Este é nosso Oitavo Convivium e a pergunta é: “A psicoterapia
chegou ao fim?” Um deprimente título, pelo menos para aqueles, entre nós, que se identificam com
a profissão de psicoterapeutas.
Conhecendo Noel e Eva, os fundadores e organizadores de nosso Convivium, sei que a escolha de tal título
não significa um ataque. É, melhor dizendo, uma defesa, uma reação ao inflamado título
do livro: “Cem anos de terapia e o mundo continua pior”.
Piorou? É nossa culpa? E, para além dessa questão abstrata, uma questão muito prática:
os terapeutas serão capazes de bancar suas vidas? Somos obsoletos?
Apesar de Hillman ter tornado bastante claro que acreditava que a ajuda psicológica ainda é possível,
e, apesar de seus leitores poderem estar acostumados com seu estilo marcial, muitos psicoterapeutas se incomodaram
com o título, e, não menos, com o conteúdo do livro.
De todos os livros escritos pelo mesmo autor, este não está, certamente, entre os meus preferidos.
Entretanto, achei o título esplêndido: uma expressão da pura impetuosidade hillmaniana. Um
murro. Senti-me aliviada: alguém, de nosso meio, estava expondo a raiz de nossas dúvidas. Essas dúvidas
sempre estiveram presentes na maioria de nós, mas, somente agora estamos nos permitindo discutir esse assunto,
porque os clientes e a sociedade as forçam em nós, perguntando: “a terapia merece nosso dinheiro,
nosso tempo?”
No inverno passado, ministrei um curso intitulado “Psicoterapia de Base Junguiana” no Pacifica Institute for Depth
Psychology , em Santa Bárbara, Califórnia. Todos os estudantes presentes eram adultos em treinamento
para se tornarem terapeutas. Uma manhã, o colega, com o qual eu dividia o curso, Charles Asher, escreveu
uma pergunta no quadro-negro: “o quê as pessoas pagam, quando pagam a você?” Aqui estão algumas
respostas:
- Presença.
- Para serem ouvidas. Para contar suas histórias. Para serem escutadas, vistas, testemunhadas, apreciadas,
para serem ajudadas a refletir e se diferenciar...
- Construir sua confiança, corrigir sua auto-imagem.
- Suportar a dor, curar, obter algum distanciamento.
- Mudar, ter emoções, conectar, comunicar, abrir e curar o imaginal.
- Encontrar alma, autenticidade, paz, sabedoria, empatia, segurança.
- Aprender serenidade, centramento, engajamento, risco, descida, subida.
- Preparar-se para a morte, para o nascimento de um novo eu, para a transição.
- Aceitar perdas, rejeição, suportar uma tragédia.
Poder-se-ia continuar indefinidamente; todas as respostas são válidas.
Um segundo passo nesse pequeno experimento consiste em voltar a cada resposta e encontrar que tipo de patologia
ela reflete na cultura: por exemplo, a necessidade de “presença” é um indicador de que nossa cultura
gera ausência, alienação.
- ser escutado revela que não escutamos o outro, talvez por assistirmos TV e lermos os jornais.
- contar suas histórias revela que não há muitos lugares, excetuando encontros do tipo A.A.,
onde minha história possa ser contada.
Etc ... para cada resposta.
O objetivo desse exercício era mostrar como cada resposta sugere uma patologia correspondente na cultura.
A cultura precisa de terapia; nós, facilmente, concordamos com isso. Mas, em relação ao tema
de nossa conferência, pode-se chegar à outra conclusão: a profissão de psicoterapeuta
pode, muito bem, ser um dos acidentes na história, uma profissão que aparece repentinamente porque
há uma falta na cultura e, depois, morre quando a necessidade é preenchida de outros modos. Por exemplo,
se, ao invés da pergunta: o que seus clientes estão pagando a você?, pode-se perguntar: qual
é a função de um Deus ou de uma Deusa, as respostas seriam as mesmas: proporcionar um sentimento
de presença no Universo, fazer-nos sentir que estamos sendo escutados, contar nossas histórias, sermos
ouvidos, vistos, testemunhados, apreciados, diferenciados, ajudados a refletir ...
Ou perguntar: qual é a função de um arquétipo? E, novamente, as mesmas respostas ajustar-se-ão
a nova questão: um arquétipo portará a dor, curará, dar-nos-á distância,
fará com que mudemos, que tenhamos emoção, fará com que nos conectemos, comuniquemos,
fará com que abramos e curemos o imaginal, preparar-nos-á para a morte, para o nascimento de um novo
eu, para a transição, ajudar-nos-á a aceitar as perdas, a rejeição, a suportar
uma tragédia...
Essas funções nos lembram que a prosperidade da psicoterapia coincidiu com o declínio da religião,
que os psicoterapeutas são necessários quando Deuses e Deusas estão em silêncio, quando
mitos coletivos não dão conta de nossas histórias individuais, quando arquétipos estão
se tornando estereótipos desgastados.
O pai de Freud era rabino, o pai de Jung, pastor, e a cultura ofereceu para os filhos meios de atualizar o trabalho
de seus pais. O modo de superar foi o tornarem-se médicos. A ciência era mais valorizada, seu mito,
vivo e forte. Freud e Jung iniciaram na profissão não como filhos de pais religiosos, mas como médicos.
Creio que, devido a essa aliança com o prestígio da ciência médica, as dúvidas
sobre a efetividade da psicoterapia levaram muito tempo para aparecerem.
Se alguém toma, como ponto de comparação, a desilusão sofrida pelos filósofos,
historiadores, sociólogos, antropólogos, é espantoso ver como protegida e privilegiada tem
sido a psicoterapia.
Levou mais tempo, mais ataques externos, assim como mais críticas internas, para a psicoterapia alcançar
o ponto de auto-dúvida como todas as outras ciências humanísticas e sociais. O livro de Hillman,
Cem anos ... está, apenas, colocando-nos no mesmo lugar já alcançado pelas outras disciplinas.
Lembro-me quando meus colegas da sociologia sofreram essa desilusão, há vinte anos. A promessa implícita
era a de que a sociologia poderia ajudar a predizer, controlar e prevenir comportamentos sociais destrutivos. Graduados
em sociologia entraram en masse em posições governamentais, onde as promessas de sua disciplina foram
testadas e falharam: a sociologia não cura doenças sociais, na melhor das hipóteses, às
vezes, pode ajudar a predizê-las. As faculdades de sociologia, para sobreviver, tiveram que fazer o mesmo
que as faculdades de filosofia fizeram décadas antes, que foi diminuir as expectativas sobre os critérios
de admissão e admitir estudantes com menos discriminação.
Os antropólogos também quebraram sua promessa implícita e tiveram que admitir que não
poderiam ajudar muito em instaurar a paz entre nações e tribos. Criminologistas supostamente ajudariam
a diminuir o grau de criminalidade e os cientistas políticos seriam melhores políticos, mas nenhuma
dessas promessas se mantiveram; então, o número de estudantes caiu e os professores foram deslocados,
como refugiados de países conturbados.
Mas não havia esse tipo de problema para o departamento de psicologia; eles ganharam recompensas consideráveis
por mais tempo que qualquer outra ciência social, graças à crença na capacidade da psicoterapia
em curar injustiças, falhas e dor da vida.
Somente hoje a psicoterapia chegou ao limite de sua credibilidade. Em muitos planos de saúde, ela não
será mais reembolsada e uma grande quantidade de novas drogas psicoativas agora tem a reputação
de serem mais eficazes e menos caras que muitas terapias.
Mesmo em lojas de produtos naturais, mercadorias são vendidas na crença de que, supostamente, influenciam
nossos humores; e eu, professora de teoria junguiana, que acredito que a anima seja responsável pelos nossos
humores, encontro-me comprando uma garrafinha de aminoácido, cujo rótulo declarava ser um estimulador
do humor. Também encontro alguns jovens cyberpunks, para quem identidade é algo que uma droga pode
reinventar para você, sem a necessidade de trabalhar em si mesmo. Êxtase pode ser comprado no balcão
e a depressão é entendida, por muitos, como um desequilíbrio químico no cérebro.
Daqui a poucos anos, o que restará de nossa clientela? Nada, se nós deixarmos a falha da psicologia
como ciência destruir a credibilidade da psicoterapia. Já no contexto acadêmico, os tipos de
pesquisa em psicoterapia que ainda recebem subsídios são aqueles com o suporte teórico das
psicologias cognitiva, comportamental ou experimental. A psicologia profunda é acusada, mais que nunca,
de não ser suficientemente científica.
O rebaixamento da psicologia profunda pelas universidades é ainda mais evidente na tradição
acadêmica da América do Norte, que é mais positivista e pragmática em sua definição
de ciência. Para ser científico, deve-se usar o método hipotético-dedutivo experimental.
Ponto. Na Europa, onde a psicologia estava conectada, tradicionalmente, com a filosofia, a definição
de ciência reteve alguns de seus significados originais: ciência como uma forma de conhecimento disciplinado.
Então, por um lado, os cientistas rejeitam a psicologia profunda por ter falhado em se provar como científica.
Por outro lado, os espiritualistas da Nova Era também a rejeitam por nossas tentativas de desliteralizar
seus anjos; se estamos em sintonia precisamos de um anjo literal, não de um metafórico. Para sensitivos,
os anjos não são imaginados, eles têm que ser acreditados. Por que essas pessoas da Nova Era
iriam estudar teorias do imaginal quando a fé realizará o trabalho?
A confusão acerca da palavra terapia está aumentando, leitura de tarot é terapia, astrologia
é terapia, rituais são terapia, aconselhamento pastoral é terapia, contar história
é terapia, arte é terapia, música é terapia, dançar é terapia, sentir
aromas é terapia, psicodrama é terapia, escrever um diário pessoal é terapia ...
Tenho uma amiga com um talento especial: quando estou “pra baixo” e deprimida, ela faz piadas, brinca comigo. Seu
método funciona: vejo quão absurdo é me sentir miserável por isso ou aquilo, e ganho
certo distanciamento. Encontrei um nome para sua habilidade: ridiculoterapia (terapia por zombaria). Não
é essa uma forma minimalista de terapia?
Isso significa que qualquer coisa que tenha a palavra alma ou terapia pode ser vendida como psicoterapia? A que
lugar a psicologia pertence? Pergunta Hillman no Re-Visioning Psychology e ele responde: “Hoje, depois de um longo
período em que a psicologia médica, experimental e estatística tentou estabelecer-se como
ciência, considera-se o estudo da alma, uma vez mais, como o estudo do homem. A psicologia arquetípica,
entretanto, afasta-se dessa noção - de fato, das 3 posições [da religião, ciência
e humanismo] - e concebe que o estudo da alma tem um caminho próprio”. [178]
Qual é esse caminho “próprio”?
Não é, explica ele mais adiante, humanismo - como é entendido pela psicologia humanística.
“Visto que nossa meta de des-humanizar oculta uma tentativa de re-humanização, em outro sentido mais
clássico do ‘humano’, precisamos explorar a psicologia da Renascença, onde o termo humano é
tão importante... a humanitas renascentista começou entre os leitores e escritores como um cuidado
com os conteúdos da imaginação intelectual”. [193-4]
Sua conclusão no Re-Visioning foi a seguinte: precisamos explorar, e mais que explorar, re-inventar uma
psicologia inspirada, mas não copiada, na Renascença.
Para aceitar a torção radical que Hillman estava, então, dando à psicologia, a cultura
como um todo pode ter tido necessidade de fazer um desvio para reconhecer o fato de que “nós tivemos cem
anos de terapia e o mundo continua pior “. Entretanto, nós podemos estar prontos para uma redefinição
radical da terapia.
Uma vez que vocês são membros desse Convivium, estou convencida de que têm uma rica imaginação
sobre a Renascença. Se a psicoterapia deve sobreviver a sua atual crise de transformação,
nós podemos precisar usar todo nosso poder imaginal, cada detalhe de nossa herança ocidental. Algumas
dádivas memoráveis que a Renascença nos deu foram negligenciadas por estarmos muito ocupados
com ciência e medicina, e eu gostaria, agora, de examinar com vocês, algumas dessas dádivas
negligenciadas.
1 - A Dádiva da Consciência Histórica
Para aproveitar essa dádiva, não é preciso regressar
à Renascença nem à Antigüidade. Não precisamos renascer pagãos para nos
tornarmos arquetipalistas
Muitos historiadores não gostam do termo renascença por ele acarretar implicação com
o renascimento da antigüidade grega e romana.
Mas a antigüidade para a qual a Renascença estava retornando não era a histórica, era
a imaginal. De fato, a Renascença, embora admirasse o passado grego e romano, mostrou uma surpreendente
falta de respeito pelas relíquias do passado. Arqueólogos, hoje, ainda não toleram a idéia
de que os artistas do Cinquecentos, quando a escultura etrusca da loba foi encontrada no Capitólio, simplesmente
adicionaram os gêmeos desaparecidos - Rômulo e Remo. A genialidade da Renascença não
consistiu em reviver a Antigüidade, mas em usar a Antigüidade como inspiração para criar
algo novo e original. Se houvesse necessidade, os homens da renascença não hesitariam em roubar,
distorcer e se apropriar de idéias e materiais que eles estivessem redescobrindo.
Então, se a Renascença não foi um renascimento da antigüidade, onde está o valor
na revificação grega agora? Acredito estar no valor da consciência histórica.
Podemos resistir à idéia de que a história inspiraria a psicoterapia. Historiadores, como
psicólogos, sociólogos, criminologistas, entre outros, caem na armadilha de fazer promessas que não
poderão ser cumpridas. Talvez alguns de vocês se lembrem de como o estudo da história se acreditava
ser uma panacéia: supunha-se prevenir a repetição dos mesmos velhos erros. Mas, então,
por causa de suas promessas quebradas, os historiadores foram atacados: centenas de análises brilhantes
da queda do Império Romano não impediram a queda de qualquer outro império, seja francês,
inglês ou russo. Os historiadores poderiam ter publicado um livro chamado ”Nós temos centenas de anos
de história e o mundo ainda não aprendeu”.
A linguagem histórica tornou-se mais modesta e essa lição de humildade fez muito bem aos historiadores:
foi permitido a eles retornarem a sua real paixão.
A paixão de um historiador não está em predizer, nem prevenir, ou curar a doença do
presente, através do conhecimento passado.
A vocação de um historiador não é um chamado para a ação. O verdadeiro
historiador quer duas coisas: entender e contar.
Entender a humanidade e contar sua história. Comparar estórias. Guardar estórias. Contá-las
novamente em cada nova geração. Os fatos não mudam, da mesma forma que não mudam os
fatos de nossas biografias e, ainda assim, o historiador nunca exaure o desejo de sempre entender novamente, nem
o desejo de tecer essa compreensão em uma estória.
De onde viemos? Quem somos? Eis o projeto total do historiador e isso poderia ser o nosso também, se estivéssemos
preparados para sermos modestos. Então, a relação com o passado pessoal não seria explorada
com a intenção de prevenir neuroses ou restaurar a saúde mental, seria oferecida como uma
avenida para aprofundar o conhecimento de quem sou e de onde vim.
Quando um cliente pergunta “o que estou obtendo com meu dinheiro?”, poderíamos responder: uma dádiva
da consciência histórica pessoal.
Sem a necessidade de falsas promessas: poderíamos contar a eles, de antemão, que uma pessoa desconhecedora
de seu passado não é, necessariamente, menos feliz, nem é mais neurótica ou menos funcional...,
de certa forma, aquela pessoa é simplesmente menos rica, como uma cidade sem museus, uma nação
sem historiadores, sem escritores, sem artistas. Em uma psicologia que é conhecimento da alma , não
cabem perguntas como: “estou curado?”
A questão deveria ser: “aprendi algo?” Vejo isso como um caminho de retorno da psicologia para sua função
original: o aprender sobre a alma.
Não estou negando que a terapia possa ter efeito curador. Benefícios clínicos são bastante
evidentes. Mas, penso que precisamos fazer uma retirada estratégica dessa linha de frente clínica.
Seria vantajoso considerarmos os benefícios clínicos da terapia como benefícios secundários;
algo que um seguro não pode forçar-nos a garantir, não por não serem coisas importantes,
mas porque o terapeuta não tem poder sobre elas.
Nesse sentido, podemos achar mais útil não enfatizar a imagem do terapeuta como doutor, pastor, curador
... em favor do terapeuta como professor, cuja tarefa é, então, ajudar ao paciente a aprender algo.
O que o cliente faz com sua consciência histórica, recentemente descoberta, não é mais
da nossa conta, tanto como não o é, como professores, a escolha da profissão de seus alunos.
E, Deus sabe que o que os estudantes acabam fazendo com suas vidas é, muitas vezes, imensamente diferente
daquilo que pensamos que estávamos preparando-os para fazer.
A idéia de fazer-alma é diferente da que foi formulada como saúde mental; Hillman fez um ótimo
trabalho sobre isso; é necessário, apenas, ler seus livros. Mas, uma vez que as velhas noções
desapareceram, necessita-se de uma multiplicidade de novos caminhos para expressar a nova consciência. Um
objetivo da terapia orientada para a consciência histórica seria permitir-se dizer “sou meu passado”,
como a história nos permite dizer “sou greco-romano” e “sou judeu” e “sou cristão”, ou o que seja...
tudo isso é minha estória.
Agora vamos examinar uma segunda dádiva:
2 - Humanismo
O tipo de humanismo que vejo como nossa dádiva da Renascença
pode ser resumido em uma idéia; um ser humano não pode existir sem uma cultura.
Essa forma de humanismo está em oposição à visão do mundo cristã, onde
supõe-se que o homem possa permanecer sozinho com sua consciência moral, visto e julgado apenas pelo
Olho de Deus.
Pode parecer paradoxal que a Renascença tenha insistido em que somos seres culturais, ao mesmo tempo que
não enfatizava a noção de individualidade. Mas, então, não há contradição
realmente: ser humano significa que não podemos existir sem a cultura, mas também, nós, humanos,
somos livres. Individualidade torna-se individuação quando esse paradoxo aparente for resolvido.
A compreensão de que seres humanos não podem existir sem um cultura trouxe outra consigo: a de que
todos os elementos de uma cultura funcionam como um todo. Arte, ciência, religião, filosofia, história,
psicologia devem ser separados em campos diferentes por razões práticas, mas não devemos esquecer
que funcionam como um todo, todos conectados misteriosamente, como na pessoa de Leonardo Da Vinci, a Renascença
personificada.
Seguindo essa compreensão, penso que a psicoterapia poderá tentar reconectar-se com partes de nossa
cultura, das quais costumávamos ser próximos. Os aliados esquecidos a que estou me referindo são
a literatura e a filosofia.
Lembrei-me, quando escrevendo esse texto, quão freqüentemente a leitura de um romance ou o assistir
um filme elevaram minha consciência. Alguns romances, alguns filmes, foram, para mim, verdadeiramente iniciáticos.
Até minha escolha de estudar psicologia veio após ler Marcel Proust, um dos heróis intelectuais
da minha juventude, um verdadeiro gênio do “ver através” das almas.
Quatro anos atrás, decidi tentar ser uma escritora. Nada em toda minha vida foi tão terapêutico
como escrever ficção. Terapia incrível, mas bastante custosa: deve-se estar preparado para
viver uma vida monástica, ganhar menos dinheiro, talvez perder amigos e oportunidades na carreira, por se
estar totalmente tomado pela estória e personagens. Eu tive que colocar um ponto final nessa paixão
por não estar preparada para me tornar escritora o tempo todo com todos os riscos envolvidos. (Um benefício,
contudo, é que quase olho para frente, em direção à velhice e recolhimento quando poderei
voltar a escrever ficção).
Voltando à minha vida como terapeuta e professora de psicologia, não poderia esquecer o poder terapêutico
de escrever ficções. Como resultado, terminei roubando e adaptando para a terapia entendimentos e
idéias aprendidas de livros práticos tais como, Art of Ficcion (Arte da Ficção), de
John Gardner, ou de um curso de computador interativo, chamado Write Pro.
Por exemplo, um erro que todos os escritores amadores cometem é contar a história como se as coisas
acontecessem com o protagonista. Isso não funciona. Não se pode escrever um romance na voz passiva.
A tarefa do escritor é mostrar o que o protagonista faz com o que fizeram com ele ou ela. Uma história
pode começar com abuso e vitimização. Certo. E então? Para onde você vai? Um
romance não pode ser escrito do ponto de vista de uma vítima, por que uma vítima não
faz coisas acontecerem; uma vítima é prejudicada pelo que houve e a estória pára aí.
Para haver uma estória, o protagonista tem que transformar sua sina em destino.
Tornar-se ativo em seu destino é parte intrínseca do maior objetivo da terapia. A terapia começa
com um paciente que não se sente fazendo coisas acontecerem; uma vítima prejudicada pelo o que aconteceu;
uma vítima não escreve o script de sua vida; o script é sentido como imposto. A terapia, definida
por um novelista, é um processo pelo qual uma vítima é transformada num herói, e um
herói é definido como um personagem que se afasta dos caminhos esperados, aprende, tem desejo, toma
o controle, expressa liberdade.
A vida vivida no estilo da vítima é tão enfadonha, sem sentido, como um romance ruim. Nós,
como terapeutas, assistimos nossos pacientes enquanto eles reescrevem, editam, melhoram, aceleram a ação,
deletam e acrescentam à ficção com que eles vivem.
Outras regras básicas para o desenvolvimento de qualquer narrativa, inspirou-me enormemente como terapeuta.
Eis aqui algumas dessas regras práticas e sua aplicações para a terapia.
A) Para que a narrativa tenha uma tensão dramática, o protagonista deve querer algo intensamente.
Na terapia, isso significa que se deve ajudar o paciente a identificar o que ele ou ela quer fortemente.
B) Deve haver uma força (que pode ser um outro personagem, uma
situação, o que for...) que se opõe ao desejo do paciente.
Na terapia: identificar esta oposição.
C) Todo herói precisa de um vilão.
Quem são os vilões na vida do paciente?
D) Um vilão não precisa ser mau.
O cliente entende isso?
E) Mostrar, não contar.
Por trás da narrativa, o que o cliente está tentando mostrar realmente? Um cliente diz, “meu pai
tinha uma personalidade hostil” e com isso ele quer mostrar como o pai não falava muito à mesa do
jantar. Outro diz, “meu pai tinha uma personalidade hostil” e com isso ele quer mostrar que o pai batia constantemente
nele por anos e finalmente matou sua mãe. O terapeuta, e o paciente, tem que ver através da narrativa.
F) Surpresa cria suspense
Uma emoção dolorosa tem o valor quanto a seu efeito como uma surpresa.
A psique ama surpresas, elas mantém-na alerta.
G) As características mais interessantes de um personagem podem ser complexas, vistas por alguns como favoráveis
e, por outros, como desfavoráveis.
Terapia não é sobre bondade, mas complexidade.
Basta de literatura.
Gostaria, agora, de falar sobre outro amigo negligenciado da psicoterapia: a filosofia, também parte da
dádiva do humanismo.
Pode-se precisar usar mais imaginação para renovar a antiga aliança da terapia com a filosofia;
ou, talvez, eu tenha um problema pessoal aqui.
Venho de uma família onde muitos dos homens foram professores, ou tradutores, ou escritores de filosofia
e meu irmão é um editor de livros filosóficos. Quando eu era adolescente, adorava falar de
filosofia com ele, mas odiava quando ele me empurrava para um canto filosófico; parecia, naquela época,
que o ponto principal da filosofia era precisamente esse: silenciar o oponente com um argumento cabal que o deixaria
com a boca aberta e com a mente vazia. Mas lembro-me de amar os livros que meu irmão me deu para ler, e,
agora, gostaria que a psicologia desse outra chance à filosofia. A pobreza da cultura filosófica
atual é estarrecedora: como exemplo, eu li outro dia que um americano de nível médio, quando
questionado “como o universo começou?”, não poderia dizer nada mais que: “começou com o Big
Bang!” É isso: uma cosmogonia em duas palavras. O estudante de nível médio de psicologia não
é muito melhor, e sinto isso como uma lacuna terrível porque, de Sócrates a Montaigne, a tarefa
filosófica foi endereçar questões básicas sobre as quais todos os humanos se perguntam:
o que é beleza, verdade, bem e mal? Desse tipo de filosofia todos nós precisamos; mesmo como crianças,
nós almejamos por uma boa conversa filosófica alguma vez. Filosofia é algo de que a alma necessita,
desde a infância, até o momento de morte.
Um psicoterapeuta não está aqui para dar a seus clientes leituras sobre verdade, beleza, a natureza
do bem e do mal. Menos ainda é sua função definir moralidade.
Os Gregos, por sinal, costumavam se queixar de que as gerações mais jovens eram moralmente mais relaxadas
e os Romanos queixavam-se sobre as mesmas coisas, da mesma forma que os Cristãos e, agora, nós também.
Tudo o que essa queixa nos mostra é que a moralidade muda ou que há mais de um padrão para
julgar um situação. Como politeístas, nós deveríamos estar atentos ao fato de
que a moralidade de Hermes não é a de Zeus e que um comportamento, que é bom em um contexto,
pode ser totalmente errado em outro.
Como psicoterapeutas, não nos cabe decidir qual deveria ser o arquétipo reinante, mas cabe a nós
identificá-lo e tornar claro sob que padrão o paciente está julgando uma situação.
Esse tipo de trabalho poderia ser chamado de filosófico. Alguns pacientes buscam nossa ajuda por não
estarem conscientes da moralidade nas quais vivem, então, é claro, eles têm problemas em decidir
o que lhes é bom e o que lhes é mau. Eles odeiam seu comportamento impulsivo e emoções
contraditórias.
Se tivermos sido treinados para tratar sua confusão apenas como um problema emocional, então arriscaremos
ignorar sua necessidade filosófica. Novamente, por certo, não estou sugerindo que comecemos a ensinar
nossos pacientes sobre nada.
Tudo que estou sugerindo é que nossa imagem como terapeutas possa ser beneficiada com o exemplo de Sócrates;
ser humano significa ter uma filosofia sobre a vida; qual é essa filosofia? Alguns de nós precisam
de ajuda para descobri-la. Há tanta necessidade de conhecermos nossas suposições filosóficas
como há necessidade de conhecermos nossas emoções. O método de Sócrates era
assistir o momento em que, da mente, nascia um sistema coerente de valores para se viver.
Uma terapia aberta à influência da filosofia ajudaria o indivíduo na tarefa de organizar a
desordem de seus valores num sistema coerente. Um sistema filosófico coerente, mesmo artesanal e, evidentemente,
longe da perfeição, nunca é mais confortável que confuso.
Agora, vamos olhar a terceira dádiva da Renascença:
3 - A Integração da religião e psicoterapia.
Os gregos não tinham o que chamamos de uma psicologia, por que estava incluída em sua religião.
Eles nem mesmo tinham, de fato, uma palavra para religião. Tudo estava em suas estórias e imagens
de Deuses e Deusas.
Com exceção de Ficcino, pouca atenção foi dada na Renascença para a psicologia
inerente na mitologia greco-romana. O fato dela ser pagã era um obstáculo gigantesco. Era, evidentemente,
menos perigoso insistir na grandeza dos gregos nas matemáticas, ciência, arquitetura, arte e medicina,
etc.
Uma conseqüência é que o valor desse sistema incrível arquetípico somente começou
a ser explorado recentemente.
Aqui, devo confessar que tenho o sentimento irresolvido de que a psicologia arquetípica começou a
tirar a inspiração da mitologia pagã e já há um perigo que Deuses e Deusas sejam
literalizadas, como os anjos estão literalizados nos sensitivos. Ou, eles poderiam ser transformados em
relíquias, petrificados em dogmas, transformados em enfadonhos clichês ou cobertos por jargão
esotérico. Receio, algumas vezes, que meus amados deuses e deusas pagãs morram por estarem muito
expostos na Psicologia Pop.
Ou temo o rigor mortis acadêmico dos mitólogos bem intencionados que estão sempre horrorizados
que arquetipalistas como nós quiséssemos renovar e continuar as histórias. Eles, sinceramente,
acreditam que essas histórias não tem significado para nós hoje, que elas tinham sentido somente
lá e naquela época, para Gregos e Romanos. Eles expressam as mesmas emoções que aqueles
arqueólogos que ficaram horrorizados ao descobrir que a Renascença não somente adaptou e tomou
emprestado, mas transformou, distorceu e roubou da antigüidade. Sim, posso entender que a situação
ideal para eles é quando todos os objetos do passado possam ser selados em sacos plásticos e catalogados
em um enorme banco de dados. Mas, gostaria, pelo contrário, de manter as estórias vivas.
Alguns mitólogos estão nos censurando da mesma forma como desprezaram o arqueólogo, Sir Arthur
Evans, por ter cometido algo impensável: em 1900 ele comprou a terra que continha as ruínas do Palácio
de Cnossos e começou suas escavações. Em seu desejo de restaurar as estruturas básicas
e as proporções do palácio de Minos, ele ergueu muros e colunas e redesenhou figuras semi-apagadas
com o que ele pensou serem pigmentos originais. Sua intenção era similar a nossa: dar uma nova vida
às antigas imagens.
Temos mais sorte, por que não temos que lidar com pedras e construções, mas com palavras;
acrescentar a um mito não precisa ser como acrescentar uma nova cobertura de tinta que destrói a
pintura original.
Mas, contudo, a censura, por parte da comunidade acadêmica, é igualmente perigosa, e se não
formos cuidadosos, isso poderá destruir nossa inspiração.
Devo parar agora, mas com o sentimento de que há mais, muito mais a redescobrir, reconectar.
Entender nossas raízes e sermos capazes de contar nossa estória, sentir e ver através da cultura
em que vivemos, comunicar com as palavras certas, encontrar os rituais certos para momentos transicionais, traz
em si uma satisfação incrível.
Isso não é uma resolução de problemas, e não um tratamento do sofrimento também.
Mas é especificamente humano e que deveria ser amplamente válido.
Não é mais necessário fazer promessas que não possamos manter, promessas que a apólice
de seguro não é mais capaz de cobrir; promessas que são responsáveis pelo legalismo
absurdo que está começando a corromper os fundamentos da relação entre analista e analisando,
um erro muito pior que o de Evans. À medida que nos imaginamos educadores, historiadores, parteiros socráticos
dos conteúdos da consciência, nosso trabalhos, como o de todos os educadores, é uma operação
cultural. Essa mudança em nossa imaginação não seria uma mudança radical, simplesmente,
um retorno às origens.
Historicamente, aqueles interessados na psique ligaram este entendimento a um entendimento da cultura. Não
se pode ler Freud, nem Jung, nem Hillman, sem nos darmos conta de como para eles a psique não pode ser separada
da cultura. Eles constantemente se referem à história, mitologia, literatura, arte, alquimia ...
e, ao mesmo tempo, cuidam de não igualar a psicologia com nenhuma delas.
Uma leitura de Tarot, por exemplo, ou um hexagrama do I-Ching, ou uma consulta astrológica podem ser todas
atividades cheias de alma, mas, como opostas à psicologia, elas são a-históricas, fora desse
tempo e espaço. Também são ferramentas não racionais. Ótimo.
Eis em que a psicologia difere: nosso trabalho deveria ser cuidar da psique no contexto cultural e histórico
em que vivemos. A psicoterapia não deveria tentar copiar a inclinação a-histórica,
não racional e anti-intelectual, não por essas abordagens serem inferiores, mas porque memória
e racionalidade, como nossa propensão de pensar filosoficamente, imaginar artisticamente e entender historicamente
são parte de quem somos. Tudo que é parte de nossa cultura, é parte de nossa psique e, então,
deveria ser parte de nosso logos psíquico.
Concluindo, uma vez que nós pararmos de fazer promessas que não podemos manter, nós descobriremos
que temos mais que o suficiente para estarmos contentes.
A inscrição no portal do templo de Apolo em Delphos conhece-te a ti mesmo é uma agenda extraordinária,
que poderá nos manter ocupados por muito tempo.
Tradução: Marta Chagas