expressa autorização do autor. A Rubedo agradece a gentileza e a amabilidade com que Andrew Samuels vem apoiando nosso projeto. |
Introdução
As pessoas que lêem ou escutam pela primeira vez o título deste capítulo, tendem a imaginar o que aconteceria se a resposta à pergunta fosse "não". Será que isso, meramente, poderia significar a sobrevivência dos junguianos? Ou, se hoje em dia todo mundo é pós-junguiano, que ninguém associado à psicologia analítica sobreviveria? Se a resposta para essa pergunta fosse "sim", continuaria havendo junguianos sobrevivendo lado a lado com pós-junguianos? Ou a sobrevivência dos pós-junguianos significaria o fim dos junguianos?
A ambigüidade e a tensão plena de nuâncias na relação entre as psicologias analíticas jungiana e pós-jungiana não é algo que eu deseje resolver de forma simplista, seja lamentando o fato de que a psicologia analítica padece de carregar o nome de seu fundador, ao contrário da psicanálise, – ou, inversamente, considerando-o como força ou característica especial da psicologia analítica. Aqueles que se orgulham de ser junguianos, freqüentemente acabam por denegrir o que quer que o termo pós-junguiano signifique, e vice-versa. Partilho da frustração daqueles que desejam ser de outra linha que não a jungiana, mas que possa ter empatia pela convicção daqueles que procuram reter uma espécie de filiação a Jung, o homem, e àquilo a que, por vezes, chamam de seus "ensinamentos".
Não sei até que ponto deve-se levar a sério a presente questão da sobrevivência. Quero fazer soar uma nota alarmista, porque tanto sinto quanto percebo ser necessário. Talvez o título exagere o sentido de estar-se numa encruzilhada, porém, como disse Adorno, certa vez, a respeito da psicanálise, os momentos importantes de algo podem residir nos exageros.
Para começar, deixem-me dizer algo a respeito do espírito com que escrevi este capítulo. Daí, seguirei na tentativa de fazer uma espécie de amplo balanço para a psicologia jungiana no mundo, em termos de créditos e débitos. A terceira seção será uma descrição do que veio a se chamar "a década pós-jungiana", ou seja, os dez anos ou mais desde que publiquei Jung e os Pós-Junguianos, em 1985. De lá, partirei na tentativa de dizer algo sobre o cenário pós-junguiano de hoje, atormentado por conflitos, intrincado e diversificado. Depois disso, discutirei o árduo problema de prantear a morte de Jung, o homem, que servirá de base para a discussão de se podemos, de verdade, fazer com que a teoria e a prática jungianas sejam "suficientemente boas". A seguir vem uma seção sobre Jung na universidade. Finalmente, apresentarei, para debate e discussão, tanto quanto para qualquer tipo de esquema de sobrevivência, uma "carta de intenções junguiana"; e concluirei explicando de que modo eu pessoalmente tento "empacotar" Jung.
No que diz respeito ao espírito deste capítulo, preciso desculpar-me de antemão pela quantidade de generalizações aqui contidas. Estarei, inevitavelmente, violentando diferenças individuais valiosas e sinceras. Entretanto, acredito que se possa preservar as diferenças individuais através da utilização de uma generalização judiciosa. O que tenho a dizer baseia-se em minha experiência pessoal: minhas inúmeras viagens como conferencista a muitos países; minha amizade com analistas junguianos e futuros analistas em vários países; conexões com psicanalistas em muitos destes países; aquilo que aprendi através das conversas com acadêmicos de diversas disciplinas.
Desejo trazer a público, tão francamente quanto possível, os tipos de questões que os analistas costumam discutir em segredo. A questão não é se estou certo ou errado a respeito dessas coisas, mas se os leitores percebem aonde estou querendo chegar. Robert Musil disse certa vez: "Estou convencido não apenas de que o que eu digo está errado, mas de que o que se disser em contrário também estará." Assim o espírito do capítulo envolve erro por todo lado. Como realmente me sinto, sendo junguiano? No congresso internacional de psicologia analítica de 1995, fiz uma apresentação juntamente com Polly Young-Eisendrath, intitulado "Por que é difícil, no mundo de hoje, ser um analista junguiano?" É difícil por razões que vou explicar. Mas eu não disse que fosse impossível. Ser um analista junguiano na prática clínica tem me provido de uma base extraordinariamente útil, flexível e rica para trabalhar em áreas afins – política, serviço social e outras. E sou imensamente grato.
Um balanço para a psicologia pós-junguiana
Deixem-me prosseguir, falando a respeito desse balanço. No lado dos créditos, encontríamos a tremenda penetração cultural da psicologia junguiana em alguns países, até um ponto em que fica quase impossível falar de mulheres, homens, casamento, alma, política, sem se ter em mente alguma idéia proveniente do corpus ou tradição jungiana, ou pós-jungiana. Este é um sucesso extraordinário que trouxe consigo seus problemas particulares. Também do lado dos créditos, acho que podemos discernir uma certa aceitação, até o momento negada aos "junguianos" nos círculos clínicos, culturais e acadêmicos. Não é uma acolhida de braços abertos, mas há uma aceitação, estimulada não apenas pelos argumentos irresistíveis e pelo progresso no comportamento dos junguianos, mas também por mudanças no processo cultural e no modo como compreendemos tanto o trabalho clínico quanto a natureza do conhecimento mesmo na cultura contemporânea.
Um outro crédito deriva do fato de que a psicologia analítica opera internacionalmente. Não tenho como exagerar a importância, para a psicologia junguiana, de que tenha havido, a nível internacional, uma livre troca de idéias e de práticas. Em particular, o que é chamado ironicamente de "áreas fronteiriças" para a psicologia analítica, tem-se provado fonte de todos os tipos de boas idéias e energia criativa. Nos antigos países comunistas, no Extremo Oriente, na América Latina e Australásia, estudiosos e analistas pós-junguianos estão fazendo e dizendo coisas que adquirem valor em proporção direta a sua tendência para chocar os veteranos na Europa e na América do Norte.
No lado dos débitos, os analistas junguianos não conseguem contornar o argumento do "culto a Jung", lançado por Richard Noll (1994), simplesmente atacando seu autor. Os argumentos de seu livro são bastante falhos: a análise jungiana não é um sistema de vendas piramidal e o trabalho clínico não depende de um caminho apertado sobre uma versão particular da teoria do inconsciente coletivo. Porém, às vezes, há uma excessiva deferência, visível em grupos junguianos, para com os analistas em geral e, em particular, aos analistas mais antigos; uma deferência é, às vezes, difícil de se justificar em termos da produtividade efetiva desses indivíduos. Talvez deva observar que também fui, por vezes, o receptor, até mesmo beneficiei-me por um breve período, de transferências idealísticas e positivas, verdadeiramente injustificadas e, tenho que confessar que algumas vezes não tive auto-crítica suficiente, ou não fui assíduo o bastante, para perguntar-me: estarei eu, aqui, conduzindo uma onda de culto? Há também um problema gerontocrático, o qual definitivamente é preciso abordar. Isto significa que alguma coisa foi incorporada à senioridade – cronológica tanto quanto profissional – que precisa de uma crítica urgente.
Também no lado dos débitos, encontra-se a aparente inabilidade do nosso ramo particular da profissão de psicoterapeutas, em convencer o grande público de que os analistas junguianos não têm desvios de conduta sexual em maior proporção que os membros de qualquer outra escola de psicoterapia. Há vinte e cinco anos atrás isso era um problema explícito na análise jungiana. Porém, já colocamos nossa casa em ordem. Não obstante, em parte por causa do legado de Sabina Spielrein, Toni Wolff e Christina Morgan – todos analisandos com os quais supõe-se que Jung tenha tido relações sexuais –, tem sido difícil convencer aos outros de que não somos piores que as outras escolas de psicoterapia.
Um aspecto adicional do lado dos débitos, diz respeito ao que vejo como a inabilidade contínua dos analistas junguianos em lidar com os "truques sujos" da psicanálise praticados contra si. Há uma história a esse respeito, é claro: o "comitê" secreto de Freud, organizado nos começos da psicanálise, para garantir que não se reconhecessem os desertores como contribuintes sérios ao empenho psicanalítico. O legado desse comitê é a tendência tão comentada dos psicanalistas de ignorarem completamente as contribuições pioneiras de Jung (as quais serão referidas com mais detalhes no momento devido), assim como as dos pós-junguianos. Por exemplo, um livro recente chamado Freud and Beyond: A History of Psychoanalytic Thought (1995), de Steven Mitchell e Margaret Black, excelente, abrangente, contém duas referências a Jung. Acontece de serem referências bastante positivas. Por exemplo, Mitchell e Black ressaltam que foi Jung quem antecipou a espiritualidade como uma séria preocupação psicanalítica. Mas, sem dúvida, não haveria muitas outras coisas em que Jung pudesse ser visto como pioneiro? Em Jung e os Pós-Junguianos (1985), citei dezessete avanços específicos em psicanálise, desde a Segunda Guerra Mundial, que podem ser atribuídos a Jung como figura presciente e pioneira. Não é meu propósito levantar novamente estas questões para me queixar, mas sim para sugerir que esse estado de coisas merece uma entrada na coluna de débitos da folha de balanço.
Há mesmo evidência de que a situação esteja piorando. Recentemente, apareceu na International Journal of Psycho-Analysis, uma crítica a respeito de um livro escrito por um analista junguiano, feita por um psicanalista de Londres, o qual fora anteriormente analista junguiano, desaprovando neste e em outros livros junguianos o tom queixoso e lamuriento que diz: "Olhem para nós. Pensamos nisso primeiro."
Alguns analistas junguianos consideram que isso não importa. Eu, porém, não tenho esse grau de desprendimento e "maturidade".
Do mesmo modo, em 1988, no Congresso Internacional da Associação Psicanalítica, o então presidente Robert Wallerstein fez uma palestra intitulada "Uma psicanálise ou muitas?" (Wallerstein 1988). Ele concluiu, dizendo que se deveriam realmente referir a "muitas psicanálises". Assim, todos estavam incluídos: Klein, Kohut, relações objetais, interpessoal, interacional, relacional, feminista. Mas os junguianos não, porque, argumenta Wallerstein, os junguianos negam "os fatos da transferência e da resistência". Como é que Wallerstein sabe disso? Porque ele lera e fizera citações extensas do artigo de William Goodheart (1984) sobre o comportamento de Jung em relação a sua jovem prima, enquanto fazia um trabalho de pesquisa para sua dissertação de doutorado em psicologia do oculto. Naquela época Jung tinha 21 anos. Ele nunca ouvira falar de Freud e, muito menos, da possibilidade de se tornar psicanalista. Wallerstein manipulou este material de modo a torná-lo uma afirmação clara, ou apoio para a afirmação de que os junguianos rejeitam as idéias de transferência e resistência. O que vem a ser particularmente triste neste problema é que, ao invés de caminhar lado a lado com nossos colegas psicanalistas e defender a psicologia profunda contra o assalto da revolução administrativa dos planos de saúde – e de outros movimentos anti-psicoterapêuticos em muitos países – ficamos esganando uns aos outros, em vez de unirmos nossas fileiras.
A imagem pública da análise jungiana não é boa. De certo modo, isso é estranho. Vende-se livros aos milhões, mas quando se pede a estudantes universitários que façam um simples jogo associativo à palavra Jung (e eu o pedi a mais de 300), a avassaladora maioria das reações à palavra-estímulo "Jung" é ou "Freud", ou alguma coisa que se refira a anti-semitismo, nazismo, Alemanha, Hitler. Arquétipos vêm em terceiro lugar e misticismo, com conotação pejorativa, em quarto. Essas reações sugerem que temos um problema de identidade. Somos uma profissão? Somos uma comunidade? Somos um movimento? Chegamos a ter uma história estabelecida com a qual todos concordam? Sonu Shamdasani, um estudioso de Jung, publicou uma série de documentos (por exemplo, 1990, 1995) que tornam impossível para os junguianos concordarem com os fatos de sua história. Miss Miller, o pseudônimo de que Jung se utiliza no quinto volume de suas Obras Completas (1956), não era um pseudônimo. Havia mesmo uma Miss Miller, a qual de forma alguma ignorava o material cultural e mitológico que naquele tempo constituía a versão de Jung sobre o inconsciente coletivo. Miss Miller era uma artista de palco, cuja especialidade era vestir-se como membro de um exótico grupo étnico e recitar poesia germânica para aquele agrupamento cultural em particular. Você poderia dizer que ela conhecia tudo sobre a idéia de inconsciente coletivo muito antes de ter ouvido falar em Jung. Shamdasani mostrou também que a autobiografia de Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, é um texto dramaticamente incompleto, cuja maior parte não foi escrita por ele e continha capítulos concernentes a Toni Wolff, omitidos por insistência da família de Jung. O principal capítulo sobre seu débito a William James também foi omitido, o que distorce totalmente a perspectiva da história intelectual.
A década pós-junguiana
O que quer dizer o rótulo "pós-junguiano"? Não cunhei este termo na esteira do "pós-moderno". Na verdade, foi parodiando um livro bem conhecido da Penguin chamado Freud and the Post-Freudians (Brown 1961). Talvez tenha sido apenas um tanto de meu complexo de inferioridade junguiano. (Ou talvez leve cerca de vinte anos a partir da morte do pioneiro para que tais livros sejam escritos – vinte e um anos para Freud, vinte e quatro para Jung [Casement 1985].) Contudo, posso ver agora que interpretações do termo pós-junguiano baseadas em interpretações do pós-modernismo fazem sentido, porque assim como não se pode, absolutamente, ter pós-modernismo sem a modernidade, não se pode ter psicologia e análise pós-jungianas sem as psicologia e análise jungianas. Quero expressar com isso uma conexão com Jung e, ao mesmo tempo, distância crítica de Jung. A palavra-chave é "crítica"; e se eu fosse escrever meu livro de novo e tivesse total liberdade com relação ao título, gostaria de chamá-lo Psicologia Analítica Crítica.
Eu precisei achar uma maneira de descrever o campo porque o que existia antes como classificação era bastante problemático. As pessoas costumavam falar de "Londres" e "Zurique". Mas, mesmo nos anos 80 e, com certeza, nos 90, há o que costumávamos chamar analistas "londrinos" em Chicago e em São Francisco, e analistas "de Zurique" pelo mundo todo que nunca chegaram perto de Zurique. Além do que, como hoje em dia existem quatro sociedades jungianas bem estabelecidas em Londres, referir-se ao que diz respeito a todas elas como "londrino" é, realmente, impossível em termos de semântica e mesmo de polidez.
Uma outra crença que já estava arraigada em mim antes que começasse a elaborar os modos pós-junguianos, foi a de que havia, na verdade, uma divisão entre as abordagens clínicas e simbólicas à psicologia analítica. Acho que Louis Zinkin acertou quando disse que esta divisão era uma armadilha, pois nenhum analista junguiano que se prezasse diria não ser "simbólico" e, sim, "clínico" (comunicação pessoal, 1983). E quais profissionais iriam concordar que não eram "clínicos"?
O que eu fiz em Jung e os Pós Junguianos foi assumir que todas as escolas de psicologia analítica sabem a respeito, e fazem uso, de todas as idéias e práticas a sua disposição, sob o título de psicologia jungiana. Meu método foi dizer que, atualmente, há mesmo uma prioridade e uma ponderação acontecendo dentro de cada uma dessas escolas tão diversas, conectadas em virtude do fato de serem competitivas entre si.
Também admiti que as escolas sejam ficções criativas, porque existe uma grande quantidade de sobreposições e que, em muitos aspectos, foram os pacientes que construíram as escolas, tanto quanto os analistas.
Para resumir, eu disse que havia três escolas: (1) a escola clássica, trabalhando conscientemente na tradição de Jung, com foco no Si-Mesmo e na individuação. Fiz questão de mostrar que não se pode igualar clássico com empacado ou rígido. Existem evoluções dentro de algo clássico que são bem possíveis. (2) A escola desenvolvimentista, que tem uma abordagem específica sobre a importância da infância na evolução do caráter e personalidade do adulto e, igualmente, uma ênfase aguda na análise das dinâmicas da transferência-contratransferência no trabalho clínico. A escola desenvolvimentista tem relação íntima com a psicanálise, embora a palavra rapprochement, usada com freqüência, esteja totalmente errada porque a psicanálise não rapproche com a psicologia analítica, ao passo que a psicologia analítica faz tentativas freqüentes a um rapprochement com a psicanálise. (3) A escola arquetípica explora e joga com as imagens na terapia. Sua noção de alma sugere o aprofundamento que permite a um evento tornar-se uma experiência.
Era essa, basicamente, a tríplice classificação: clássica, desenvolvimentista e arquetípica. Certa vez, Joseph Henderson, um colega de Jung, fez troça de mim, se bem que gentilmente, numa conferência em 1991. Ele disse que gostava muito dessa classificação e a achava bastante confiável, mas gostaria de declarar que ele pessoalmente era pré-clássico! Acho que o que escrevi em 1985 era confiável. Porém, também dou-me conta de que fosse uma coisa provocativa por causa do investimento junguiano na individualidade e autenticidade – uma característica de nossa tradição. Além disso, há a história folclórica que temos de que Jung não estava interessado em ser um líder e, portanto, todo junguiano poderia fazer o que quisesse; e, ao fazer o que lhe apraz, torna-se um verdadeiro junguiano. Existe todo tipo de "slogans" atribuídos a Jung ("Graças a Deus sou Jung e não junguiano"). Eu achava isso uma tolice, pois pra mim não tinha problema nenhum Jung ser um líder e tentar influenciar outras pessoas. No fim das contas, é apenas parte da natureza humana. Eu podia ver muitas maneiras nas quais Jung fosse um líder, muitas maneiras em que todas as escolas poderiam até ser vistas como aspectos de Jung e de sua forma de pensar; portanto, para mim não havia problema com um exercício de auto-reflexão profissional que na época, provavelmente, era necessário.
Sem dúvida, meu próprio elemento da sombra encontrava-se presente no livro – talvez houvesse uma fantasia sincretista ao fazer uma classificação como aquela. Espero que, através dos anos, a utilidade dele tenha prevalecido sobre os aspectos da sombra. Na verdade, não escrevi o livro a partir de uma clareza olímpica; escrevi a partir da confusão de ser um analista recém-qualificado, que precisava entender a respeito daquilo sobre que meus antecessores e superiores tanto se agitavam. Se o livro estava sob a influência de um deus, seria antes a de Hermes, mais do que a de Zeus.
No livro e, subseqüentemente, tomei uma postura muito menos literal em relação às escolas. O que eu diria agora, é que dentro de cada analista junguiano existe um analista da escola clássica, um analista da escola desenvolvimentista e um analista da escola arquetípica. Isso quer dizer que fica potencialmente em aberto para qualquer candidato ou analista junguiano, ou psicoterapeuta junguianamente orientado, acessar o amplo espectro de idéias, práticas, valores e filosofias que constituem o campo total da análise e psicologia pós-junguianas. Isto nos permite saudar o emergir do que chamo, agora, de "novo modelo de analista junguiano". É aquele que, graças ao trabalho de diferenciação que eu e outros fizemos, consegue saber, quando trabalha de qualquer maneira particular, quais idéias e práticas específicas são formuladas: clássicas (Si-Mesmo e individuação); desenvolvimentistas (infância, transferência-contratransferência); arquetípicas (alma, imagens particulares). Pode estar trazendo consigo todas elas, algumas delas e, como discutiremos daqui a pouco, nenhuma delas. Pode variar a mistura durante toda a sua prática; pode variá-la na análise de um indivíduo; e pode variá-la dentro dos limites de uma única sessão clínica de análise. Se bem que eu ainda pense ter dito algo válido num nível factual, literal, acadêmico e de história das idéias, também acho que o modelo diz algo de válido quanto à experiência interna de ser um analista e à crise de escolha que os analistas cada vez mais bem-educados de hoje em dia enfrentam a todo momento no contexto clínico.
Os pós-junguianos hoje
Eu poderia parar por aqui, com tudo parecendo ótimo. Mas é claro que as coisas não estão ótimas – daí o título do capítulo. Quero prosseguir, discutindo certos problemas que vejo afligir e afrontar hoje em dia os pós-junguianos. O que quero oferecer neste momento é uma classificação atual das escolas de psicologia analítica pós-jungianas.
Como entendo agora, existem quatro escolas de psicologia analítica pós-jungianas. As escolas clássica e desenvolvimentistas têm permanecido praticamente como eram. A escola arquetípica tem sido integrada ou eliminada como entidade clínica – talvez, um pouco dos dois. Mas, há duas novas escolas a se considerar, cada qual uma versão extrema de uma das duas escolas até aqui existentes, a clássica e a desenvolvimentista. Chamo a essas duas versões extremas de fundamentalismo junguiano e de fusão jungiana com a psicanálise. As quatro escolas poderiam ser apresentadas num espectro: fundamentalista, clássica, desenvolvimentista, psicanalítica.
Como todos os fundamentalismos, o fundamentalismo junguiano deseja controlar quem ou o que faz parte e/ou não faz. Daí tende a ser cruel e estigmatizante. Ouve-se, às vezes, numa avaliação das circunstâncias de treinamento: "Ele (ou ela) não tem mente psicológica," dizem. Ou a tipologia é utilizada para estabelecer situações sociais, culturais ou interpessoais complexas, de um modo inteiramente improdutivo e oracular. Mulheres intelectuais podem ser sumariamente executadas. O fundamentalismo junguiano nega seu papel no mercado de trabalho – tenta convencer-nos de que ele apenas é, que não tem um projeto persuasivo, procurando influência, como o resto de nós. Há uma tentativa de negar seu aspecto comercial, inclusive o financeiro. O fundamentalismo junguiano enfatiza a pessoa de Jung e suas palavras proféticas, que, às vezes, chegam até mesmo a alegar serem inspiradas pelo divino. Mas o que enfatiza, particularmente, é como vivia Jung. Às vezes isso é chamado de "o caminho junguiano". Tenho horror à essa noção de haver "um" ou "o" caminho junguiano, mas o fundamentalismo junguiano joga com isso.
O fundamentalismo junguiano exagera nossa inegável carência de ordem, de padrão, de significado e de um mito que nos governe. Não digo que estas carências não existam. O que estou dizendo é que elas estão sendo exageradas e exploradas; e congeladas ou fossilizadas. Outras feições da psicologia humana, que tem a ver com sua natureza evanescente, inconstante, anti-fundacional, anti-essencialista e travessa, não podem encontrar lugar na Weltanschauung do fundamentalismo junguiano. Além disso, é uma visão de mundo que tende a ignorar tudo o mais que acontece na psicoterapia em geral, ou no mundo das idéias, da política, das artes ou da religião. Nunca vou esquecer de uma conversa que tive sobre o famoso caso de Freud, Dora, com uma eminente analista a quem considero fundamentalista jungiana, que disse pra mim: "Que Dora?"
O aspecto positivo do fundamentalismo junguiano é que existe algo de bom e compensador na idéia de se viver de acordo com princípios psicológicos, e buscar, talvez contra todas as probabilidades, a autenticidade da experiência.
Deixem-me prosseguir, fazendo uma crítica semelhante à tendência jungiana atual em direção à fusão com a psicanálise. Quero deixar bem claro que não sou contra o uso da psicanálise pelos junguianos, como é o caso da escola desenvolvimentista. Como foi que apareceu no mundo junguiano, essa tendência atual de fundir-se com a psicanálise? Em primeiro lugar, acho que, muitas vezes, baseou-se em alguma coisa excessivamente pessoal, visto que vários junguianos que fizeram análise pelas escolas jungianas clássica ou desenvolvimentista não ficaram satisfeitos com suas experiências ali. Daí a fusão jungiana com a psicanálise pode estar baseada, em minha opinião, na raiva e numa idealização da psicanálise como sendo, de alguma forma, clinicamente melhor, como possuindo requintada e superior habilidade clínica, quando comparada com a nossa.
Isto leva os junguianos a fecharem os olhos às enormes contribuições clínicas que têm sido feitas pelos próprios junguianos. Não estou fazendo a queixa costumeira (referida acima) de que ninguém reconhece que "nós" pensamos nisto primeiro. Minha queixa aqui é a de que os próprios junguianos da escola psicanalítica não atentam para certas idéias que são nossas por direito de nascença e por herança.
Penso na importância do relacionamento real na análise, a aliança terapêutica, e na inelutável natureza internacional do trabalho analítico. "Você não pode exercer influência alguma, a menos que esteja aberto à influência." "A contra-transferência é um órgão de informação muito importante." Estas são as afirmações pioneiras feitas por Jung nos anos 20. Ou existe a compreensão não-literal da regressão na situação clínica como implicada em processos de crescimento e maturação psicológica; não necessariamente regressão à infância num sentido literal, mas regressão a "alguma outra coisa" que é difícil de designar com precisão. Ou o papel da personificação na psique humana, do qual depende o trabalho de tantos psicólogos humanistas e transpessoais. E a idéia jungiana quintessencial de que existem outros estilos de consciência além egóica? Ou a noção de que há uma psicologia da totalidade-da-vida – não apenas uma psicologia do jardim de infância, dos primeiros três anos, dos primeiros seis meses, pré-parto, nascimento, o que quer que seja? A noção de uma psicologia da totalidade-da-vida nos daria uma estrutura sobre a qual discutir alguns dos pontos da psicologia coletiva e cultural, envolvidos nas principais alterações no local de trabalho e na conexão com condições de bem-estar e pensões que têm lugar atualmente no mundo inteiro.
Não deveríamos nos esquecer de que existe uma abordagem hermenêutica jungiana ao material clínico: o material clínico não se torna vivo devido a sua natureza causal, nem a uma compreensão determinística da situação em que o paciente se encontra, mas sim por causa da maneira com que o sentido emerge a partir de trilhar os traumas e as dificuldades do passado que tem lugar na análise.
Um número demasiadamente grande de analistas estão envolvidos na fusão jungiana com a psicanálise em certos países – Alemanha, Grã Bretanha, Estados Unidos. Eles colocaram a construção analítica acima do relacionamento analítico e, algumas vezes, colocaram uma versão profissional do relacionamento analítico, chamada transferência-contratransferência, acima de prestar um mínimo de atenção a conteúdos psicológicos, tais como as imagens da fantasia. O relacionamento analítico é entendido principalmente em termos da díade mãe-criança – que eu chamo de mamocentrismo – onde a nutrição e o relacionamento boca e seio, ou boca e mamilo, é encarado como o paradigma para a compreensão do que está acontecendo entre o par analítico.
Nessa escola de psicanálise existe uma fuga, por parte do analista, do uso disciplinado do auto-revelar-se para o paciente; seus sentimentos fantasias e reações corporais àquele paciente. Não é meramente medo de processos por imperícia. Nós fomos, na verdade, em direções completamente opostas àquelas que sustentam nossa tradição. Nós adotamos os dogmas psicanalíticos de neutralidade e abstinência como regras para governar nosso trabalho. É a isto que me refiro como uma fusão com a psicanálise.
Preciso ressaltar um ponto positivo no exposto acima. Eu treinei na escola desenvolvimentista. Era diferente de qualquer fusão com a psicanálise. Envolvia a utilização da psicanálise por analistas junguianos como analistas junguianos; não a fusão de nossa identidade como analistas junguianos com a identidade maior e, portanto, altamente sedutora, dos psicanalistas.
A psicanálise aprendendo com os pós-junguianos
Pode ser que hajam maneiras em que uma perspectiva pós-junguiana permitisse esclarecer dificuldades dentro da psicanálise contemporânea. Por exemplo, existe na psicanálise um debate intenso com respeito às categorias de "o bebê" ou "a infância", no tocante à compreensão e interpretação de material clínico. Será o bebê, no paciente, um bebê de carne e osso, cujas experiências examinadas cultivaram e coloriram (e, talvez, causaram) os traços principais da personalidade adulta com a qual o analista está engajado? Ou será o bebê um símbolo de renascimento e regeneração, um bebê metafórico como numa das ilustrações da alquimia que Jung apresentou? Ou uma combinação de ambos? A questão do que fazem os analistas quando introduzem, ou estendem a introdução, do bebê do paciente é uma questão perene.
Pode ser que a idéia de Jung da amplificação, não seja familiar a alguns leitores. Foi mencionada especificamente pela primeira vez em 1908, num ensaio em uma coleção editada por Freud (Jung 1908: 186-8), onde Jung declarava não desejar que o processo de interpretação se encaminhasse "inteiramente no subjetivo". Em 1935, Jung falou da necessidade de encontrar "o tecido no qual a palavra, ou a imagem, está incrustada" (1935: 84). Alegava ali, que a amplificação segue uma espécie de "lógica" natural. Já em 1947 encontra-se o valor da amplificação no fato de que ela nos permite alcançar, por inferência, as estruturas arquetípicas da mente inconsciente que, por definição, são representativas em si e de si mesmas, tem que ser distinguidas de suas representações na cultura e que, portanto, só podem ser acebadas por meio de técnicas tais como a amplificação. Como muitos outros leitores têm conhecimento, a amplificação é uma técnica que envolve o uso dos paralelos míticos, históricos e culturais de forma a esclarecer, tornar mais amplo e, por assim dizer, aumentar o volume do material factual, emocional e de fantasia que pode ser obscuro, tênue e difícil de tratar. Os analistas esperam por associações às imagens oníricas para alcançar seus significados pessoais. A amplificação segue em outra direção. Através da amplificação o analista torna possível ao paciente alcançar para além do conteúdo pessoal, implicações coletivas, culturais e sociais mais amplas e/ou mais profundas do material. O paciente sente-se menos só e pode localizar sua neurose pessoal dentro do sofrimento global da humanidade e sua produção.
Para Jung, o método da amplificação era também uma forma de demonstrar a validade do conceito de inconsciente coletivo. O modo como Jung compreendia o inconsciente coletivo inicialmente, era de que este se compunha de imagens primordiais que eram, em grande medida, consistentes através das épocas e culturas. Como a amplificação envolve a reunião de paralelos provenientes de fontes diversas, poder-se-ia considerá-la como executando esta função evidente. Os analistas junguianos atuais, especialmente aqueles em contato com o pós-modernismo e sua abstenção de metanarrativas, estão muitíssimo menos convictos de que existam imagens eternas e universais.
Retornemos à questão sobre a categoria epistemológica de infância na interpretação do trabalho clínico. Sugiro que o pensamento por trás da idéia de amplificação (não sua utilização clássica como técnica, que pode às vezes ser demasiado acadêmica) pode ser estendida para aplicar-se ao que os analistas fazem quando interpretam em termos de infância. O procedimento cotidiano, ordinário, de interpretar o material do paciente, especialmente os conteúdos de transferência, em termos de infância, pode também ser visto como uma espécie de amplificação. Isso seria diferente tanto de aparições hermenêuticas quanto de positivísticas-causal (sejam duras ou suaves). Digamos que o paciente esteja perturbado pela perspectiva das férias do analista. Seja a interpretação edípica ou pré-edípica, esteja ela expressa em termos de abandono, inveja ou ciúme, isso pode ser visto como uma amplificação do conteúdo emocional de um material ordinário, relativamente silencioso – como quando o paciente meramente fica com vontade de saber para onde vai o analista, sem lágrimas, súplicas ou produção de sintoma. Além disso, relacionar o material aos modelos gerais de funcionamento inconsciente e desenvolvimento da personalidade tem efeito muito semelhante àquele da amplificação em seu sentido clássico, junguiano: expandir os horizontes e aprofundar a experiência do paciente no aqui-e-agora, tornando os eventos de análise em experiências na análise. Camadas de significado mais primitivas e infantis podem ser descobertas e compreendidas, levando a uma redução da sensação de isolamento e perseguição do paciente.
De luto pela morte de Jung
Será que já fizemos luto bastante pela morte de Jung? E por que essa pergunta? É óbvio que a função sentimento nos diz que devemos honrar Jung como pessoa concentrar-nos em Jung como um grande homem, a fonte de uma enorme sabedoria e o fundador da escola de psicologia e psicoterapia. Mas concentrar-se nele e honrá-lo demais é também uma deficiência da função sentimento. Se a função sentimento se refere a equilíbrio, avaliação, julgamento, então dar muita ênfase a Jung é tanto uma deficiência do sentimento, como também desconsiderar e abandonar o velho homem. Acho que temos mesmo um problema de luto. Não somos os únicos. Não apenas nós. Robert Wallerstein, naquela palestra presidencial aos psicanalistas citada anteriormente, disse: "Para muitos de nós Sigmund Freud permanece nosso objeto perdido, nosso gênio inalcançável, por cuja passagem talvez não tenhamos jamais feito o luto apropriado, pelo menos em plenitude emocional." Que coisa inacreditável, vinda do mesmo presidente que se utilizava de grosseiras lealdades tribais e deturpações ultrajantes dos fatos para excluir aos junguianos, de forma que pudesse incluir a todos e livrar a própria cara! Em 1988 ele teve mesmo a coragem de dizer a seus colegas psicanalistas, que não haviam chorado apropriadamente um homem que morrera em 1939.
Se não houvéssemos feito luto adequado por Jung, estaríamos deprimidos. E realmente acho que exista uma depressão no mundo junguiano de hoje que torna difícil valorizar-nos suficientemente para abrirmo-nos a outros psicoterapêutas e intelectuais em geral. O que significaria estar de luto por Jung? Significaria pôr-se além de uma divisão idealização-depreciação em relação a ele, uma divisão que sinto contaminar algo de nossos pensamentos e, certamente, de nossas práticas.
Tornando bastante boas a teoria e a prática jungiana
Aqui, minha investigação diz respeito a se temos lidado, ou não, tão bem quanto deveríamos com os problemas notórios de Jung: elitismo, discriminação sexual, racismo e anti-semitismo – não em termos da pessoa de Jung, mas em termos de nós, analistas junguianos, com nossas próprias responsabilidades. Não o problema dele, mas o nosso. Em minha opinião a resposta é "sim e não". A coisas estão avançando; existe um espírito crítico revisionista por toda parte. Deixem-me dar um exemplo do meu próprio trabalho. Comecei a escrever sobre Jung e seu anti-semitismo em 1988. Isso quase custou minha conexão emocional com o movimento junguiano pelo mundo afora. De início as pessoas ficaram muito agitadas com o que eu tivesse a dizer. Pode bem ser que um tanto disso tenha sido por falhas de estilo ou de tato de minha parte, mas parecia realmente que eu havia cometido uma séria traição. (Este material pode ser encontrado nos capítulos 12 e 13 de A Psique Política, 1993a.) Quase dez anos depois, é extraordinária a mudança de reação. Não apenas as pessoas de fora do mundo junguiano olham-nos com mais simpatia (pois não se deu apenas comigo) por termos abordado essa questão; dentro da comunidade jungiana há sinais de gratidão e aprovação por termos mexido, particularmente, nesta casa de marimbondos. Como sabemos, enfrentar a sombra costuma trazer resultados produtivos.
Deixem-me fazer uma rápida colocação. É o bastante dizer, quando olhamos o racismo de Jung, a discriminação sexual, o anti-semitismo e assim por diante, "Ora, ele era apenas um homem de seu tempo". O problema aí, especialmente com relação ao anti-semitismo, é que ele não era. Existe um amplo e acrimonioso debate sobre o que ele dizia e fazia na época a respeito dos judeus e dos alemães. Em 1936, quando se propôs conferir-lhe um título honorário em Harvard, foi um verdadeiro pandemônio. Henry Murray defendeu-o. Gordon Allport, outro grande psicólogo, atacou-o. Portanto não era como se Jung não tivesse podido fazer nada de diferente. As pessoas daquele tempo sabiam que ele tinha várias opções diante de si.
Jung na universidade
Se existe um ambiente onde vejo uma esperança clara de sobrevivência para a psicologia analítica pós-jungiana, ele se encontra nas universidades. Testemunhamos, atualmente, um crescimento substancial do interesse acadêmico por estudos junguianos e pós-junguianos em muitos países.
Existem muitas possibilidades. Uma delas diz respeito ao resultado dos estudos e das abordagens quantitativas ou qualitativas com relação à questões de eficácia clínica. A maioria dos centros de estudo de psicologia profunda, como presentemente constituídos e com os recursos de que dispõem, não poderiam tomar a seu cargo os esforços necessários. Contudo, reparo nas propostas e boletins publicados por pesquisadores de psicoterapia, ao fazer um estudo crítico e comparativo de seus vários protocolos ou declarações de intenção, numa interessante perspectiva. Podemos explorar de um ponto de vista de meta-pesquisa algumas das pressuposições clínicas (que, como Jung insinuou, são, usualmente, imagens de um certo tipo) que sustentam os projetos de pesquisa. Colocar a desnudo essas pressuposições é de interesse, não apenas em si mesmo, mas também em termos do estabelecimento de séries de estudo que terão conseqüência quanto à eficácia da psicoterapia analítica de longo prazo. Em geral concorda-se que tais estudos estão insuficientemente representados na literatura.
A segunda linha de investigação em pesquisa clínica tem relação com a pesquisa dentro do processo clínico. Seria de interesse, principal mas não exclusivamente, para os clínicos e enfocaria, por exemplo, como é que os profissionais empregam os conceitos teóricos que possuem, ou como respostas a tipos específicos de material com que se vêem confrontados pelos pacientes, são conduzidas de várias formas pelos diversos profissionais, com base na orientação teórica e nas variáveis pessoais (por exemplo, o substrato étnico e sexual do profissional e do paciente).
Uma terceira via de pesquisa possível diria respeito (em termos gerais) a questões práticas globais, tais como se seria recomendável e desejável por parte do profissional, explicar ou descrever para o paciente a provável natureza, evolução e progresso do processo que está empreendendo. A psicanálise, classicamente, tem estado relutante em oferecer explicações para os paciente quanto aos princípios e prognósticos terapêuticos, por muitas e irrefutáveis razões. Quando propus (Samuels 1993b) que os clínicos pudessem levar em consideração uma verificação controlada, na qual se empregaria ou não procedimentos explanatórios iniciais, houve uma manifestação de interesse. A possível utilidade de tal pesquisa residiria, também, na criação de caminhos confiáveis e claros de informar ao público em geral (não apenas aos pacientes) sobre o alcance e a experiência dos tratamentos psicoterápicos.
Afirma-se que a pesquisa em áreas "difíceis", tais como a análise e a psicoterapia, está entrando numa nova era. Em seguida à pesquisa quantitativa e qualitativa, chegamos agora ao estágio de "pesquisa colaborativa". Esta subentende o (mas não se restringe ao) envolvimento de pacientes na pesquisa, a cada ponto e a cada nível. A pesquisa empírica feminista e a pesquisa histórica oral podem também inspirar um projeto semelhante, o que seria congruente com as tradições dialéticas e dialógicas da análise jungiana.
Muitas das idéias centrais de Jung sofreram revisões extensas no curso de trabalho de sua vida. Contudo, porque ele estava menos interessado que Freud em sistematizar seu pensamento, fica difícil destrinchar, por exemplo, a evolução histórica da teoria dos arquétipos. As Obras Completas de C. G. Jung apresentam com freqüência textos importantes de maneira a tornar uma leitura histórico/variorum muito difícil. Por isso na universidade, ao contrário do contexto clínico, poder-se-ia enfatizar os elementos mutáveis e históricos dentro da análise das teorias de Jung. O ensino de psicologia analítica deveria incluir comparações com teorizações análogas em todos os tipos de psicanálise (kleiniana, relações objetais, psicologia do Self, lacaniana e pós-lacaniana, laplanchiana, etc.) assim como com abordagens humanísticas e existenciais. Além disso, há uma teoria de grupo esquecida nos escritos de Jung que pode ser recuperada e avaliada em comparação com abordagens psicanalíticas de processos de grupo. Em muitos centros de estudos psicanalíticos, grande quantidade das pesquisas são históricas, fato que atua como salutar inibição sobre quaisquer alegações que a psicanálise possa fazer de natureza universalística e totalizante.
Dentre as aplicações da psicologia analítica noutros campos, podemos incluir as explorações de possíveis interseções da psicologia analítica com a teoria social e política, com a aplicabilidade geral da contribuição psicanalítica ao estudo dos processos e instituições políticas. Estou interessado, por exemplo, na crítica multidisciplinar dos modelos existentes de liderança e cidadania; também, na investigação de se se podemos, ou não, falar justificadamente em termos de uma psicologia das relações sociais, assim como de uma psicologia fundada em noções de carência, ruptura e castração. Ainda há que se trabalhar nos aspectos sociais do conceito de Jung do "inconsciente psicóide".
Assim, a psicologia analítica pode também contribuir à crítica literária e à história da arte. Da mesma forma, a psicologia analítica pode contribuir para estudos sobre os gêneros, estudos culturais e estudos sobre lésbicas e gays. Embora se conteste, hoje em dia, a teoria de animus e anima, há um crescente interesse acadêmico em como se explorar as imagens de homens e mulheres mantidas por homens e mulheres, tomando-as como indicadores de medos e fantasias atuais. Na psicologia analítica pós-jungiana existe uma boa dose de trabalho sobre teorias da construção de gênero e diferença sexual, ao passo que a rejeição, por parte de Jung, da idéia de que a orientação sexual homossexual seja pervertida ou patológica em si mesma, fornece uma base bastante útil para uma contribuição ao estudo de sexualidades dissidentes.
Muitos analistas junguianos têm tido esperança em estender a psicologia analítica até uma explicação do fenômeno social de etnia e "raça". Preciso admitir que tenho algumas dúvidas a esse respeito. Em lugar disso, eu rearticularia esta questão em termos de uma consideração do papel dos discursos universalizantes dentro da psicologia analítica e da psicanálise, na prevenção da formação de abordagens transculturais à psicologia e à psicoterapia.
Tradicionalmente, a psicologia analítica têm sido de interesse para acadêmicos trabalhando no campo dos estudos religiosos. Minha experiência em várias universidades foi a de que é aí que se tem uma boa chance de encontrar leituras cuidadosas e críticas dos textos de Jung.
Outras possibilidades de trabalho colaborativo e multidisciplinar nas aplicações da psicologia analítica podem dar-se na filosofia, no direito na antropologia e na psicologia. No que concerne à psicologia, minha experiência tem sido de que ainda existe interesse no papel de Jung como aquele que deu origem ao Teste de Associação de Palavras e à teoria dos tipos psicológicos, como também sua influência sobre Henry Murray na evolução dos Testes de Apercepção Temática e sobre os testes projetivos em geral.
Uma carta de intenções jungiana
Como tantas outras cartas de intenções, a minha tem dez itens. Se pareço estar colocando uma veia um tanto polêmica e propagandística, é proposital. Minha intenção é mesmo a de colocar uma carga energética.
1 Os pós-junguianos deveriam ser os porta-vozes do elo que existe entre os mundos interior e exterior, especialmente em relação ao que parecem questões do mundo exterior, tais como problemas sociais e políticos. Deveríamos nos apoiar no ótimo impulso dado pela psicologia jungiana em engajar-se com questões prementes do mundo atual. Michael Vannoy Adams, em seu livro sobre a racialidade do inconsciente intitulado The Multicultural Imagination (1996), é um bom exemplo.
2 A premente questão atual de multiculturalismo versus monoculturalismo universal absorve virtualmente a atenção de todas as democracias ocidentais. Nossas idéias aqui possuem enorme relevância; estamos em boa posição para desenvolver o que chamo de uma "psicologia suficientemente universal". A generalização judiciosa abre espaço para a diversidade e a diferença individuais. Precisamos tentar evitar nossa tendência de predefinir as experiências culturais das pessoas: judeus são ...; alemães são ...; homossexuais são ...; freudianos são ... Em lugar disso, podíamos tentar falar sobre a experiência de ser um judeu, um alemão, um homossexual, um freudiano. Será que podemos estar focados na experiência, ao invés de na definição? Temos também de aprender a não fazê-lo em termos complementários, de forma que fiquem judeu e alemão, homem e mulher, heterossexual e homossexual, junguiano e freudiano, todos divididos entre os dois lados por uma linha imaginária, e venhamos ter essas suspeitosas oposições binomiais tão certinhas. A complementaridade e a predefinição não vão ajudar no debate do multiculturalismo.
3 Há uma desilusão geral, em diferentes níveis de teoria, com a noção de um Si-Mesmo autônomo, desconectado, separado. Há uma crítica feminista de que este Sim-Mesmo esteja enraizado na patologia masculina e não tenha nada que ver com a saúde feminina. Mas há igualmente uma importante crítica política. Os Si-Mesmos humanos não precisam se esforçar para conectarem-se uns com os outros. Eles têm potencial para estarem num estado primário de conexão, do qual as sociedades capitalistas patriarcais muito suspeitam, porque esse estado de conexão primária é a mais importante base da imaginação radical, a qual, com toda razão, assusta os donos do capital e do poder. Acho que a psicologia jungiana pode tornar-se uma psicologia transpessoal socializada, reconhecendo que o espiritual e o social são dois lados da mesma moeda, um novo tipo de nível psicóide do inconsciente. Charles Péguy, o teólogo francês do século dezenove, disse: "Tudo começa no misticismo, mas termina na política."
4 Deveríamos juntar-nos à celebração da grande mudança cultural em nossa compreensão de que consiste o conhecimento. Às vezes, embora eu não goste do termo, fala-se disso como a "feminização" da ciência, ou a feminização do conhecimento. A divisão sujeito-objeto, como base do paradigma científico, tem sido questionada cada vez mais. Acho que não só a psicologia jungiana, mas a psicoterapia em geral, é um caminho epistemológico de conhecimento que não depende desta divisão sujeito-objeto. Portanto, não estamos unicamente aptos a nos unir ao movimento que vem acontecendo nas universidades e na sociedade em geral, podemos liderá-lo, pois nosso próprio trabalho sempre dependeu de ir além da divisão convencional sujeito-objeto da ciência cartesiana clássica.
5 "O trabalho multidisciplinar é bom para a alma." Os junguianos talvez devessem se retirar do que chamo de "síndrome do amador expert". Um escritor junguiano conhece um bocado a respeito de uma tribo obscura, ou de um conto de fadas em particular, ou de um mitologema específico, ou da física sub-atômica, e parece ser, no mundo junguiano, uma grande autoridade no assunto. Mas quando você realmente sai e encontra acadêmicos que estão dentro dos contos de fadas, ou daquela tribo em especial, ou daquele mito particular, ou da mitologia em geral, ou da física, o que eles têm a dizer sobre o nível ou o tipo de conhecimento e sofisticação demonstrado pelo junguiano é deveras arrasador. Eu tive essa experiência com relação ao meu trabalho em política. O que eu gostaria que fizéssemos, seria criar parcerias multidisciplinares com pessoas de outras disciplinas, de maneira que pudéssemos contribuir com nossa "parcela" psicológica. Em meu próprio trabalho, nos campos social e político, minha imagem de fantasia é a de um spectrum de experts disponível para todo grupo que faz política ou político que tenta maquinar uma política. Num extremo do spectrum encontraremos um estatístico ou um economista, ou alguém do tipo. No outro extremo teríamos um psicólogo da psicologia profunda, ou um terapeuta – um dentre muitos especialismos engajado na produção de novas idéias.
6 Acho que a psicologia jungiana poderia desenvolver mais sua famosa percepção moral da realidade do mal, mas não de um modo fundamentalista. Quando duas crianças de 10 anos jogam uma de 5 pela janela, para citar um caso, pensamos freqüentemente na realidade do mal. Será que poderíamos utilizar a noção do mal como uma realidade de forma sóbria, séria, investigativa, ao lado de observações psiquiátricas e sociológicas? Acho que isso é algo em que devíamos estar pensando em fazer.
7 Deveríamos valorizar nossa excelência clínica. A análise jungiana hoje combina rigor com visão, respeito pelas aspirações do paciente e uma procura de significado. Desde que o façamos sem prejudicar ninguém em termos de sexo, classe social, religião, fatores raciais ou étnicos, ou questões de diversidade e orientação sexual, acho que a análise jungiana é, com certeza, boa o bastante.
8 Deveríamos "sujar" nossas mãos envolvendo-nos em política profissional, local, nacional e internacionalmente. Vamos parar de reclamar do sucesso das campanhas de truques sujos de outros grupos de psicoterapêutas e psicólogos e montar nossa própria.
9 Está na hora de parar de se queixar dos ataques à psicoterapia, seja pela crise no gerenciamento dos planos de saúde nos Estados Unidos, ou o assalto furioso da mídia na Grã Bretanha. O caso dos planos de saúde, em que as empresas seguradoras recusaram-se a pagar por psicoterapias de longo prazo é, em certo sentido, um desastre. Mas, é também uma ótima oportunidade para os analistas junguianos da América, redefinirem suas identidades profissionais e, além disso, no meu ponto de vista, fazer algo que será bom para suas almas. O preço das consultas nos Estados Unidos ficou muito alto; daí a receita de alguns analistas ficou muito grande. Este não é um problema só dos junguianos, é um problema psicanalítico. Ele tem a ver com o fato de que a auto-imagem profissional dos psicoterapêutas está vinculada à auto-imagem profissional, e conseqüentemente às expectativas de rendimento, dos ginecologistas, oftalmologistas, cirurgiões e outros. Será mesmo este o lugar que ocupam os analistas em termos de cultura e sociedade? Não seria de fato mais saudável, útil e acurado dizer que caminhamos lado a lado com os conselheiros pastorais, ministros da igreja, assistentes sociais, acadêmicos e assim por diante? Acho que se se houvesse redução dos honorários, as pessoas nos Estados Unidos continuariam a procurar terapias jungianas e mesmo outras formas de terapia profunda, a despeito do fato de suas contas não estarem sendo pagas – ou pelo menos não em proporção significativa – pelos planos de saúde. Eu diria também, que deveríamos fazer mais do que simplesmente reduzir os honorários. Precisamos pensar em termos de uma ação afirmativa para a análise jungiana, devido aos custos enormes de treinamento e da impressão de eurocentrismo que a análise jungiana passa para os pacientes.
10 Tenho a esperança de que os pós-junguianos estarão abertos à crítica dos outros, mas também gostaria de que nos orgulhássemos quando esse for o caso. Gostaria de sugerir que pensássemos em caminhos onde o mundo junguiano em geral – analistas, futuros analistas, psicoterapeutas que não são analistas, e o que se refere como público leigo – pudesse relaxar e desfrutar mais uns dos outros. Eros poderia ser trazido para nossas instituições, onde quer que fosse possível, sem nos esquecermos ou negarmos que a tendência humana para a competição é algo de incorrigível.
Empacotando Jung
Mencionei, anteriormente, meu pequeno experimento de associação com estudantes universitários em reação à palavra "Jung". Como conclusão deste capítulo, quero relatar minha abordagem ao estudo daqueles temas que figuraram tão proeminentemente nas repostas à minha solicitação por associações a "Jung". Quanto ao relacionamento com Freud e seus resultados, procurei mostrar (1) que havia um Jung pré-freudiano ou não-freudiano (por exemplo, podemos vê-lo em suas Conferências de Zofingia de 1895); e (2) que há um fenômeno impressionante de se observar, no qual a psicanálise se apodera e torna consensual muitas idéias e práticas que eram controversas quando pela primeira vez foram introduzidas e teorizadas por Jung. Eu não o faço no intuito de mostrar Jung como se fora um "gênio" profético. A estrutura intelectual básica foi um estudo do modo pelo qual, dentro de uma profissão, idéias e práticas são separadas em hierarquias com base em filiações e envolvendo questões de poder e liderança/discipulado. Em outras palavras, a proposição de que a psicanálise adotou um elenco "junguiano" sempre crescente, é apresentada em termos da história das idéias, mais do que um "bom resultado" para os junguianos. Considero a competição, a inveja e a distorção de pontos de vista antagônicos como os motores da produção intelectual dentro do campo da psicologia profunda.
Quanto às alegações de anti-semitismo e nazismo, fiz um estudo extenso desta questão como um todo, envolvendo muitas publicações que apresentam novas evidências e material histórico (Samuels, 1993a). Em resumo, acredito que os críticos de Jung estão certos em pedir aos psicólogos analíticos atuais que explorem esta parte específica da história de sua profissão. Concluo que, ao fazê-lo, a psicologia analítica poderá, não apenas, restabelecer suas credenciais éticas, mas que há muita coisa que Jung esteve experimentando, com resultados desastrosos em seu caso pessoal, no estudo psicológico do nacionalismo, na psicologia nacional e na psicologia cultural, que poderia formar parte de uma abordagem atual dessas questões. Se bem que existam diferenças importantes, também acho que os fatos estabelecidos por filósofos e historiadores quanto à necessidade de se continuar a estudar os textos de Heidegger (tanto no contexto de sua filiação ao nazismo quanto, digamos, relativamente independente desse contexto) aplica-se à psicologia analítica e aos estudos sobre Jung. Em ambos os casos, uma tarefa seria a de examinar até que grau o envolvimento nos eventos sociais dos anos 30, influenciou o pensamento destes dois homens.
Quanto à noção de que Jung fosse um "místico" ou adepto de algum caminho "oculto" (ou mesmo, como se argumentou recentemente, que tenha iniciado um "culto"), e como dei a entender neste capítulo, minha tendência é abordar essa noção do ponto de vista das atitudes mutáveis para a epistemologia e apoiá-la com interpretações coligidas da história da ciência. A abordagem de Jung da psicologia desafiou a linha divisória observador/observado e colocou em primeiro plano a "subjetividade" no processo de pesquisa. Não o vejo como o empirista que alegava ser, antes vejo-o promover uma análise sistemática, ou auto-análise pelo observador, de suas reações aos fenômenos que vivencia no mundo da experiência. A teorização clínica atual sobre a contra-transferência do analista estende amplamente o estudo "científico" de Jung da subjetividade, conduzindo ao possível emprego de uma tal abordagem em relação à temáticas políticas e sociais (cf. Samuels 1993a: 24-50)
Outra reação problemática quanto ao "Jung como místico", foi a de pesquisar porque a simples idéia provoca reações tão fortemente negativas (salvo, talvez, dentro de departamentos de estudos religiosos). Pode-se ver que o mundo secular não abandonou completamente a receptividade religiosa que observamos emergir no ocidente e, mais além, nas formas (amplamente diversas) dos fundamentalismos religiosos de um lado, e do fenômeno "Nova Era" do outro. Espiritualidade parece ser o que muitos estudantes desejam estudar, e confesso ainda não ter desenvolvido uma resposta completa ao problema de como tratar isso do ponto de vista da psicologia analítica pós-junguiana.
Talvez esta seja uma nota condizente para terminar o capítulo: uma nota de desconcerto, da parte de alguém que, a despeito do pensar rigoroso e do sentimento apaixonado com que tomou parte no projeto pós-junguiano, ainda não consegue tornar claro o que sua relação com Jung tem sido, será ou deveria ser.
Referências
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TRADUÇÃO:
ANDRÉ ZANETTI