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A METAMORFOSE DO OUTRO


ADRIANA CÖRNER LOPES DO AMARAL

 

INTRODUÇÃO

Embora tomando a obra de Franz Kafka como um todo, pois as questões que serão abordadas perpassam diversos de seus textos, partirei do conto que inspira o título deste trabalho: A Metamorfose.
Minha leitura desse conto não será uma análise textual rigorosa, visto que isso já foi bem explorado, mas ponto de partida para indagações a respeito do próprio sentido do texto como problematização, bem como para discutir questões filosóficas, literárias e teológicas através do conceito de transcendência.
A obra de Franz Kafka se situa em uma época que ao abandonar o sentido divino como explicação para a vida, para o mundo, enfim para tudo, caiu em um vazio dominado pela esfera do humano, que também já não se supria apenas com o racional. Ou seja, após a religião, a razão também entrou em crise. Nesta chamada crise da modernidade, o sujeito que a princípio encontrava sua transcendência no divino e depois passou a ser o centro do universo com o cogito, apaga sua subjetividade e se esfacela.
O narrador dos textos de Franz Kafka de um modo geral é este sujeito que não conhece a si mesmo e ao seu destino, que usa uma linguagem objetiva para esconder sua subjetividade, que se mistura à multidão ( Josefine ) ,que tenta a todo custo se afastar e ser esquecido ( A Toca, o Jejuador, A Metamorfose ), que busca infinitamente algum sentido e não tem respostas nem saída ( O Castelo, O Processo, Amerika, Diante da lei, Gib's auf, Kleine Fabel ).
Mas, talvez, seja exatamente bem no meio dessa crise da modernidade e do sentido, não só da vida mas do texto, que se abram as diversas possibilidades de leitura e aqui outra questão se interpõe: a questão da transcendência do autor através do texto.
Como posso ler Franz Kafka hoje, de acordo com um pensamento pós-moderno que não concilia opostos, não substitui conceitos e verdades por outros, antes dissemina multiplicidades. Será que tenho a liberdade de ler o outro texto, o texto do outro em sua singularidade com a singularidade do meu texto?Como responde Jacques Derrida, estruturalista que desviou para um caminho próprio, individual e singular ( TEIXEIRA,1996 ) ao ser entrevistado por Derek Attridge em This strange institution called literature ( ATTRIDGE,1992 ) :

"But I can only respond to it in a responsible way ( and this goes for the law in general, ethics in particular ) if I put in play, and in guarantee [ en gage ], my singularity, by signing, with another signature; for the countersignature signs by confirming the signature of tht other, but also by signing in an absolutely new and inaugural way, both at once, like each time I confirm my own signature by signing once more: each time in the same way and each time differently, one more time, at another date." (p.66-67 )

Cada texto único e singular, portanto dificilmente institucionalizável, se dá a outro texto, também único e singular, se dá para o outro e outra assinatura e em outra data, transcendendo no tempo. O vazio de sentido ou a existência vazia do sujeito, que se verifica na obra de Franz Kafka, justamente permite e facilita antes uma ampliação do que uma redução da interpretação e do próprio sentido de seus textos.
Escrevendo a partir de uma pós-modernidade, esta crise da modernidade é um campo propício para essa proliferação de sentidos. O vazio se preenche do múltiplo.
Um bom exercício para se operar esta multiplicidade pós-moderna pode ser feito com o conceito de transcendência. Do ponto de vista místico a transcendência é a superação do humano a caminho do divino. Com a crise do divino e a ascenção da razão, surgiu a necessidade de outra transcendência, já que a esfera do divino foi substituída pela esfera humana. E essa transcendência seria possível através do amor ( FERRY,1997 ), ou seja , do caminho que leva ao outro. ( o que não exclui o amor como forma também de chegar a Deus, em uma visão teológica.FORTE,1991 ). Esta é uma forma de resgatar, curar ( VATTIMO,1987 ) um conceito de sua acepção tradicional. Outra transcendência possível, e devem existir muitas outras, se daria através da linguagem, especificamente através da literatura. Quem escreve se lança, se projeta para o futuro e se eterniza. Transcende através de seu texto.( DERRIDA,1995 ).

Será que na obra de Franz Kafka encontram-se estas transcendências? No conto A Metamorfose o narrador sofre uma transformação que gradativamente e definitivamente o afastará dos seres humanos, desde seu isolamento até a sua morte. Mas o que restará? Após esta transformação radical sofrida, ele por um lado é bem sucedido, pois é esquecido; mas, por outro lado, a verdadeira transformação ocorrerá não com ele, mas com os outros: o pai do narrador sai da completa apatia para a atividade, a irmã sai da solidão para o convívio, a família ( pai, mãe e filha ) antes presa ao escuro do lar sai para o sol, para a vida, para um futuro que promete felicidade. Por mais que um sujeito imagine ser possível viver sozinho, mesmo que ele seja esquecido, seus atos produzirão efeitos nos outros. Essa transcendência do eu para o outro pode ganhar tanto sentido filosófico, religioso, literário quanto outros.

A questão do ser atravessa toda a história da filosofia e em nenhum momento o ser pode se esquivar de sua existência, de seu estar-no-mundo, até mesmo o ser heideggeriano, que estaria lançado e já ausente no mundo existente ( VATTIMO,1987 ), pois a trajetória do ser no mundo é inimaginável sem a alteridade e esse outro pode tanto ser outro ser quanto Deus.

Na literatura é possível conceber esse outro também como o leitor, seja ele contemporâneo ou não. O contexto de produção diferente do contexto de recepção, portanto, em épocas diferentes permite uma transcendência do lado da produção, mas também cria uma dificuldade no lado da recepção: como apreender o sentido original e ao mesmo tempo atualizar, recontextualizar para época da leitura? Poderia a performatividade do texto ficcional transcender ao ato de produção e se realizar no ato de recepção ? (ISER,1996 ; AUSTIN,1962 ).

Estas questões serão refletidas a partir de A Metamorfose e outros textos de Franz Kafka, cujos sentidos não se entregam facilmente, antes revelam um vazio, um impasse e um problema.
Problematizar em vez de apresentar soluções parece ser a palavra-chave da pós-modernidade e é por isso que qualquer texto que denuncie uma crise e uma busca, oferece neste ponto uma porta de entrada para a multiplicidade. Como exemplo, aproveito o conto A Toca de Franz Kafka, onde um texugo, determinado a se afastar de vez da humanidade, cava para si um esconderijo imprescrutável e por longo tempo tem êxito, mas ao final da vida , já cansado, ouve um barulho que o cerca de todos os lados, de baixo, de cima, o qual é impossível evitar. Essa ameaça que vem de toda parte e não permite a solidão total desse narrador, pode vir de Deus, do homem, da própria consciência, ganhando assim sentido ou filosófico, ou místico,ou psicológico ou outros .
O objetivo deste trabalho será também antes indagar do que responder. Problematizar questões filosóficas, literárias e teológicas a partir da literatura. Será o narrador dos textos de Franz Kafka às vezes santo, filósofo ou poeta? Um pouco ou nada de cada um desses? Ou simplesmente um sujeito que indaga e não encontra respostas? Que tenta se isolar em uma imanência e fracassa sempre, porque a transcendência e a alteridade são inevitáveis para quem está no mundo?

I. IMANÊNCIA, TRANSCENDÊNCIA E ALTERIDADE

El universo es amor.
Un electrón nunca quiere estar solo.

Ernesto Cardenal

Não leiam esse texto. Eu o escrevi para mim .Trata-se de uma compulsão, uma necessidade imperiosa de satisfação pessoal. Franz Kafka teria dito algo semelhante a essas palavras para expressar o espírito com que escrevia seus textos. Esse é o primeiro paradoxo que cerca sua obra e sua vida, que poderia ser qualificado de momento da imanência. Entretanto, qualquer um que escreva um texto, sobretudo o texto artístico e literário, com esse mesmo espírito, e assim deve ser, deve estar preparado para ser contrariado, pois o texto uma vez pronto não pertence ou não pode mais ser controlado por quem o escreveu, ele ganha vida própria, transcende ao seu criador. Eis aí o paradoxo: é preciso que o ato de escrever surja de um momento individual e singular, que não se queira dividi-lo com ninguém, para em seguida pertencer à universalidade, à humanidade, ou melhor, ao outro. O momento da imanência é paradoxal porque impossível. Nada faz sentido sem o outro. Imanência, transcendência e alteridade são conceitos que precisam ser analisados juntos, pois nenhum ser, mesmo que não o queira, pode escapar de uma imanência onde sempre haverá o sentimento do fora de mim, da transcendência, que só terá sentido na alteridade ( FERRY, 1997 ).
Um texto é lançado no tempo e no espaço a partir de uma cena originária que não se repetirá mais a não ser em diferença para o outro ( DERRIDA, 1990 ). A noção de iterabilidade proposta por Jacques Derrida significa que o sujeito pensado em um horizonte de linguagem, ou seja, um sujeito enunciador de um texto, será repetido mesmo depois de sua morte. O eu vivo desloca-se no tempo com a morte. A finitude passa a ser a condição da transcendentalidade. Trata-se de um novo conceito de transcendência, elaborado a partir da linguagem, do signo. Tudo o que é dito abre-se ao outro no dizer, que é puro envio, endereçamento, sobrevive-me para além da minha morte, transcende a mim. Geoffrey Bennington ao comentar a obra de Jacques Derrida chamou essa alteridade de necessidade de contaminação, parasitagem do outro através do Ser e do Ser através do outro, ainda que esse outro seja eu mesmo em outro momento.( BENNINGTON, 1996 ,p.213-14 ). O momento da imanência da criação de um texto, que para Jacques Derrida é uma cena originária, é apenas um marco já destinado à transcendência através da repetição (iterabilidade) para o outro (alteridade).
Queime todos os meus textos. Esse é o segundo paradoxo kafkiano. Esta frase teria sido dita por Franz Kafka a seu melhor amigo, Max Brod, ou seja, ao outro. Por que não queimou ele mesmo seus textos? Depois de escrever quase sempre isolado fisicamente e mentalmente do convívio humano, e de julgar seus escritos tão pessoais, ainda assim foi ao outro que ele confiou a destruição de sua obra. Ele atribuiu a função de destruir a sua obra ao outro, após a sua morte. Embora sua obra portasse a sua assinatura singular e o seu nome, ele não se julgou no direito ou não foi capaz de a destruir ele mesmo. De fato, sua obra não lhe pertencia mais, a não ser como herança para o outro. Esse é o momento que poderíamos chamar de momento da transcendência e simultaneamente da alteridade de um texto após ele ser criado.
Esses dois paradoxos, apontados como kafkianos, na verdade, traduzem o momento da imanência e o momento da transcendência não só da obra literária mas de toda obra de arte. O primeiro paradoxo, o da imanência, é o do artista que cria algo para si e tem que dividir com o mundo o que criou, estando parte do valor do objeto artístico exatamente nesta contradição entre o pessoal e o universal, pois quando mais for a expressão de algo individual, mais valor terá para os outros. E o segundo paradoxo, o da transcendência, é o do objeto artístico, que já sem o controle de quem o criou ainda carrega a sua assinatura, lembrando constantemente do momento da criação, da imanência, ao mesmo tempo que se destina para o outro. A obra de arte, embora criada por um sujeito, lhe escapa em direção ao outro. A transcendência, assim, faz o elo entre a imanência ( eu) e a alteridade ( outro ).
O sentido da arte e também o da vida só podem ser concebidos a partir dos conceitos de imanência, transcendência e alteridade. Principalmente de alteridade, pois a arte e a vida só fazem sentido se fizerem sentido para o outro. A arte ( e também a vida ), como lembra Luc Ferry ( 1997, p.160 ) tinha dimensão quase religiosa, no sentido de divino como algo que escapa ao homem e o transcende. Entretanto, a partir do momento que se formulou que nem tudo que escapa ao homem transcende necessariamente a caminho de Deus, a arte ( e também o homem ) perde a dimensão divina. A transcendência imaginada sem Deus, se faz, no plano espacial, para o homem, para o outro sujeito, e no plano temporal, se faz com a história, mas também para o outro sujeito, só que em outra época. Essa transcendência temporal é, por exemplo, a da arte que atravessa os tempos, imortalizando seus autores, mas é também, e existem outras, a da história. Karl Marx reinterpretou a salvação divina como salvação na história, ou seja, no tempo: trabalha-se hoje para construir algo para o futuro. O próprio homem é que salva a si mesmo projetando-se para além dele, realizando obras que o transcenderão.
Essas obras que abrangeriam não só a obra de arte, mas tudo que é produzido pelo homem, são a lembrança constante do artista que as criou, entretanto, embora não se possa esquecer sua assinatura, o valor está no objeto. Segundo Luc Ferry, uma crise se instaura quando o valor, a verdade, o significado da arte se transfere do objeto para o artista. ( FERRY, 1997, p.161 ) Esta subjetivação da arte, de fato, como se viu até agora, acontece, mas em um primeiro momento, o momento da criação, da imanência. A partir daí ela perderá totalmente o sentido se não se deslocar, transcender para o outro. A arte possui algo de sublime, não mais como fruto de um dom divino, mas porque com a arte o sujeito expressa não só seu sentimento mais íntimo e individual, como tem incorporado em si o universal e até mesmo a idéia de Deus. O artista é, no fundo, alguém despojado, que sente necessidade de se dar ao mundo e de dar algo ao mundo. E se existe algo de divino, está nesta doação, nesta renúncia de si, de seus segredos, memórias, intimidades, para compor com a sua individualidade e singularidade, uma universalidade. A obra de arte é talvez uma das formas mais perfeitas de transcendência do ser, que imortaliza o artista e o faz sobreviver através dela, porque resume tudo aquilo que transbordou de um ser que interagiu com o mundo e com os outros homens, um ser que superou a si mesmo e que se repetirá, ressuscitará, resurgirá, ou seja, será lembrado a cada época através dos tempos. Na obra de arte o sujeito coloca a si mesmo, o mundo, o outro e até Deus pode ser reencontrado, se repensado em termos de transcendência na imanência como propõe Luc Ferry ( 1997 ) : se o homem , por um lado , humanizou o divino, por outro lado e ao mesmo tempo, divinizou o humano. Deus passa a existir no homem e não fora dele, ou melhor, a partir do homem, pois o único caminho possível para o homem é o que o leva para o outro homem e simultaneamente ou conseqüentemente para Deus. A idéia de divino é que se modifica e passa a ser esta entrega ao outro, essa renúncia de si, que tiraria o homem do egoísmo, do individualismo, encontrando no amor um elemento imprescindível e conciliador, visto que só o amor pode dignificar, divinizar e humanizar o homem. O amor passa a ser um elemento conciliador entre um pensamento humanista e um pensamento religioso, porque o amor que leva um ser para fora de si é o mesmo amor, ou o mesmo mecanismo, que o leva para um outro, que tanto pode ser um outro ser quanto Deus. O amor torna-se uma condição para a transcendentalidade do ser, seja amor pela arte, pelo homem, por Deus ( o próprio Deus teria criado o homem por amor ), importa que haja uma renúncia de si, um se dar ao outro. Nas palavras do poeta espanhol Ernesto Cardenal : "Haber amado una vez sobre la tierra, eso te bastará para existir siempre " . Através do amor não só caminhamos em direção ao outro, como permanecemos e portanto nos eternizamos na memória do outro.
O amor dá um sentido à vida, à arte, ao homem em interação com o mundo, pois nada parece fazer sentido em si mesmo e sim com a presença do outro.

II. IMANÊNCIA IMPOSSÍVEL

Untereinander sind die Menschen durch
Seile verbunden, und bös ist es schon,
wenn sich um einen die Seile lockern
und er ein Stück tiefer sinkt als die andern
in den leeren Raum, und grässlich ist es,
wenn die Seile um einen reissen und er
jetzt fällt. Darum soll man sich an die
andern halten.
Franz Kafka

As pessoas são unidas umas às outras por cordas, e é péssimo, quando a corda afrouxa e alguém cai um pouca mais fundo do que os outros no espaço vazio, e é horrível, quando a corda rompe e alguém cai. Por isso, devemos nos agarrarmos uns aos outros.

A imanência absoluta, imaginada sem a transcendência e a alteridade é que seria impossível.O sentido de si mesmo é inapreensível sem a presença do outro. Contudo, para Hegel, depositar o sentido de si mesmo na alteridade seria uma espécie de alteridade fugidia , entretanto, experimentar o sentido em si é um projeto desesperado ( FERRY, 1997, p.158-159 ) . A solução apontada por Luc Ferry, para se evitar essa fuga para o outro estaria em se viver com e não pelo outro:

" ...não é apenas nos outros , mas também em nós que devemos aprender a reconhecer a transcendência e o sagrado e saber preservá-los do fogo cruzado das religiões dogmáticas e das antropologias materialistas. É esta a condição para viver não apenas por ou para os outros, mas também com eles." (FERRY, 1997, p.159)

Da mesma forma que uma imanência sem transcendência é impossível, uma transcendência sem imanência também o é. O sujeito precisa primeiro afirmar sua identidade, para depois reconhecer o outro, e qualquer experiência de uma imanência radical parece destinada ao fracasso. Como buscar o sentido em si mesmo, negando toda a cultura e existência anterior? Estamos, como diz Heidegger, lançados em um mundo anterior a nós e já ausentes. Até mesmo o niilismo de Nietzsche, seria segundo a interpretação de Vicente Barreto ( 1993 ), um niilismo vital, visto que o sujeito empenhado em extrair todo o poder e força de si mesmo, encerraria uma crítica contra a cultura ocidental, com o intuito não de negá-la ou destruí-la mas reformulá-la em bases novas e não decadentes. A imanência sem transcendência é impossível, porque se o outro ( homem ou Deus ) está dentro de nós, sempre que olharmos para nós mesmos veremos o outro. Justamente porque é dentro de nós que está o outro que a transcendência radical também é impossível. Não se pode prescindir nem da identidade nem do outro.
Imanência, transcendência e alteridade acontecem juntas dentro da consciência. Quando alguém se reconhece, reconhece ao outro. Entretanto, se a imanência e a transcendência não devem ser radicais, visto que o outro é concebido a partir do eu e o eu não vive sem o outro, a alteridade, dentro da terminologia adotada por Bruno Forte ( 1991 ), escritor de cunho religioso, deve ser radical. Para o teólogo Bruno Forte é preciso confessar uma alteridade radical , para evitar o perigo do imperialismo do sujeito. Se este outro, tal qual o eu, são sujeitos absolutizantes, dominados pela razão que não ultrapassa o limite daquilo que não sabe dizer o que seja ainda que saiba que existe, correm o risco de só encontrar o sentido de si mesmo, ainda que com a presença do outro, já que ambos se reduzem a eles próprios. Bruno Forte alerta para este fato e vê a necessidade desta alteridade radical romper com uma alteridade absolutizante , que quase deixa de ser alteridade, visto que circula em uma presença-a-si em vez de supor uma não-presença-a-nós-mesmos. Contudo, não se pode esquecer que esta não-presença-a-si é elaborada a partir de uma presença-a-si, que no entanto não tenta ser absoluta. Quando Bruno Forte fala de uma transcendência sem imanência deve estar se referindo a uma imanência também absolutizante. O que ele deve estar querendo dizer é que não se pode ser redutível à identidade, nem de si e nem do outro. Se sempre há no eu o vestígio do outro e portanto a não-presença-a-si, essa presença do outro deve ser também uma não-presença-a-si. O importante é que o sujeito não se feche sobre si mesmo, de forma racional e por isso a alteridade radical seria evocada pela narratividade e não pela razão, já que a narrativa evoca o que a supera e suscita ao que virá sem predeterminá-lo ( ulterioridade e pressuposto ).
A narrativa evoca o que a supera e suscita ao que virá, enquanto a razão tenta ter tudo sob controle e ignorar aquilo que não pode explicar. A modernidade entrou em crise, justamente porque com a supremacia da razão, não se encontrava mais sentido em Deus como explicação para a vida e os mistérios do mundo, e com isso o homem passou a ser o centro da verdade. Porém, negando a subjetividade e o desconhecido, o sujeito racional ao codificar o mundo, tornou tudo objeto, inclusive o outro sujeito. Aos poucos foi-se reconhecendo que o sujeito não podia fugir à sua subjetividade e a razão também não servia mais como explicação para a vida. A solução dessa crise moderna surge com a pós-modernidade, quando se aceita o alhures , o pressuposto ( FORTE, 1991 ), ou seja, quando o sujeito finalmente percebe que não tem respostas para tudo. E bem no cerne de um pensamento pós-moderno que evita conclusões e opera com a multiplicidade, Bruno Forte, obviamente religioso, descobre aí genialmente, a entrada que poderá reconduzir o sujeito a Deus. Nesta lacuna que se abre e que ele sabe aproveitar, habita uma narrativa que evoca o que a supera e suscita o imprevisível que virá sem predeterminação. A literatura, a ficção, a narração, a arte falam daquilo que não tem previsão, falam de algo que ultrapassa o sujeito em direção ao desconhecido, a outra esfera, a outra época, a outro sujeito, falam, se assim se quiser, também de Deus. Outra solução para a crise moderna de falta sentido, estaria no amor, que segundo Luc Ferry ( 1997 ) seria a única coisa capaz de dar uma esfera ao mesmo tempo humana e sagrada ao homem. Mas o amor, que conduz ainda mais rapidamente o sujeito para uma alteridade inevitável, é o mesmo amor que o conduz para Deus ( FORTE, 1991 ).
Na verdade, dentro de um direcionamento pós-moderno, é preciso seguir o conselho de Gianni Vattimo em O fim da modernidade ( 1987 ) e curar o conceito de transcendência de sua acepção clássica e divina, conciliando exatamente através do amor a imagem de que o sujeito transcende a caminho de Deus e que para isso deva rejeitar os prazeres terrestres e se elevar aos céus.Pelo contrário, é o amor que o leva ao outro humano, que o faz renunciar a si, o mesmo amor que o leva a Deus, visto que Deus se aproximou e habita o homem. Reformulando o conceito de divino e portanto de transcendência sagrada, tudo que eleva o homem e o faz ultrapassar a si mesmo, garante sua imortalidade. Um princípio parece reger o mundo, que não deixa possibilidade ao sujeito de viver isolado e o interliga aos outros sujeitos. Esse princípio superior não significa obrigatoriamente Deus, como se está habituado a acreditar. Para o humanismo moderno ( FERRY, 1997) vale a experiência vivida, há uma passagem da transcendência do antes da consciência para a do depois ( FERRY, 1997 ). Deus, para Ernst Cassirer, por exemplo, passa a ser uma idéia do homem, ou seja, ao invés de Deus criar o homem, o homem é que teria supostamente criado Deus ( FERRY, 1997 ).
Definir o que seja transcendência ( transcendente, transcender ) não parece ser uma tarefa fácil. De qualquer forma, entre tantas tentativas de definição, o que se depreende é que tendo ou não consciência, algo escapa ao sujeito para além dele. No Novo Dicionário Aurélio, o mais conhecido da língua portuguesa, encontra-se para transcendente as seguintes acepções, entre outras ;

1. Muito elevado; superior, sublime, excelso
2. Que transcende do sujeito para algo fora dele
3. Que transcende os limites da experiência possível; metafísico
4. filos. Que se eleva além de um limite ou de um nível dado
5. filos. Que não resulta do jogo natural de uma certa classe de seres ou de ações ,
mas que supõe a intervenção de um princípio que lhe é superior (opõe-se à imanente)
6. filos. Que ultrapassa a nossa capacidadede conhecer.

Já para o termo transcender entre outras encontra-se :

1. Ser superior a; exceder
2. Passar além de; ultrapassar
3. Elevar-se acima de
4. Ser superior aos outros ou a outra coisa; exceder, avantajar-se
5. Distinguir-se, evidenciar-se.

Como se vê, as definições não favorecem vertentes, mas pelo contrário prestam-se para diversas interpretações. Resumindo, há a intervenção de um princípio que é superior e oposto à imanente, que transcende do sujeito para algo fora dele, que ultrapassa a nossa capacidade de conhecer. O que fica claro é que a razão não pode conhecer tudo. Esse princípio superior, que interpretado religiosamente significa Deus, a filosofia, sobretudo a de corrente cartesiana, preferiu ignorar. Importa o que a razão possa compreender e é nisso que ela se concentra. Mas isto não afasta o desconhecido. Ele está lá, e tanto a religião quanto o pensamento pós-moderno não negam, antes aceitam essa imprevisibilidade, este algo mais que ultrapassa a nossa capacidade de conhecer. E é nesse momento de crise, depois que a substituição do princípio superior divino pela totalização do sujeito racional fracassa, pois o sujeito não pode controlar a verdade e nem mesmo o próprio futuro, que um pensamento pós-moderno vai sendo elaborado.
Pensadores como Marx, Nietzsche, Heidegger e as descobertas de Freud do inconsciente dão uma resposta à objetividade e racionalidade extrema, pondo em cena a subjetividade. Para Marx, o que ultrapassava o sujeito e sua capacidade de conhecer era a própria história e o futuro, no qual tinha que se investir de imediato. A salvação e a transcendência eram uma questão de tempo. Uma geração investindo na salvação da próxima. Em Heidegger, o ser que se projeta no mundo como já ausente, deixa sua marca, seu traço em sua trajetória. Ele existe em um horizonte de linguagem e transcende nos vestígios que deixa, nas ações que causam efeitos e conseqüências para além de sua passagem. Nietzsche, de forma radical, concebe um sujeito que concentra toda sua força e poder em si mesmo. Porém, o que a princípio parece uma imanência absurda que levaria o ser ao nada, ao niilismo, trata-se na verdade, como bem percebe Vicente Barreto (1993 ) de um niilismo vital que pretende criticar a cultura ocidental não para destruí-la mas para reformulá-la em bases novas e não decandentes. O que seria então uma fuga, um egoísmo, uma aparente imanência radical, mostra-se mais uma vez, preocupação com o outro, com o futuro, uma transcendência e alteridade, ainda que por caminhos contrários: volta-se para si para dar um exemplo e ajudar ao outro, sofre-se na própria carne para salvar o outro.
Esse sacrifício e transformação na própria carne para salvar o outro, aparecem de forma extrema em duas narrativas: a narrativa da paixão de Cristo e a narrativa de Franz Kafka entitulada A Metamorfose.


III. A METAMORFOSE DO OUTRO

Jesus tomou o pão, deu graças, partiu e
deu-lho dizendo : isto é o meu corpo,
que é dado por vós; (...) tomou o cálice:
este cálice é o Novo Testamento em
sangue, que será derramado por vós.

Lucas 22: 19-20

Salvou os outros e não se pode salvar a
si mesmo.

Marcos 15: 31


Duas questões persistem na obra de Franz Kafka: a questão do sentido da vida e se é facultado a alguém a possibilidade de solidão e isolamento total. Na verdade são questões que nunca são respondidas, e talvez por isso sua obra ganhe uma aparência de investigação filosófica e teológica. As duas questões, no fundo, se intercruzam, visto que o sentido da vida aponta para o outro, portanto, à não-solidão. Mas esse sentido é tão problemático quanto é difícil determinar quem é esse outro e qual é também o seu sentido. Em sua vida, Franz Kafka tentou em vão ser esquecido. Ironicamente, para ele, deixou um grande legado para a humanidade. Entretanto, esse legado é um verdadeiro enigma para muitos. Isso talvez deva-se ao fato de que seus contos, romances e textos diversos parecem se tratar de experiências, tentativas de solução e explicação para problemas impossíveis, investigações.
A obra de Franz Kafka se situa em uma época que ao abandonar o sentido divino como explicação para a vida, para o mundo, enfim para tudo, caiu em um vazio dominado pela esfera do humano, que também já não se supria apenas com o racional. Ou seja, após a religião, a razão também entrou em crise. Nesta chamada crise da modernidade, o sujeito que a princípio encontrava sua transcendência no divino e depois passou a ser o centro do universo com o cogito, apaga sua subjetividade e se esfacela.
Várias etapas desse processo de verificação do sentido da vida e do papel do sujeito no mundo se detecta ao longo de sua obra, ou seja, o que se busca, o sentido da vida, estaria em Deus, no próprio homem sozinho consigo mesmo ( e com sua arte ), no convívio com outros ou até mesmo no Nada?
Uma dessas etapas aponta para esse Nada, ainda que com certa ironia. No conto Gib's auf! ( Desista! ), por exemplo, um narrador perdido em uma cidade com a qual ainda não estava familiarizado, aproxima-se de um guarda para pedir informações a respeito do caminho para a estação ferroviária. A cena normalmente comum surpreende no final com a resposta inusitada do guarda:

Von mir willst du den Weg erfahren?(...)Gib's
auf, gib's auf, sagte er und wandte sich mit
einem grossen Schwunge ab, so wie Leute ,
die mit ihrem Lachen allein sein wollen.
(KAFKA, 1970, p.358 )

De mim você quer saber o caminho? (...) Desista, desista, disse ele e se virou bruscamente, como as pessoas que querem rir com seus botões.

O guarda persuade o homem a desistir e se vira rapidamente como fazem as pessoas que querem rir escondido. Metade do conto é absolutamente coerente e a outra metade não faz sentido. O guarda pede ao homem que desista. Desistir de quê? De saber dele o caminho? De ir para a estação? De tudo o mais? E porque ele se esconde para rir? O que seria engraçado ou talvez irônico, já que ele ri só para si mesmo? Uma resposta possível seria: desista de qualquer ação, pois nada faz sentido mesmo.
Em Kleine Fabel o desfecho é ainda mais duro. Um rato raclamava do mundo ser tão largo que por medo ele era obrigado a correr até ele se estreitar, mas então depois de aliviado ver muros dos dois lados, esses se estreitavam tão rapidamente que logo ele ia dar no final, aonde estava a armadilha para a qual ele corria. Curiosamente ele se queixava para o gato que dizia:

Du musst nur die Laufrichtung ändern, sagte
die Katze und frass sie.
(KAFKA, 1970, p.320 )

Você deve apenas mudar a direção, disse o gato e o devorou.

O gato o aconselha a mudar de direção e o devora. A interpretação mais simplória deste conto leva a crer que optar pelo "mundo largo" seria optar pela solidão, pelo Nada, mas por outro lado, optar pelo "mundo estreito" que leva ao convívio com outros seria optar pelo risco, inclusive de morte. Trata-se de um impasse, outro paradoxo: escolher o outro é nem sequer ter a chance de voltar, de atingir o Nada e o Nada é tão assustador que logo se precipita para o outro.

Em A Toca ocorre exatamente o inverso. Um texugo faz uma tentativa desesperada de se esconder de todos. Através de artimanhas constrói um esconderijo imprescrutável, com medo de ser descoberto e arrancado de sua solidão, faz armadilhas e incursões planejadas para conseguir alimento. Com o tempo, a velhice chegando, a expectativa, o medo, para depois de tanta luta constatar decepcionado o fracasso inevitável: uma ameaça que vem, nem ao menos de uma só direção, mas de toda parte, incombatível. A solidão completa que o texugo ansiava revela-se impossível. Outro paradoxo: escolher o Nada é impossível e sempre será interrompido pelo que vem de fora, do outro ( Deus, natureza, animal ou homem ). Viver, estar no mundo é não estar só. Em Ein Hungerkünstler, semelhante experiência acontece. Para chamar a atenção um jejuador de circo ( faquir ) fica sem comer além dos limites de atração para o espectador e acaba sendo esquecido ( talvez esse fosse mesmo seu desejo ). Quando lembram dele, já é tarde, ele lamenta que comeria de bom grado mas nenhuma comida mais o satisfaz. Este conto parece uma lição: quem se afasta do outro, corre o risco de não se adaptar mais e morrer de fome. O outro seria um verdadeiro alimento.

Em resumo, a obra de Franz Kafka parece sempre apontar para a necessidade e imprescindibilidade da alteridade, ainda que às vezes se tente o contrário e se aloje no impasse.

Em O Castelo e O Processo há uma tendência, que apesar de não se definir, aponta para forças superiores que determinam a vida dos narradores. O impasse é constante, seja no processo que não se conclui ou no castelo que não se penetra. A visão do impasse pode bem ser simbolizada pela visão da estrada que leva ao castelo:

Und wenn sie sich auch vom Schloss nicht
entfernte, so kam sie ihm doch auch nicht
näher.
( KAFKA, 1992 )

E se você não se afasta do Castelo, você também não pode se aproximar.

A estrada nem se aproxima e nem se afasta do castelo. Ninguém chega a conhecer o conde e o narrador termina seus dias esperando uma resposta para o próprio sentido de seu trabalho, sua profissão e com isso de sua própria existência. Em O Processo o narrador quer saber do que é acusado. Em ambos romances parece que se espera uma resposta da ordem divina, da qual, entretanto, nunca se pode ter certeza de nada. É típico de uma época que está justamente questionando a existência de Deus e o sentido da vida. E mais uma vez a resposta não é dada. O que resta de mensagem em O Castelo, por exemplo, é que todos das cercanias contavam com a ajuda do narrador. Talvez a resposta esteja aí: em vez de tentar atingir uma transcendência divina, se encaminhar para o desconhecido na figura invisível do conde do castelo é preciso voltar os olhos para a comunidade unida em torno dele, para a convivência entre os aldeões.

Se não há conclusão definitiva de solução para o sentido da vida em um Deus distante e exterior à consciência nem no Nada, tudo parece apontar para essa única solução possível no outro e nesse outro quem sabe encontrar novamente Deus. A solução no Outro não exclui absolutamente o Eu nem tampouco Deus ou a idéia de divino.

Em Amerika e Diante da Lei há também uma semelhança: a solução para a vida pessoal de cada um só é dada uma vez e de forma única e especial para cada um. É na própria pessoa que está a solução para a vida e se for o caso para a entrada para algo superior a ela. O que tiver que ser procurado deve começar a partir de dentro ( imanência ) para fora ( transcendência e alteridade ).

A obra de Franz Kafka questiona, como se vê, questões fundamentais ligadas aos conceitos de imanência, transcendência e alteridade. Os narradores dos textos de Franz Kafka tentam a todo custo encontrar respostas para suas existências, por vezes até desistindo e se isolando, mas em nenhum texto houve uma experiência tão radical e assustadora quanto em A Metamorfose.

O que aconteceu com Gregor Samsa que até hoje e sempre chocará qualquer leitor preparado ou não? Será que sua transformação pode ser comparada ao sacrifício de Cristo, que morreu na cruz para salvar os pecados do mundo? Essa comparação só poderá ser feita se acreditarmos que Gregor Samsa sofreu uma metamorfose terrível e dolorosa não em benefício próprio mas por amor à sua família, mais precisamente à sua irmã Grete, ao contrário do que possa parecer à primeira vista.

A primeira impressão é a de que, embora involuntariamente e como um pesadelo: uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes,Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto , o motivo de tamanha modificação era uma insatisfação profunda com a vida que ele levava:

Isto de levantar cedo, pensou , estupidifica
uma pessoa. Um homem precisa de sono.
Há outros comerciantes que vivem como
mulheres de harém. Por exemplo, quando
volto para o hotel , de manhã, para tomar
nota das encomendas que tenho, esses li-
mitam-se a sentar-se à mesa para o café.Eu
que tentasse sequer fazer isso com o meu
patrão: era logo despedido. De qualquer
maneira, era capaz de ser bom para mim,
quem sabe?Se não tivesse de me aguentar
por causa dos meus pais, há muito tempo
que me teria despedido; iria ter com o pa-
trão e dir-lhe-ia exatamente o que penso
dele.
( KAFKA, 1988, p.6-7 )

De fato, Gregor Samsa tinha uma dívida de lealdade com o patrão, que na verdade era uma dívida do pai que ele aos poucos pagava com o trabalho e ainda sustentava a família. Entretanto, se a transformação de Gregor fosse apenas uma fuga dos compromissos e se ele só estivesse pensando nele, seria muito mais simples para ele largar tudo sem dar satisfação ou apenas fugir para longe ( se considerarmos que de alguma forma a metamorfose não foi imposta por forças superiores e sim por forças interiores ) E por que Gregor não abandonou tudo? A única resposta coerente é que ele desejava ( senão ele o enunciador do texto) que a família se transformasse também, e não apenas para seu benefício e descanso, mas para o bem deles. Isso ficará claro ao longo da narrativa, pois ele será muito mais uma vítima do que uma ameaça.

Aos poucos, gregor vai perceber até com certo orgulho que graças a ele a família vinha levando uma vida sossegada, que a rotina da irmã se resumia a vestir-se bem, dormir bastante, ajudar um pouco em casa, divertir-se e sobretudo tocar violino. Ele vai descobrir também que o pai não tinha perdido tudo e escondia dinheiro e ainda mais surpreso que ele não estava tão fraco e acabado quanto o filho pensara:

(...)seria aquele realmente o seu pai? Seria o
mesmo homem que costumava ver pesada-
mente deitado na cama quando partia para
cada viagem? Que o cumprimentava quando
ele voltava, à noite, deitado, de pijama, numa
cadeira de braços? Que não conseguia ter-
se de pé e se limitava a erguer os braços
para o saudar?(...)
Agora estava ali de pé firme , envergando
uma bela farda azul de botões dourados,das
que os contínuos de banco usam; o vigoroso
duplo queixo espetava-se para fora da rija
gola alta do casaco e, sob as espessas so-
brancelhas, brilhavam-lhe os olhos pretos,ví-
vidos e penetrantes. (...) Lançou vigorosa-
mente o boné (...) e, avançou ameaçadora -
mente para Gregor. Provavelmente, nem ele
próprio sabia o que ia fazer, mas, fosse co-
mo fosse, ergueu o pé a uma altura pouco
natural , aterrando Gregor ante o tamanho
descomunal das solas dos sapatos.
( KAFKA, 1988, p.43 )

Com o tempo, a família de Gregor vai aprendendo a se virar sozinha, todos arrumam trabalho e embora no começo levem uma vida dura e demorem a se acostumar, no final o único obstáculo para que eles sejam felizes é a própria presença de Gregor.
Se por um lado, Gregor percebe que vinha sendo de certa forma traído pela família e que para ele não seria agradável voltar à situação normal, ou seja, que mesmo sendo conveniente também para ele não mais ter que ser responsável sozinho por todos; por outro lado, ver a família unida e ativa de novo, prova mais uma vez que quem lucraria muito mais seriam eles.E esta nova felicidade da família só tinha sido possível com o seu sacrifício, com a sua profunda transformação e como se sabe, posterior morte. Caso contrário, se Gregor apenas tivesse se limitado a desaparecer, talvez a tristeza, apatia e depressão tomasse conta da família, que não reagiria com o mesmo vigor. A transformação violenta de Gregor exigiu uma resposta, ou melhor, uma transformação tanto ou mais violenta. ( Não fosse assim, o sacrifício de Gregor teria sido em vão ) Foi ela que desencadeou as mudanças necessárias nos membros de sua família. O pai ganhou autoconfiança, a mãe aproximou-se mais dele ( pai ) e a irmã adquiriu iniciativa e independência, inclusive para assumir sozinha os cuidados com o irmão.

Grete, na verdade, vive sentimentos contraditórios: ama o irmão a ponto de protegê-lo e aceitá-lo como é, quase como um animal de estimação, mas quando ele interfere em sua independência recentemente adquirida condena-o praticamente à morte, ao expressar seu desejo de livrar-se dele. O sentimento de Gregor, por sua vez, em relação à irmã levam a acreditar que sua metamorfose ocorreu por uma espécie de busca de satisfação plena e ideal no intenso amor que os unia e à música. Ao ver o desdém dos hóspedes pela execução da irmã ao violino, Gregor Samsa, pela primeira vez se revolta e fica furioso:

(...)Grete estava a tocar tão bem ! Tinha o
rosto inclinado para o instrumento e os olhos
tristes seguiam atentamente a partitura. Gre-
gor arrastou-se um pouco mais para diante e
baixou a cabeça para o chão, a fim de poder
encontrar o olhar da irmã. Poderia ser real-
mente um animal, quando a música tinha so-
bre si tal efeito? Parecia-lhe que se abria di-
ante de si o caminho para o alimento desco-
nhecido que tanto desejava. Estava decidido
a continuar o avanço até chegar ao pé da ir-
mã e puxar-lhe pela saia, para dar-lhe a per-
ceber que devia ir tocar para o quarto dele,
visto que ali ninguém como ele apreciava a
sua música. Nunca a deixaria sair do seu
quarto, pelo menos enquanto vivesse. Pela
primeira vez, o aspecto repulsivo ser-lhe-ia
de utilidade:poderia vigiar imediatamente to-
das as portas do quarto e cuspir a qualquer
intruso. Contudo, a irmã não precisava de
sentir-se forçada, porque ficaria com ele de
vontade.
( KAFKA, 1988, p.55 )

O amor de Gregor pela irmã era tão imenso que quando ela o repele e deseja se livrar dele, apesar do ferimento no dorso, com a maçã que o pai lhe atirou, a impressão que fica é de que não só a decisão da partida, mas também a sua morte, só aconteceram para satisfazer o desejo de Grete:

Pensou na família com ternura e amor. A sua
decisão de partir era , se possível , ainda
mais firme do que a da irmã. Deixou-se ficar
naquele estado de vaga e calma meditação
até o relógio da torre bater as três da manhã.
Uma vez mais, os primeiros alvores do mun -
do que havia para além da janela penetra-
ram-lhe a consciência. Depois , a cabeça
pendeu-lhe inevitavelmente para o chão e
soltou-se-lhe pelas narinas um último e débil
suspiro.
(KAFKA, 1988, p.60)

A vida de Gregor foi sacrificada pela felicidade e prosperidade de sua família, sobretudo de sua irmã.Não resta dúvida quanto ao tamanho e a qualidade do amor de Gregor por Grete e o quanto ele era bom. A metamorfose mostrou-se útil de várias formas: modificou uma situação errada para Gregor de sustentar sozinho a todos; deu aos seus familiares mais autonomia e independência e até mesmo mais crescimento como pessoas e mais vida; e principalmente deu a Gregor a oportunidade de descobrir a essência daquilo que ele mais amava que era a irmã e a música.Mas, todos os resultados mostraram-se benéficos para a família de Gregor, pois ele não logrou êxito.Aliás, a sua transformação provou ser um sacrifício, pois valeu a pena para os outros diretamente e não para ele, a não ser indiretamente por vê-los felizes. Gregor foi o único a sofrer na própria carne, foi o único a não se salvar, a pagar com a própria vida. De outra maneira, como explicar esta estranha metamorfose que só prejudicou a si próprio, visto que provocou desde o seu isolamento até a sua morte e da qual logo todos se recuperariam e seria esquecida por todos ? A tragédia logo daria lugar a um futuro promissor para a família:

(...)saíram juntos de casa, coisa que não su-
cedia havia meses, e meteram-se num trem
em direção ao campo, nos arredores da ci-
dade. Dentro do trem, onde eram os únicos
passageiros, sentia-se o calor do sol. Con-
fortavelmente reclinados nos assentos, fala-
ram das perspectivas futuras, que, bem vis-
tas as coisas, não eram más de todo. Discu-
tiram os empregos que tinham, o que nunca
tinham feito até então, e chegaram à conclu-
são de que todos eles eram estupendos e
pareciam promissores.(...)Enquanto conver-
savam sobre estes assuntos, o Sr. e a Sra.
Samsa aperceberam-se de súbito, quase ao
mesmo tempo, ao notarem a crescente viva-
cidade de Grete, de que, apesar de todos os
desgostos dos últimos tempos,que a haviam
tornado pálida, se tinha transformado numa
bonita e esbelta rapariga. O reconhecimento
desta transformação tranquilizou-os e, quase
inconscientemente, trocaram olhares de a-
provação total, concluindo que se aproxima-
va a altura de lhe arranjar um bom marido. E
quando, terminado o passeio, a filha se pôs
de pé antes deles, distendendo o corpo jo-
vem, sentiram que aqueles novos sonhos e
esperançosos projetos haviam de ser reali-
zados.
(KAFKA, 1988, p.65-66)

O conto começa com a metamorfose de Gregor e termina com a transformação de Grete. A verdadeira tragédia é que a família se modifica mas não percebe o amor e preocupação de Gregor por eles. Grete só se comove ao vê-lo já morto, tão magro. Entretanto, ela prefere se lembrar dele como ele era antes da transformação. Na verdade, para Grete o irmão morre duas vezes: quando se transforma e quando o ser em que ele se transformou morre. Duplo sacrifício, e ainda que o primeiro sacrifício ( metamorfose ) não deixe tão claro que tenha sido por amor à irmã, o segundo sacrifício ( morte ) não deixa dúvidas. Gregor não suporta o horror e repulsa da irmã por ele e decide, ainda que não claramente, a morrer, pelo menos, a partir. Gregor realmente se importava com a família e mesmo que tenha ocorrido a metamorfose a princípio para seu benefício este se converteu em benefício para o outro. O bem que Gregor fazia à família, lutando sozinho por eles, revelou-se um mal, pois tirava-lhes a chance de se sentirem vivos. Gregor não estava satisfeito com a situação inicial, e como já se viu, não só por ele, porém, para mudar de forma definitiva era preciso algum sacrifício a partir dele.

Se esta interpretação é absurda, resta o consolo de que, apenas preso aos fatos textuais, não se pode negar que ainda que um ser qualquer, por um refúgio pessoal que seja, decida se transformar ou se metamorfoseie involuntariamente, essa metamorfose afetará aos outros. Não há escapatória para quem está no mundo de não afetar, com sua individualidade, o próximo. Tudo que qualquer pessoa sofre neste mundo atinge e é o sofrimento do outro. Não há imanência possível sem a transcendência e a alteridade. Até mesmo um eremita que se refugie numa montanha e esqueça ou tente esquecer o mundo, poderá afetar a vida de alguém.

O exemplo cristão também é eficaz: Cristo morreu na cruz para salvar nossos pecados. Mesmo que seja apenas uma narrativa, o que ela tenta simbolizar é que alguém sofreu na própria carne a dor e a humilhação com o intuito de salvar o próximo, de provocar o efeito nos outros, de que eles devem amar ao próximo, consternarem-se com a dor alheia, confraternizarem-se uns com os outros e que este sentimento coletivo, mesmo que se queira aduzir a ele caráter moral e não religioso ( cf.TOLSTOI, 1994 ) une a todos entre si e com Deus. Deus, segundo uma versão atualizada está em cada um que ama e se dá ao outro. A melhor conclusão a que se pode chegar da narrativa da paixão de Cristo (e da narrativa kafkiana, como de outras ) é que o sacrifício e exemplo de Cristo ajudou e sempre ajudará milhões de pessoas a se transformarem.

Gregor Samsa, como Cristo, sofreu uma metamorfose na própria carne, sofreu dores e humilhação e ao final ajudou na transformação de toda a sua família. A metamorfose de Gregor revelou-se uma ajuda à metamorfose do outro. Nada que um ser faça individualmente deixa de ter efeito no outro. A nossa metamorfose é a metamorfose do outro.

Nesse momento, poderia-se falar que A Metamorfose de Franz Kafka opera em cada um que lê seu conto uma espécie de metamorfose. E semelhante à metamorfose de Gregor, A Metamorfose de franz Kafka atravessa o tempo, transcende para o leitor, a partir de um momento de imanência do escritor Franz Kafka. Se até hoje a obra de Franz Kafka ( e a arte em geral e outras coisas ) sobrevive, certamente não é pelo vazio de sentido da vida nem pela solidão do sujeito, mas antes pela busca desesperada de sentido, pelo que apresenta de sentimento, paixão, amor, dor, desejo, comunhão e Deus, se entendermos Deus exatamente como busca, amor, sentimento, paixão, dor, desejo, comunhão.
A obra de Franz Kafka rodeia em volta de um vazio, de uma busca de sentido que não afirma nem nega nada,faz perguntas e não encontra respostas, o que facilita uma leitura de uma era pós-moderna privilegiada que igualmente não afirma nem nega nada, abrindo-se ambas ao desconhecido, onde pode muito bem estar o Nada e também por que não, Deus? E ainda com mais certeza, não importa quando, o outro.

A título de conclusão, fica a mensagem de que qualquer ato de violência contra um só indivíduo sequer, torna o mundo mais frágil, porque somos todos um só e como nos ensina a bíblia, onde houver mais de um reunido, aí estará Deus. Talvez Deus seja simplesmente essa comunhão do mundo, bem expressada na canção de Sting, Fragile:

E amanhã a chuva levará
o sangue que a luta deixou derramar
na pele a dor do aço tão cruel
jamais a nossa voz vai calar

Um ato assim pode acabar
com uma vida e nada mais
porque nem mesmo a violência
destrói ideais

Tem gente que não sente
que o mundo assim
ficará frágil demais

Choro eu e você
e o mundo também

Que fragilidade!

 

BIBLIOGRAFIA

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TOLSTOI,Leon.O Reino de Deus está em vós. 2a.ed.RJ: Rosa dos Tempos, 1994.
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Adriana Cörner Lopes do Amaral
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