Essa Idade Média é resolutamente masculina. Pois todos os relatos que chegam até mim e me informam vêm dos homens, convencidos da superioridade do seu sexo. Só as vozes deles chegam até mim. No entanto, eu os ouço falar antes de tudo de seu desejo e, conseqüentemente, das mulheres. Eles têm medo delas e, para se tranqüilizarem, eles as desprezam. Mas preciso me contentar com esse testemunho, deformado pela paixão, pelos preconceitos, (...). Apresso-me a explorá-lo. Na verdade, eu gostaria de descobrir a parte oculta, a feminina. O que era a mulher nessa época longínqua, eis o que (...) me esforço por descobrir.2
). A barra que
incide sobre esse lugar aponta para a falta de Um significante, o significante do Outro-sexo. É nesse sentido
que esse lugar é atravessado por um furo. Os significantes se infinitizam, havendo sempre lugar para mais
um. No campo do Outro, o falo como significante funda a Diferença. Marco Antonio Coutinho Jorge, no seu
livro, Sexo e Discurso, faz questão de destacar a hiância que se estabelece entre os traços
sexuais anatômicos e a posição de um sujeito diante do sexo:Cabe lembrar, enfim, com Lacan, para a psicanálise o corporal é uma contingência por meio da qual o desejo se inscreve e que homem e mulher não são nada mais que significantes. Quanto ao sujeito, este não tem sexo, pois ele é o sexo, a secção que habita o intervalo entre os lugares, significativamente designados, do homem e da mulher.4
Mulher - e há um gozo suplementar – gozo
das mulheres. Sobre o primeiro, o falante nada sabe. Quanto ao segundo, trata-se de um gozo que não passa
pelo sexo e sim pela fala.5(...) o que chamamos de gozo sexual é marcado, dominado, pela impossibilidade de estabelecer, como tal, em parte alguma do enunciável, esse único Um que nos interessa, o Um da relação sexual. (...) o gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da mulher, precisamente porque de que ele goza é o gozo do órgão. O gozo, enquanto sexual, é fálico, quer dizer, ele não se relaciona ao Outro como tal.6
mulher.Senhor fremosa e de mui loução
coraçom, e querede- vos doer
de mi pecador, que vos sei querer
melhor ca mi; pero sõo certão
que mi queredes peior d'outra rem,
pero, senhor, quero-vos eu tal bem.
Qual maior poss', e o mais encoberto
que eu poss'; e sei de Brancafrol
que lhi nom ouve Flores tal amor
qual vos eu ei; e pero sõo certo
que mi queredes peior d'outra rem,
pero, senhor, quero-vos eu tal bem.
...........................................................
Qual maior poss', e todo'aquest'avem
a mim, coitad'e que perdi sém.9
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
E ay Deus, se verrá cedo!
.......................................
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ay Deus, se verrá cedo!10
Ondas do mar de vigo,
Se vistes meu amigo?
E ay Deus, se verrá cedo!11.................................................
Tal vay o meu amigo, com amor que lh'eu dey,
Come servo ferido de monteyro d'el-Rey..................................................................
E, se el vay ferido, irá morrer al mar;
Si fará meu amigo, se eu d'el non pensar.12
Por muy fremosa que sanhuda estou
a meu amigo, que me demandou
que o foss'eu veer
a la font', u os cervos van bever.......................................................
Afeyto me ten já por sandia,
que el non ven, mas envia
que o foss'eu veer
a la font', u os cervos van bever..13
Digades, filha, mya filha velida,
porque tardastes na fontana fria.
Os amores ey......................................................
- Tardey, mya madre, na fontana fria,
cervos do monte a áugua volviam
Os amores ey........................................................
Mentir, mya filha, mentir por amado,
nunca vi cervo que volvess'o alto.
Os amores ey.14
Eno sagrado en Vigo,
baylava corpo velido:
Amor ey!.......................................
Baylava corpo delgado,
que nunca ouver'amado:
Amor ey!.......................................
Que nunca ouver'amado,
ergas en Vigo, no sagrado:
Emor ey! 15.

mulher, e, sem deixarem de ser homens e fazendo questão de ostentar as insígnias que
simbolizavam a virilidade, falaram como mulheres nas cantigas de amigo.