Sonu Shamdasani
Tudo isso é a imagem externa do desenvolvimento de meu livro sobre os tipos. Eu poderia dizer, perfeitamente bem, que essa é a maneira como o livro se produziu e colocar um ponto final nisso. Mas há um outro lado, um avançar cometendo erros, pensamentos impuros, etc., os quais são sempre muito difíceis para um homem tornar públicos. Ele gostaria de dar a vocês o produto acabado desse seu pensamento dirigido, e fazer vocês entenderem que foi dessa forma que ele surgiu em sua mente, livre de fraquezas. A atitude de um homem com função pensamento, em relação a sua vida intelectual, é bastante comparável a da mulher em relação a sua vida erótica.
Se você perguntar a uma mulher sobre o homem com quem ela se casou: "Como isso aconteceu?", ela dirá: "Eu o encontrei e o amei, e isso é tudo." Ela esconderá, muito cuidadosamente, todas as pequenas mesquinharias, as situações paralelas em que ela pode estar envolvida e ela apresentará para você, uma situação perfeita impossível de ser rivalizada. Sobre tudo, ela esconderá os erros eróticos que cometeu ...
O mesmo acontece a um homem a respeito de seus livros. Ele não quer mencionar as alianças secretas, os faux pas de sua mente. Isso é o que torna mentirosas a maioria das autobiografias. Da mesma forma que a sexualidade é, na mulher, amplamente inconsciente, também é esse lado inferior de seu pensamento, amplamente inconsciente, no homem. E da mesma forma que uma mulher estabelece sua força de poder em sua sexualidade, e não abrirá nenhum de seus segredos do seu lado fraco, assim um homem centra seu poder em seu pensamento e propõe mantê-lo como uma fachada sólida contra o público, particularmente contra outros homens. Ele acha que dizer a verdade nesse campo é o equivalente de entregar as chaves da citadela ao inimigo.8
Eu sempre desconfiei de uma autobiografia porque nunca ninguém pode contar a verdade. Na medida em que se é verdadeiro, ou acredita ser verídico, isso é uma ilusão, ou mau gosto.10
Durante os últimos anos foi-me sugerido em diversas ocasiões, fazer algo como uma autobiografia. Não tenho sido capaz de conceber nada dessa espécie. Conheço muitas autobiografias, suas auto-decepções e mentiras expedientes; sei muito sobre a impossibilidade da auto-descrição para entregar-me a uma tentativa a esse respeito.11
... Se eu fosse você, não me importaria com minha biografia. Eu não quero escrever uma porque, além da falta de motivação, não saberia como fazê-lo. Muito menos posso ver como alguém poderia desfazer esse monstruoso nó górdio da fatalidade, estupidez, aspirações e não sei mais o quê! Qualquer um que tentasse tal aventura deveria analisar-me muito mais do que eu me conheço, se quiser fazer um trabalho verdadeiro sobre isso.12
Cada país no mundo tem estritas leis de tráfico de escravos brancos. Os autores, por outro lado, são uma espécie desprotegida e devem cuidar de si próprios. Eles podem ser comprados e vendidos, como meninas no comércio de escravas-brancas - só que no casos dos autores, isso não é ilegal.13
.... por muitos anos ele tentou persuadir Jung a escrevê-la [uma autobiografia], como Jung sempre recusou e como, finalmente, ele [Kurt] chegou a feliz idéia de um "Eckerfrau" para quem Jung poderia ditar de forma aleatória, a Eckerfrau sendo Aniela Jaffé.14
Nós começamos na primavera de 1957. Foi proposto que esse livro fosse escrito não como uma "biografia", mas na forma de uma "autobiografia", com o próprio Jung como narrador. Esse plano determinou a forma do livro e minha primeira tarefa consistiu, apenas, em fazer perguntas e anotar as respostas de Jung.16
Poucas personalidades do mundo psiquiátrico e psicológico tem sido tão mal compreendidas como Carl Gustav Jung... É precisamente o interesse nessa sua Autobiografia que nos permite unificar de modo plausível as imagens disparatadas, que foram feitas até agora sobre a vida, a personalidade e o trabalho do fundador da Psicologia Analítica.17
Nas memórias de Jung as personalia estão quase que interiamente escassas, para o desapontamento de muitos leitores ... Essa crítica e a acusação do desinteresse de Jung para com relacionamentos eram irrelevantes. Seus olhos estavam sempre voltados para o impessoal, para o arquétipo oculto; o segundo plano, o qual estava disposto revelar somente na medida em que dizia respeito a sua própria vida. 18
A vida de Jung, mesmo que fragmentadamente revelada, convida a comparações não com autobiografias profanas, mas com as vidas de Plotino e Swedenborg, as vidas de santos e sábios, entrelaçadas com milagres.20
Acólitos escrevendo hagiografias são raramente afortunados o bastante para ter a assistência do próprio santo em seus esforços; Aniella Jaffé teve o privilégio da discussão extensa com Jung ... Isso pode ser considerado como representando o tipo de imagem que Jung gostaria de dar de si próprio.21
... tal como a descoberta de Jung de sua própria ausência de mito tinha paralelo com a condição de ausência de mitos da sociedade moderna, então a descoberta de Jung de seu próprio mito individual provará ser a primeira emergência de nosso novo mito coletivo... quase todos os episódios importantes da vida de Jung podem ser vistos como paradigmáticos do novo modo de ser, que é a conseqüência de viver com um novo mito.22
Wagner: Ouvi que existiram partes de sua autobiografia que não foram permitidas de serem publicadas - idéias sobre reincarnação, por exemplo.
Jaffé: Não, nós publicamos tudo que julguei que poderia ser publicado. O que cortei foram partes do capítulo que ele escreveu sobre a África. Era, simplesmente, muito longo. Tomaria o livro inteiro. Mas, discuti isso com ele e ele ficou muito satisfeito.26
Ela [Toni Wolff] não é mencionada em Memórias de Jung e compreende-se a omissão, em grande parte, porque o livro é um registro somente da quinta-essência. As relações pessoais de Jung não são, deliberadamente, parte disso.32
Ela era a única pessoa capaz de entender, a partir de sua própria experiência e transfiguração, o que Jung estava tomando sobre si. Nesse mundo do inconsciente, o qual ele penetrou como homem, ela sempre suportou como mulher. Graças à direção de Jung, ela re-emergiu, como uma personalidade ampliada e reintegrada.33
Sim, eu renunciei ao Clube. Eu não poderia mais viver naquela atmosfera. Estou feliz por ter feito isso. Acho, que daqui a algum tempo, quando realmente tornar-se algo, o Clube sentir-se-á agradecido por eu ter feito isso. Minha renúncia teve efeitos silenciosos. Silenciosos, pois parece que, isso pertence ao meu caminho, eu não terei reconhecimento ou apreciação abertamente pelo que fiz para o desenvolvimento do movimento analítico como um todo. Eu sempre trabalhei no escuro e sozinha. Esse é o meu destino e assim deve ser esperado.47
O velho homem apareceu ... disse que queria conversar e falou solidamente por mais de uma hora sobre a autobiografia. Eu concluí que havia controvérsias sobre a "autenticidade" do texto. (Até esse momento, não o tinha vista ainda) Ele afirmou, com a maior ênfase, que tinha dito o que queria dizer em sua própria maneira - um pouco rude e cru algumas vezes - e que ele não queria que seu trabalho fosse tantifiziert ("titiazado" ou "velhificado" [N.T.: os termos em inglês são: 'auntified' e 'oldmaidified' que parecem significar uma modificação tal qual fosse feita por uma tia ou por uma velha dama] na feliz expressão de Jack). "Você verá o que quero dizer quando apanhar o texto", ele disse. Falou extensamente sobre a prática de "ghost-writing" pelo editores americanos. Inferi que o "Tantifierung" poderia ser feito por Kurt. Em seguida, perguntei a Jung se poderia ter a autorização de "des-velhificar" o texto entregue, a mim, por Kurt. "Em todo caso", ele disse, "os canhões entrarão em ação", apontando-se a si próprio. Achei tudo isso um tanto complicado, porque Kurt tinha dito anteriormente que, especialmente nos três primeiros capítulos, o impacto encontrava-se precisamente no tom altamente pessoal e falado de maneira não-ortodóxica, que deveria ser preservado a todo custo.50
Tornou-se claro que as alterações eram todas de um tipo que abrandavam e "velhificavam" o texto original escrito por Jung. Como algumas passagens excluídas pareciam-me extremamente importantes para uma compreensão adequada da narrativa subseqüente, restaurei-as da versão de Winston, junto com um número de referências críticas a família de Jung e alguns comentários que não poderiam chocar a ninguém, exceto à burguesia suíça, incluindo um uso altamente dramático da palavra "merda". Suspeitei que a "tia" foi encontrada não no Hotel Esplanade em Locarno, mas perto da casa em Kusnacht, e que era Aniela Jaffé.51
Poderia chamar de exclusão - e escolhi minha palavra cuidadosamente - censura, uma coisa que Jung teria desgostado e detestado... Quatro vezes você disse não ser capaz de ser objetiva. Em um caso de vital importância, cara sra. Jaffé, é seu dever recuperar sua objetividade: foi em suas mãos e de ninguém mais que Jung confiou a responsabilidade pela versão final de seu testemunho de vida... Você imagina que se a Pantheon fosse obrigada a lançar uma edição expurgada, toda essa evidência explosiva iria acabar inutilmente? ... Todos meus argumentos enfraquecem e diminuem em comparação a um pensamento dominante: por que o velho homem se deu ao trabalho de vir me ver e falar tão ardentemente sobre o livro, e por que ele o confiou às suas mãos? Devo deixá-la encontrar a resposta.52
Aniela escreveu que a Sra. Niehus insitiria em sua remoção. E esta era a condição da Sra. N. para a confiança final de Aniela ... Sentiu que seria um disparate antagonizá-la para lutar pela palavra "histérica"; para ser franco, não estou disposto a arriscar minhas relações com ela, em prol de um futuro trabalho, por sua causa. Sugeri, por isso, a palavra "nervosa" como um compromisso, e Aniela, gratamente, aceitou-a. Ao mesmo tempo assinalei, novamente, que essa pequena censura familiar provavelmente apareceria no final...53
... Há toda diferença do mundo entre um livro chamado "A Autobiografia de C. G. Jung" e um livro de memórias de Jung, editado por Aniela Jaffé (de quem poucos ouviram falar). Um é automaticamente bestseller, o outro não.54
Creio que a história desse livro é que ele começou como um trabalho de Aniela Jaffé, que ela poderia ter escrito com sua ajuda próxima; mas ele cresceu para além disso e tornou-se, de fato, sua autobiografia ... Examinamos nosso acordo de 1947 e achamos que se isso é sua autobiografia ... os direitos de publicação seriam nossos ... Nós aguardamos para quando possamos publicar sua autobiografia... Iria preocupar-nos muito e poderia abalar nossa reputação sermos considerados os editores somente de seus livros estritamente técnicos...55
Quero agradecê-lo por seus esforços em nome de minha então chamada "Autobiografia" e confirmar uma vez mais que não considero esse livro como meu empreendimento, mas expressamente como um livro que Frau A. Jaffé escreveu... O livro poderia ser publicado com seu nome e não com o meu, uma vez que ele não representa uma autobiografia composta por mim.56
C. G. Jung sempre afirmou que não considerava esse livro como um empreendimento próprio, mas expressamente como um livro escrito pela Sra. Jaffé. Os capítulos escritos por Jung eram para ser considerados como sua contribuição ao trabalho da sra. Jaffé. O livro seria publicado em nome da sra. Jaffé e não no nome de C. G. Jung, por que ele não representava uma autobiografia composta por C. G. Jung (carta de C. G. Jung a Walter Niehus datada de 5 de abril de 1960).
Em uma conversa realizada em 26 de agosto entre Prof. C. G. Jung, sr. John Barret, srta. Vaun Gillmor, sr. Herbert Read, sr e sra. W. Niehus-Jung e sra. Aniela Jaffé, C. G. Jung confirmou novamente que ele considerava estritamente esse livro como um empreendimento da sra. A. Jaffé, ao qual ele somente deu algumas contribuições... O Comitê Editorial decide pelo presente formalmente que não aprovará qualquer decisão do Subcomitê Executivo que gostaria de adicionar o livro da sra. A. Jaffé às Obras Completas.58