www.rubedo.psc.br | artigos |
© Wolfgang Giegerich
![]()
MATANÇAS:
O platonismo na psicologia e
o elo perdido com a realidade
Wolfgang Giegerich1
O apelido de Jonh Knox, o austero reformador da Igreja Escocesa, era "Kill Joy". Pode parecer que eu seja um novo pretendente a este título, tendo deliberadamente escolhido falar sobre matanças em um festival de psicologia Arquetípica. Imagens de crueldade e violência não vão acabar por assolar na raiz qualquer humor festivo? A impressão desta atitude de "Kill Joy" se aprofunda quando, no começo deste Festival, eu levanto a questão de se existe algo, se realmente temos algo a celebrar. O que é que um festival de psicologia arquetípica pode celebrar?
Obviamente, na idéia de festival como na Disneylândia , o próprio objetivo das festividades é ser completamente inútil. Somente se você celebrar nada, celebrar só pela diversão de celebrar – o festival pelo festival – é que os valores de absoluta despreocupação e puro entretenimento das festividades reivindicados pelo espírito de Hollywood podem ser garantidos. Mas a marca registrada da psicologia arquetípica é que ela é concebida como uma psicologia com chão e substância, uma psicologia "com Deuses". E de uma perspectiva arquetípica um festival deve ter um Deus em sua essência, pois é isso que faz de um festival um festival em seu verdadeiro sentido. Ele ou Ela é a substância celebrada pela alma em seus festivais. Celebrar a psicologia arquetípica por si mesma seria não apenas auto-complacente mas também contraproducente. No entanto, uma psicologia "com Deuses" deve estar equipada para um verdadeiro festival e habilitada a celebrar. Pois então ela tem uma substância que autentica e dá profundidade a este.
Mas será que a psicologia arquetípica é de fato uma psicologia com Deuses? Ou a falação sobre Deuses na psicologia arquetípica é só um tipo de jargão glamurizante, fundamentalmente afastado daquela realidade a que antes se referia pela palavra de "Deuses"? O que quero dizer talvez seja melhor ilustrado por uma anedota sobre Walter F. Otto, o conhecido autor de The Homeric Gods, que acreditava nos Deuses Gregos como realidades e acreditava que podia contemplá-los até mesmo em nosso mundo moderno. Diz-se que outro classissista famoso, Karl Reinhard, uma vez perguntou a Otto: "Então você está convencido, Sr. Otto, da realidade de Zeus?" Otto respondeu "Sim". Reinhard perguntou: "Você reza para Zeus?" Novamente a resposta foi "Sim". Então Reinhard disse: "Mas então você também deve sacrificar touros a Zeus".2
A questão de Reinhard é muito boa. Não sobra muito de Zeus se ele é privado dos sacrifícios a ele. Não se pode desistir dos sacrifícios de touro e ainda assim pensar que Zeus continua Zeus. Naqueles tempos que sabiam dos Deuses, não poderia haver um festival celebrando um Deus sem um sacrifício sangrento como clímax do festival. Pois acima de tudo essa matança sacrificial é que era o objetivo do festival e era ela que trazia a presença divina que transformava o dia em um dia festivo ou sagrado.
É óbvio que nós modernos não podemos mais oferecer sacrifícios sangrentos aos Deuses e portanto provavelmente não podemos mais festejar um verdadeiro festival. Mas como minha contribuição a esta reunião eu quero tentar, como forma de aproximação o mais próxima da coisa real que seja possível para mim, ao menos restaurar algum sentido do que eram as matanças sacrificiais, algum sentido dela como o cultivo da alma primordial. Eu faço isso ciente do fato de que a autêntica psicologia junguiana começou com o capítulo de Jung "O Sacrifício" no seu livro posteriormente chamado de Símbolos de Transformação. Pois como o próprio Jung afirmou, ele estava bem consciente do fato de que escrever este capítulo sobre o significado do sacrifício era o equivalente a sacrificar a sua amizade com Freud e, assim, a separar os caminhos da psicanálise freudiana e da psicologia junguiana.
Sacrifícios e isso quer dizer carnificinas, eram um fenômeno muito difundido na maioria das civilizações pelo mundo todo. Por todo o ano, e ano após ano, eles eram realizados regularmente em todo tipo de ocasiões. Eles tinham não apenas seu lugar na vida religiosa privada, como eram também um elemento constituinte da vida do estado. A política não podia ser pensada separadamente de sacrifícios sangrentos. A principal tarefa dos imperadores e reis era a de supervisionar a realização correta dos sacrifícios. Não havia guerra, juramento, acordo, contrato, casamento, cruzamento de fronteira, construção de casa – e obviamente nenhum festival – sem imolação. É assim que a Europa era na antigüidade, e é assim que é em outros lugares até recentemente.
As carnificinas rituais não eram realizadas em segredo. O público experimentava o golpe assassino sobre o humano ou o animal a ser sacrificado em sua concretude física e sensorial. Eles viam o sangue jorrando, cheiravam a sua doçura assim como sentiam o cheiro do sangue velho cobrindo o altar camada por camada dos milhares de sacrifícios anteriores. Um ato principal de religião é o derramamento de sangue, a carnificina e a subsequente queima de partes do animal, e o banquete comunal da congregação. "Não é na conduta pia, nem na reza, no cantar e dançar que Deus é experimentado de forma mais poderosa, mas também no golpe mortal do machado no sangue pingando e na queima das coxas... A experiência fundamental do sagrado é a matança sacrificial... Pois esta matança é puro e simples 'atuar, rezein, operari, da qual a palavra [alemã] 'Opfer' é derivada, uma designação que eufemisticamente oculta o âmago deste 'atuar' ". Assim escreve Walter Burkert em seu livro fundamentalmente importante sobre os ritos sacrificiais gregos.3 Na antiga Israel também a oferenda queimada era queimada "sobre o altar toda a noite até a manhã... para um doce sabor... para o Senhor" (Lev. 6). E mesmo hoje o padre católico romano deve ainda realizar o Sacrifício da Missa que, mesmo que apenas de forma altamente sublimada, continua sendo um sacrifício sangrento.
Sacrifícios não apenas se estendem ao presente, eles também remontam a idades Paleolíticas. Com base em achados pré-históricos Herbert Kühn pôde formular a tese de que o "sacrifício é a forma mais antiga de ato religioso".4 Sacrifícios rituais de humanos foram representados por Müller-Karpe como um fenômeno tão antigo que remonta ao Paleolítico.5 Mas acima de tudo temos que perceber que a caça – a caça de grandes animais – originalmente era um ato sacrificial, e a caça pode remontar a dois milhões de anos. Eliade diz que, "a morte do animal caçado equivale a um sacrifício".6 Em 1946, Karl Meuli pôde demonstrar incríveis paralelos entre detalhes de ritos sacrificiais gregos e a prática dos caçadores e pastores assim como as práticas de caça do mesopaleolítico.7 Em um artigo extraordinariamente elucidativo sobre "The Nature of the Spear" ("A Natureza da Lança"), Heino Gehrts8 lançou luz sobre o significado e o caráter sacrificial interior da caça primordial, e Burkert mostra que ritos sacrificiais são uma continuação de práticas de caça antigas e a experiência de caça em um tempo onde a humanidade passava de uma civilização caçadora para uma agrícola. Burkert também ressalta que a transição para a caça talvez seja a mudança ecológica decisiva que separou o homem dos outros primatas e que a era das sociedades de caça compreende de longe a maior parte da história humana, uma estimativa de 95 a 99 por cento.
Só imagine: 95 a 99 por cento da história humana foi determinada pela caça, isto é, pela matança, e não apenas como uma forma incidental de aquisição de comida, mas como centro a partir do qual a existência humana adquiria o seu significado. E dos outros 10.000 anos desde a invenção da agricultura, pois por no mínimo 8.000 anos o ser social, político, cultural e religioso da humanidade estava embasado e derivou da carnificina e do sangue sacrificial. Toda a casa estava literalmente baseada em um sacrifício, em um animal ou em um humano, morto ritualmente, durante a cerimônia da construção e enterrado em sua fundação.
Se milênios de humanização centrados ao redor de matanças e sangue, e se práticas de caça representam a mudança ecológica crucial dos primatas, a humanização surgiu precisamente através das atividades humanas de matança. O nascimento dos Deuses, piedade, alma e consciência, a cultura em si não surgiram meramente do espírito da matança, mas da matança real. René Girard também, apesar de a partir de um ponto de vista diferente do meu, moralista e julgador, chegou à conclusão de que "todas as atividades úteis devem derivar do assassinato"9, Como ele derrogativamente coloca. Isso nos ajuda a entender porque um filósofo que, certamente, não era um adepto da violência poderia afirmar que "matar ainda é a mais nobre atividade". Poderíamos até dizer que é a ação essencialmente humana. E ao usar a fórmula homo necans ("homem que mata") como título de seu livro, o próprio Burkert dá à matança o seu lugar na definição do homem.
Seria um erro considerar a caça primordial como a herança animal do homem. Isso é o que precisamente ela não era. Em primeiro lugar, a caça é uma aquisição nova e, de forma alguma, auto-evidente com relação aos outros primatas. O homem não está equipado naturalmente com um aparato instintivo que permita que ele cace. Ele só adquiriu o comportamento de fera-da-caça no decorrer de sua humanização. É algo artificial a ele, requerendo tremendos esforços contra-naturais para superar os medos naturais e inibições característicos da espécie. Em segundo lugar, a transição para a caça não pode ser explicada pela necessidade prática. Foi estabelecido que não foi a falta de comida ou a fome que trouxeram a necessidade da invenção da caça. Carniças e pequenos animais teriam sido suficientes para as necessidades humanas por carne, como eram para as espécies pré-humanas do Australopithecus e Homo habilis, que ainda não caçavam mas, ainda assim, eram bem sucedidos. Além disso, nas sociedades de caça, os caçadores geralmente não contribuíam com mais de vinte por cento da dieta.10 Então, a matança do caçador é desde o início fundamentalmente diferente do comportamento caçador estritamente biológico dos predadores. Desde o início a matança pelos humanos é um empreendimento cuja origem está na alma e na mente, não na biologia ou na natureza. Ela origina-se de necessidades psicológicas e espirituais, da necessidade de significado. A matança do caçador primitivo é genuinamente humana.
Sabemos a partir de pinturas rupestres primitivas e também a partir de culturas caçadoras recentes que a caça não ocorre como um evento biológico imediato, sendo um ritual. Era uma ação sagrada que ocorria em um espaço sagrado. Esse espaço era separado da esfera do dia-a-dia através de vários rites d'entrée, através de abstinência sexual e do isolamento de futuros membros do grupo caçador, e mais tarde através de ritos dessacralizantes que os traziam de volta ao mundo ordinário. Gehrts mostrou que a lança de caça de 150.000 anos de Lehringen, a mais antiga de que se tem notícia, não é simplesmente um instrumento prático mas acima de tudo um utensílio cerimonial e portador de significado. Na lança, o macho tinha o seu eu (portanto não estava nele!). Da mesma forma, o sangue derramado na caça não era meramente o suco biológico da vida. Pelo contrário, o sangue do animal sacrificial era coletado pelas mulheres em uma cesta (na qual elas tinham seus eus) e levado à vila, para que a partir dele os habitantes pudessem fazer parte da totalidade do poder, participar do ganho sacrificial". Também sabemos que para o caçador primitivo, o próprio animal caçado era seu parente próximo, seu "irmão" ou "pai" ou "Deus", não só um fornecedor de carne. O que isso significa? No animal caçado ou imolado o homem conhece a si mesmo. Através do ato de matar o animal (ou um humano no caso de sacrifícios humanos), o homem ganhava o seu auto-conhecimento inicial, sua primeira consciência de si, que depois se articularia em imagens e estórias de Deuses.
Então a matança foi o primeiro ato no qual a primeira negação do ambiente animal, e ipso facto a abertura primordial do que chamamos o mundo do homem, toma lugar. Ela é o pivô entre a vida imediata, natural da criatura viva e a existência cultural do homem que é postulada, mediada desde o início. Com o terrível enfiar assassino da lança do caçador primitivo, com o chocante golpe do machado do sacrificador, o homem não apenas atingia, como fazia a fera caçadora, um Outro indiferente e, assim, sem nenhum outro valor além do alimentício. Ele também atingia e matava seu próprio Outro, e assim a ele mesmo. Neste ato ele não destruía literalmente a si mesmo como uma criatura viva, ele apenas matava a si mesmo logicamente como criatura meramente-biológica. Aquele que morria como um ser meramente biológico, simultaneamente ascendia como humano mental, consciente, e então fazia a sua primeira entrada no estado de ser como alma. A transição de coletor a caçador de grandes animais não teve o propósito evolucionário de fornecer novas fontes de comida para uma espécie particular de animal, o Homo erectus ou Homo sapiens, e assim contribuir para a sua sobrevivência. Teve o propósito mais radical de efetuar a transposição para uma dimensão qualitativamente nova, a da mente e da alma, da consciência. O homem não vem ao mundo através do nascimento ou do aprendizado, nem por um desenvolvimento natural, evolução ou crescimento. O homem deve por si só produzir a sua vinda ao mundo e a sua vinda à consciência através de seus próprios atos incisivos e sofrimentos – no princípio e sempre novamente.
Esta é uma "Origem e História da Consciência" muito diferente daquela fornecida por Erich Neumann, cujo envolvimento em uma fantasia a-histórica, arquetípica eu demonstrei no meu "Fundamental Critique" dezessete anos atrás, sem naquela época propor uma teoria minha.
O enfiar mortal da lança ou machado é um golpe na inexpressividade da vida animal. Foi a própria alma que, através do choque do golpe mortal, lançou-se para fora da escuridão da existência meramente biológica. Nesta escuridão, ela violentamente abriu para si, pela primeira vez, um espaço para a alma como uma pequena ilha. Dentro da impenetrabilidade de substância pastosa da vida vegetal e animal, o golpe sem piedade abriu um certo espaço livre, e o sangue jorrando da ferida aberta acendeu um fogo. O mito da separação dos pais do mundo, Céu e Terra, que originalmente estavam espremidos em uma co-habitação constante, sem deixar a seus rebentos espaço para respirar ou luz para viver – aqui no ato do golpe sacrificial de dento da estupidez da vida biológica e para dentro dela – aqui este mito é um evento momentâneo. O que é contado no mito como uma estória cósmica foi um dia um ato real e um evento na vida concreta, real do homem. Em contraste à imersão não distanciada da vida animal em seus próprios processos afetivos e instintuais, este evento literalmente incisivo traz uma distância reflexiva àqueles processos, e portanto traz uma clareza. Como a separação do Céu e da Terra, este golpe com o machado arrebenta a diferença de Jonathan Z. Smith entre "mapa" e "território", a diferença ontológica de Heidegger entre o que é e o seu ser e a diferença psicológica de Hillman entre a perspectiva arquetípica e aquilo que é vista desta perspectiva.
Com o último suspiro do animal ou humano sacrificial, o Deus, a imagem – significado – é gerado. Mas a imagem ainda está completamente imersa no ato em si. O significado aqui está primeiramente dentro, e como o evento, não é uma experiência sentida consciente de significado, nem ainda um significado postulado como um conteúdo intelectual. Não existe nenhuma superestrutura marxista aqui, nenhum reino platônico de idéias. O imaginal, o psicológico, que depois se articula primeiro na forma de deuses e espíritos e então como imagens e idéias e ainda mais tarde como conceitos, é apenas como a negada, a assassinada vida meramente-biológica.
Quando o homem entrou na história, ele estava desde o início equipado com todos os seus órgãos corporais, tais como coração, fígado e rins. Mas ele não estava equipado com uma consciência como um produto acabado, com uma alma naturalmente dada, que além de sua existência estaria – por alguma razão – cheia de terríveis agressões explodindo às vezes em atos de violência. Isto pela simples razão de que a alma não pertence à categoria dos órgãos ônticos – entidades. A alma não é. A alma não pode ser pensada em termos ontológicos. A alma é vida lógica, e como tal é auto-geradora. No homem e através dele a alma gerou-se e edificou-se através de inúmeros atos incisivos. A alma primeiro se fez através da matança. Ela matou-se para ser. É por isso que eu considero a matança sacrificial um cultivo da alma primordial. A alma se libertou, dentro de sua imersão no meramente-biológico, a partir desta imersão – de uma imersão que no entanto continua a existir mesmo depois de ter sido superada.
A estupidez da existência animal consistia no fato de que a reação a tudo aquilo que encontrava tinha que ser mais ou menos automática (afetiva, instintual), exclusivamente a serviço do propósito biológico de assegurar e aumentar a vida. Homo necans – o homem assassino – rompeu com este ser vinculado a interesses biológicos nus através de seu golpe com o machado ou de seu enfiar da lança. Pois com este ato tremendo ele atravessou logicamente o limite da vida à morte, limite dentro do qual o organismo vivo está completamente preso; assim ele infligiu a experiência da morte a si mesmo enquanto ainda vivo, e fez desta experiência a base da sua própria, não mais meramente-biológica, vida.
Não foi o parente do primata que realizou a matança de animais com a caça. Foi a alma que dentro deste parente do primata, e contrária a todas as suas ansiedades e resistências naturais, forçou este assassinato, para que a morte do animal fora da alma pudesse machucar e matar a si mesmo (a alma ainda imersa em uma existência primata). Assim poderia ver a luz como uma alma humana e como uma consciência. É por essa razão que o caçador e imolador primordial pode dizer o que um sacerdote sacrificador babilônico disse: "Este ato [morte sacrificial] – todos os Deuses realizaram; não fui eu que o realizei". O sacrifício não é ação do ego. É a auto-reflexão da alma, através da qual gera a si mesma, não por um meio espiritual de pensamento mas pelo meio material da ação.
De acordo com Daniel 8:11, o crime de Antiochos Epiphanes contra Jerusalém foi que "através dele o sacrifício diário foi afastado" de Jeová. Todos os Deuses precisam da sacrifícios. Por que? Porque eles têm a sua existência, a sua realidade, apenas no golpe e sangue sacrificiais. Nossa idéia é que Deus ou Deuses são entidades que existem (se é que aceitamos a noção de Deus). Mas nos tempos antigos os Deuses não eram nada além do tremor da alma vis-a-vis o golpe com o machado, um tremor que, como uma vibração de uma corda musical, desaparece com o tempo e precisa de renovação. O homem ainda podia facilmente escorregar de volta à estupidez da existência meramente-biológica, perdendo a clareza gerada pela imolação. No golpe sacrificial a alma trazia imagens de Deus ou arquétipos para si. Cada golpe assassino imprimia a imagem arquetípica específica novamente na alma. Os arquétipos aqui não são simples a priori. Não existe um estoque inesgotável de imagens arquetípicas dadas ao mundo. O homem tem que contribuir para a sua geração: através do sacrum facere (fazer sagrado, sacrificar). Assim como para os índios Pueblo, como soubemos por Jung, o sol não viaja meramente pela natureza através do céu, necessitando de ajuda contínua dos humanos através do ritual. O golpe e o sangue são "fatos" em sentido literal, resultados do fazer da própria alma, deixando com seu efeito chocante uma impressão indelével na alma, uma impressão que outorgou ao divino uma realidade inquestionável. Milênios depois da abolição dos sacrifícios sangrentos, o choque que fez a alma tremer, aprofundado e renovado em milhares de sacrifícios, ainda tem um eco, que hoje chamamos de experiências arquetípicas ou numinosas. A imagem mítica que uma vez se gravou profundamente na alma através da matança sacrificial ainda hoje é capaz de fazer a alma vibrar – uma ressonância leve daquele tremor que anteriormente fez a alma estremecer em respeito. Mas esta é uma leve ressonância e não mais que uma ressonância. Já que os Deuses não têm mais uma base na realidade da experiência da alma através do sangue real e do sacrifício real – desde Zaratrustra, Isaías o salmista, os Órficos e os Pitagóricos criticaram os sacrifícios sangrentos – as imagens tornaram-se mais fracas, os Deuses mais abstratos e subjetivos, e um significado convincente da vida cada vez mais difícil de se conseguir. Pois sem sangue, os Deuses que conferem o significado não podem sobreviver. Eles precisam de sacrifícios diários como nutrição, pois Deuses não são entidades existentes. Eles são o resultado da ação da alma, mas eles não são menos reais. Na verdade eles são a única realidade que é realmente real. O sangue derramado junto com a sensualidade e com a realidade desta experiência deu aos Deuses uma realidade indubitável. Você não tinha que acreditar em Zeus a quem agora mesmo um touro havia sido sacrificado diante de seus olhos, o gosto de cuja carne você havia agora mesmo saboreado comunalmente, o cheiro de cujo sangue e queima você ainda tinha em seu nariz. E você não podia acreditar nele. Pois você havia testemunhado a sua geração renovada na carnificina sacrificial. Você ainda sentia em seus ossos.
Explicando porque ele não ia mais aos sacrifícios, supõe-se que Plotino tenha dito: "Eles [os Deuses] devem vir a mim, não eu a eles". Esta anedota revela de modo belo a falácia platônica, a redução do cultivo da alma à sua metade passiva, a do recebimento, da visão, imaginação. Sua metade ativa, a do nosso fazer, do ato e fato sacrificial, foi descartada.
O sacrifício como instituição foi abolido há quase dois mil anos. Não há volta, e obviamente não podemos sequer desejar voltar a ele, apesar da perda cultural e de alma envolvida com sua abolição. Para nós modernos, o ato empírico de matar não é mais capaz de ser em si um ato lógico. Para nós é apenas um evidente assassinato. A história, o desenvolvimento da consciência, nos tirou daquele lugar onde os atos literais podiam verdadeiramente carregar um sentido de logos para nós e podiam assim transformar a realidade a lógica de nossa existência. Anteriormente o golpe sacrificial realizava o milagre de trazer um logos não existente ou alma de fato para a realidade carnal. Ele portanto deu corpo ao logos ou alma sem corpo, tornando-os reais. O golpe escandaloso que cortava a inviolabilidade do animal ou humano vivos, casou, fundiu o logos ou alma irreal à realidade carnal. A biologia foi destronada como base primária da existência humana e a mente ou psique foi instalada. Agora, para bem ou para o mal, o homem vive em um mundo invertido, ou seja, na mente ou na alma, e tem seu corpo e o assim chamado mundo externo apenas dentro delas.
Em uma carta Jung percebe, com surpresa, que a consciência quase não recebe informações diretas sobre os processos internos do corpo e que o inconsciente (sonhos, etc.) também raramente refere-se ao corpo. Ele falou da "estranha lacuna entre mente e corpo" e disse "poder-se-ia esperar que a alma recebesse informações imediatas e abrangentes sobre cada mudança interior do corpo animado por ela. Que este não seja o caso, requer explicações". Mas esta expectativa só é a expectativa da "consciência natural", que imagina a consciência e a alma como um tipo de extensão natural, contínua ou um desenvolvimento adicional do organismo. Entretanto, a alma e a consciência não são naturais. Elas são contra naturam. Elas devem a sua existência a uma revolução, a uma negação lógica da vida, à intrusão da morte violentamente perturbando a continuidade e a inviolabilidade da esfera da vida biológica. Para que a morte verdadeiramente invadisse e chocasse a vida para fora da "inocência do devir" (Nietzsche) e assim para a consciência, ela não poderia ser a morte inocente, que é um evento natural da vida. Teria que ser o ato anti-natural, e a atroz matança. Hillman enfatiza a relação especial da alma com a morte e com o mundo das trevas. Adicionamos que esta relação deve-se ao fato da origem da alma estar no ato intencional da carnificina violando a inocência da vida, e na afirmação consciente, de fato uma celebração, desta ofensa grave como a nova fundação da existência: a existência humana.
Dada a impressão esmagadora da instituição do sacrifício – seu significado e intensidade, sua dimensão temporal e geográfica – não é de impressionar que as psicologias arquetípica e junguiana, não a tenham percebido, não a tenham considerado um modo primário de cultivar a alma? A psicologia em sua inocência levou em consideração apenas uma parte abstrata da herança arcaica, o aspecto do significado e da imagem dos belos mitos e símbolos, e acreditou-se autorizada a reclamar para esta simples metade o nome "realidade da psique". Os arquétipos como arquétipos em si, as imagens em um entendimento imagístico, assim como formas platônicas, são removidos de todos os fatos históricos e da ação lógica mas real da alma. Eles são completamente limpos de todo o sangue e de todo os traços de um ato violento. Os "Deuses" da psicologia são tigres de papel. Eles são imunes a uma relação mundana real com uma era e cultura. Ninguém pensa que o arquétipo, arche-typos, tem sua origem em um typos real, ou seja, em um "golpe" com o machado. A inocência da consciência fica preservada.
O motivo do sacrifício portanto só foi entendido como simbólico. Grande atenção foi dispensada às estórias de desmembramento, estórias de Osíris, Dioniso, Zózimo e sua importância para a transformação da alma. Mas foi evitado o entendimento óbvio de que elas refletem matanças, desmembramentos e restituições reais como as antigas práticas de caça e sacrifício. De modo seguro e sem danos, elas são definidas como símbolos ou metáforas, e não como reais. Joseph Campbell até tentou reclamar a elas "uma lógica do 'faz de conta' – 'como se'". Até Hillman, que afinal introduziu o termo "soul-making" e a idéia do patologizar como cultivo da alma, nos primórdios da psicologia arquetípica pensava que as afirmações no mito sobre matanças ou desmembramentos "têm um significado, não no nível positivista do fato histórico, mas no nível imaginal. Eles são expressões simbólicas... O objetivo psicológico nestas discussões não é 'o fato'... mas que as horríveis imagens, isto é, fantasias psicopatológicas espontâneas, desempenham um papel central no mistério de transformação da psique". Mas se o desmembramento é apenas uma metáfora, a transformação que ele deve trazer também é apenas metafórica. O que se quer é uma transformação real. O objetivo psicológico, me parece, é o "fato", afinal.
Vivemos em um mundo de ideais, demandas, imperativos, fórmulas, utopias, princípios, programas cuja realidade é por definição o querer. Tudo que temos a oferecer para sua realização é a inutilidade de "devem-se" e "têm-se que" das esperanças e pensamentos desejosos. Em outras palavras, vivemos fundamentalmente em um mundo supra-terrestre de idéias, encasulado na irrealidade, e a psicologia faz o que pode para ajudar a instalar e envolver a existência humana nesta bolha. De fato, talvez a psicologia seja o maior baluarte da irrealidade. Portanto Hillman corretamente critica isto sob rótulo de narcisismo da psicologia. Mas o seu movimento "do espelho à janela" é um movimento dentro da mesma bolha, e não um movimento que nos ligaria à realidade. Pois seja espelho ou janela, você ainda está preso aos sentidos, com aisthesis, com imaginação e intuição, que desde então tornaram-se humanos vivendo no mundo invertido, podendo apenas produzir abstrações e nunca nos conectar com a realidade.
Até onde vejo, só houve uma maneira em toda a história conhecida pela qual a alma pôde verdadeiramente acessar ou gerar realidade. Esta era o sacrifício. Em tais culturas o homem não precisava de ideais, de esperanças, de utopia que teriam que ser postos em prática. Ele tinha esta prática e esta completude atrás de si, no tempo passado, no ato sacrificial que já havia sido praticado. Ele vivia de um fato inquestionável, um fato no entanto que não era positivista, mas em si lógico e criador de alma. Ele era a verdadeira metáfora, transportando de fato o que estava além das fronteiras da vida - a morte – para o centro da vida, invertendo a ordem do existir.
Por mais de mil anos, a alma aproximou-se deste acesso à realidade por si mesma, até então o único acesso. Desde então a humanidade ocidental viveu de suas reservas, de lembranças das fontes de significado geradas nas eras anteriores. Desistindo do sacrifício, não podemos reabastecer estas fontes. Como estas fontes tornaram-se mais e mais exauridas, a humanidade involuntariamente derivou para a irrealidade e abstração. A irrealidade é absoluta na medida em que aparece no disfarce de seu oposto: "realidade positivista". A não ser que a alma encontre algum outro caminho que não o da matança sacrificial para verdadeiramente gerar e alcançar a realidade, não vejo como a vida poderá novamente estar enraizada no significado real e não em um mero substituto falso; como a humanidade poderia vir verdadeiramente ao mundo e baixar a esta terra. Transformando o mundo em um mundo humano.
Acredito que exista tal acesso fundamentalmente outro à realidade, mas ele ainda está faltando. Ele ainda está no futuro. Talvez logo descubramos se estamos querendo admitir que este é um elo perdido e soframos a inflexibilidade do vazio, a falta de significado, a irrealidade que esta falta acarreta.
1 Wolfgang Giegerich é analista junguiano em Stuttgart e editor de Gorgo: A Journal for Archetypal Psychology and Imagist Thinking. Este artigo foi apresentado no Festival of Archetypal Psycology na Notre Dame University em julho de 1992 e é baseado em um material retirado do estudo do autor: Killings. Violence fron the soul: Na essay on the origin and history of consciousness.
2 Citação de Erika Simon, Die Götter Griechenlands (Munique: Hirmer, 1969), p. 11.
3 Walter Burkert, Homo necans. Interpretationen altgriechischer Opferriten und Mythen (Berlin, New York: de Gruyter, 1972), p. 9f.
4 Herbert Kühn, "Das problem des Urmonotheismus" (Abh. Mainz., 1950), pp.22, 17. Citado em Burkert, p.21.
5 H. Müller-Karpe, Handbuch der Vorgeschichte I: Altseinzeit, Munique, 1966.
6 Mircea Eliade, Geschichte der religiösen Ideen, vol. I (Feriburg et al: Herder, 1985), p.17.
7 K. Meuli, "Griechische Opferbräuche", Phyllobolia (Basel: Festschrift Peter Von der Mühli, 1946), pp. 185-288.
8 H. Gehrts, "Vom Wesen des Speeres", Hestia 1948/85 (Bonn: Bouvier Verlag Herbert Grundmann, 1985) pp. 71-103.
9 René Girard, "Generative Scapegoating" Violent Origins, ed. Hamerton-Kelly, (Stanford: Stanford University Press, 1987), p. 120.
10 Georg Baudler, Erlösung vom Stiergott (Müchen: Kösel, Stuttgard: Calwer 1989), p. 103.