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JUNG E CULTURA

Suzanne Robell

 

Numa série de artigos escritos entre 1927 e 1959, reunidos no volume 10 de suas obras completas, Jung mostra como se articulam a cultura (e portanto a sociedade) e a psique individual. O seu interesse pela questão parece ter surgido em virtude dos eventos imediatamente anteriores e imediatamente posteriores à segunda guerra mundial.

No artigo "The Fight with the Shadow" (datado de 1946/47), Jung afirma que a psicopatologia das massas está enraizada na psicologia do indivíduo1. No mesmo parágrafo, sustenta que somente quando conseguimos estabelecer que certos fenômenos ou sintomas são comuns a um determinado número de indivíduos é que poderemos examinar o fenômeno de massa análogo. E mais adiante: "/.../ só podemos descobrir quais são os defeitos na consciência de nossa época observando o tipo de reação que eles provocam no inconsciente"2.

Retomaremos esta questão adiante. Por hora, interessa notar o desenvolvimento de algumas idéias expostas neste volume 10. Jung parte da psicologia individual – sem nunca se esquecer de que o indivíduo pertence a uma espécie da qual herda suas características instintivas, tanto biológicas quanto psíquicas –, para em seguida se deter nos aspectos da psicologia do coletivo.

Neste breve resumo do aparelho psíquico do modo como é concebido por Jung, utilizo as Conferências de Tavistock proferidas por Jung em Londres, no ano de 19353. Nestas conferências Jung praticamente não retoma os conceitos de Animus e Anima, o que me permite discuti-los em um momento posterior.

Faço uma tradução livre de alguns trechos das Conferências, sem no entanto deixar de me referir à fonte.

"Na psicologia junguiana a consciência é uma superfície sobre uma vasta área de proporções desconhecidas. A área do inconsciente é enorme e sempre contínua, enquanto a área da consciência é a visão momentânea de um campo restrito."

Segundo Jung4, Freud deriva o inconsciente da consciência, ao passo que para ele a consciência procede de uma condição inconsciente.

Nada pode tornar-se consciente sem um ego. A consciência é definida como uma relação de fatos psíquicos com o ego. E o ego, como uma instância complexa constituída, a princípio, pela percepção geral do próprio corpo e da própria existência, e, em seguida, pelos nossos dados de memória. Ao ego pode ser dado o nome de um complexo de fatos psíquicos. Este complexo, com poderes como os de um imã, atrai conteúdos do inconsciente, desse mundo obscuro do qual nada sabemos. Atrai também impressões do lado externo, as quais se tornam conscientes ao entrar em contato com o ego5."

Imediatamente "abaixo" do ego temos a sombra. A sombra – como que o potencial do lado escuro do ego – pertence ao aspecto endopsíquico do ego. Não é possível lidar diretamente com os conteúdos inconscientes porque eles não são alcançáveis, não são diretamente apreensíveis6.

O inconsciente pode ser abordado através das peculiaridades das funções endopsíquicas, as quais não estão sob o controle da vontade, mas são o veículo através do qual os conteúdos inconscientes alcançam a superfície da consciência7.

Então, os processos inconscientes não são diretamente observáveis, mas aqueles dentre os seus produtos que cruzam a soleira da consciência podem ser divididos em duas classes. A primeira delas contém material de origem definidamente pessoal; são aquisições individuais ou produtos de processos instintivos que configuram a personalidade como um todo. Além disso, encontramos conteúdos esquecidos ou reprimidos e conteúdos criativos8.

Há também outros tipos de conteúdos de origem desconhecida, os quais não podem ser atribuídos a uma aquisição individual. Esses conteúdos têm como característica peculiar o seu caráter mitológico, como se eles pertencessem a um padrão que não é específico a nenhuma pessoa ou mente em particular; mas pertencente à humanidade em geral. São imagens cuja natureza é coletiva. A esses padrões coletivos Jung dá o nome de arquétipos9.

Um arquétipo é um agrupamento definido, de caráter arcaico, cuja forma e significado retomam temas mitológicos. Assim como o nosso corpo, nossa mente tem sua história. /.../ Nossa mente inconsciente, assim como nosso corpo, é um depósito de relíquias e lembranças do passado. /.../ O cérebro nasce com uma estrutura definida e funciona de forma moderna, mas esse cérebro tem a sua história. Foi sendo construído no decorrer de milhões de anos e representa a história da qual resulta. Carrega consigo traços dessa história, assim como o corpo, e se procurarmos nas profundezas da estrutura básica da mente, encontraremos traços da mente arcaica"10.

"Geralmente, quando o inconsciente coletivo se constela em grandes grupos sociais, o resultado é uma loucura pública, uma epidemia mental que pode levar a uma revolução ou a uma guerra, ou a algo parecido. Esses movimentos são extremamente contagiosos, porque quando o inconsciente coletivo é ativado deixamos de ser a pessoa que éramos. Não só estamos no movimento, nós somos o movimento. /.../ No inconsciente coletivo somos iguais ao homem de outra raça, temos os mesmos arquétipos, assim como temos, como ele, olhos, um coração, um fígado, e assim por diante"11.

Para uma compreensão psicodinâmica da psicologia junguiana, recorro também ao livro de Jolande Jacobi, "Complexo, Arquétipo, Símbolo, na Psicologia de C. G. Jung"12. O parágrafo seguinte retoma idéias de Jung através de citações ou interpretações da autora, às quais acrescento comentários meus.

Cada complexo é constituído de um elemento nuclear ou portador de significado. O complexo é inconsciente. Quando ativado, é capaz de fazer oposição aberta às intenções do ego, capaz de romper a sua unidade, de se separar e se comportar como se fosse um corpo estranho na esfera do consciente13. Tornar consciente os complexos é fator terapêutico da maior importância. "Do ponto de vista funcional, pode-se dizer que a dissolução de um complexo e sua digestão emocional, isto é, sua conscientização, apresenta sempre, como conseqüência, uma redistribuição de energia psíquica"14. Todo complexo tem um pólo negativo e outro positivo, os quais serão conscientemente confrontados no processo de individuação. O núcleo do complexo é arquetípico. Na análise, ao ser desvestido dos conteúdos pessoais, ele aparece enquanto núcleo que pertence ao inconsciente coletivo, o que nos traz a dimensão pessoal inserida na humanidade como um todo. Confrontado, o complexo começa a perder a energia avassaladora e pode ser abordado pela consciência de modo a contatar seus aspectos criativos.

Referindo-se aos arquétipos, diz Jacobi: "Os conteúdos arquetípicos são dados à estrutura psíquica do indivíduo, na forma de possibilidades latentes, tanto como fatores biológicos como históricos. De acordo com as condições proporcionadas pela vida externa e interna do indivíduo, atualiza-se cada vez o arquétipo correspondente e, ao tomar forma, ele aparece diante da câmara do consciente, ou, como diz Jung, é 'apresentado' ao consciente"15. Adiante, Jacobi cita Jung: "'É lógico que algo psíquico só pode se tornar conteúdo do consciente após a sua apresentação, isto é, quando possui apresentabilidade, o que é precisamente uma imagem', e assim se torna acessível ao tratamento durante a análise e, com ele, pode ser traduzido para uma fórmula consciente. Esse processo é absolutamente necessário, porque os conteúdos do inconsciente coletivo 'são núcleos de significado energeticamente carregados', que têm com freqüência um poder mágico e fascinante, que – como se fossem deuses desejosos de serem propiciados – precisam ser 'desrealizados' em sua autonomia mediante mudança de nome /.../. Quando por exemplo, num trabalho analítico, essa tradução é bem-sucedida, as forças propulsoras que se encontram nos conteúdos inconscientes são transferidas para o consciente e ali formam uma nova fonte de energia. E assim o mundo do nosso consciente pessoal é religado com a experiência primária da humanidade e 'o homem histórico e geral dentro de nós dá a mão ao homem individual que acaba de surgir'"16.

O arquétipo é um símbolo potencial sempre pronto a se atualizar e aparecer como símbolo17. "/.../ nunca se pode encontrar o arquétipo em si de maneira direta, mas apenas indiretamente, quando se manifesta no símbolo ou no sintoma ou no complexo"18. E, importante para o assunto desta dissertação: " /.../ num tratamento analítico, cada símbolo deve ser posto na sua conexão tanto coletiva como individual e, a partir daí, ser compreendido (até onde seja possível) e interpretado"19.

Ao comentar a posição do ego entre a consciência coletiva e o inconsciente coletivo, Jacobi considera importante que o ego seja capaz de discernir entre as manifestações arquetípicas que provêm de uma ou de outra destas duas instâncias. "Todos os 'ismos' têm, ao mesmo tempo, também seu fundamento arquetípico, por ser típico da espécie humana opor aos poderes do inconsciente coletivo os poderes da consciência coletiva"20. "A absorção do indivíduo pela consciência coletiva o despoja de sua autonomia tanto quanto o fato de ele ser vencido pelo inconsciente coletivo"21. "Quando o conteúdo de um símbolo se esgota, isso significa que o mistério que ele continha tornou-se inteiramente acessível ao consciente e, desse modo, se racionalizou ou desapareceu deste e retornou completamente ao inconsciente, perdendo a sua intransparência arquetípica e a sua numinosidade, deixando apenas como que a casca do símbolo e passando a fazer parte da consciência coletiva. Os conteúdos desta são, por assim dizer, invólucros vazios de arquétipos, miragens ou reflexos formais dos conteúdos do inconsciente coletivo".22

Transferência inserida na cultura

A minha idéia é que a anorexia nervosa é um sintoma de algo que está no inconsciente da cultura neste fim de século, assim como no fim do século passado, de uma forma ou de outra, a cultura parou para dar ouvidos à palavra das histéricas.

Freud inventou a psicanálise em boa parte graças às mulheres. Mulheres que a ele se entregaram como ao Hades e permitiram a manifestação de um arquétipo que até hoje é a magia da análise: o arquétipo da transferência. A transferência, independentemente da linha teórica que queira explicá-la, é o psicopompo de qualquer relação analítica.

Neste capítulo que trata da relação da psicologia analítica com a cultura, vale a pena nos estendermos sobre a questão da transferência. Jung me parece ter uma relação algo ambivalente com o fenômeno transferencial. Em alguns momentos ele a considera como algo a não ser, de forma alguma, estimulado, pois sua ocorrência (ainda que ela possa não ocorrer) é um estorvo para o analista (Conferências de Tavistock). Isto porque o paciente projeta figuras arquetípicas no analista, as quais impedem, por assim dizer, uma relação mais real com o processo analítico.

Por outro lado, Jung se deteve longamente no estudo dos processos transferenciais para traçar a analogia destes com o trabalho dos alquimistas23. Neste trabalho Jung explica o que entende por esquema quaternário de transferência, o que nos interessa particularmente. É nesse quatérnio que pode surgir aquilo que diz respeito à psicodinâmica individual da anoréxica. Mas ali surge também um elemento arquetípico pertencente ao inconsciente coletivo, e que, nesse momento, diz respeito necessariamente tanto à paciente quanto ao analista, e também à cultura na qual estão inseridos.

A transferência ocorre dentro daquilo que Jung denominou de vaso analítico; no entanto, este vaso está contido na cultura e não é impermeável a ela. Cada cultura produz um tipo de vaso, com os mais variados aspectos externos. Respeitando a estrutura quaternária da transferência, paciente e analista encontram-se imersos numa mesma constelação arquetípica. Ao mesmo tempo, a consciência coletiva é como que o invólucro do vaso analítico. Sendo a situação analítica permeável aos eventos externos a ela, podem-se nela mesma encontrar respostas individuais e ao mesmo tempo culturais a um determinado conflito. O vaso analítico é de um determinado tipo por fora e por dentro.

Jung se aprofundou na questão da transferência estudando textos alquímicos. Para ele, os temas abordados por aqueles textos, além de serem precursores da química enquanto ciência, tratavam da projeção inconsciente dos alquimistas sobre os elementos da natureza. A realização do opus alquímico, dentro do vaso alquímico, permite, segundo Jung, uma anorexia nervosaalogia com aquilo que ocorre na transferência em termos arquetípicos. Proponho então que observemos atentamente o que acontece dentro do vaso analítico com uma paciente com anorexia nervosa. Mas não nos esqueçamos de considerar também os aspectos externos ao vaso, uma vez que ele foi fabricado segundo os "moldes" de nossa época.

Transferência e anorexia nervosa

Eis o que nos diz Jung sobre a transferência: "/.../ Ao encontro convencional segue-se uma 'familiarização' inconsciente com nosso parceiro, trazida pela projeção de fantasias infantis, arcaicas, as quais, originalmente, dizem respeito a membros da família do paciente. Estas projeções, devido ao fascínio positivo ou negativo que exercem, ligam o indivíduo aos pais, irmãos e irmãs. A transferência dessas fantasias para a figura do médico leva este último a uma atmosfera de intimidade familiar e, mesmo que isto seja o que ele menos deseja, isto proporciona a prima materia com a qual o trabalho pode ser iniciado. Uma vez a transferência presente, o médico deve aceitá-la enquanto parte do tratamento e tentar compreendê-la /.../"24.

O esquema quaternário referido acima foi relativamente modificado por Mario Jacoby25, que retirou dele os elementos que diziam mais especificamente respeito à alquimia. Em seu lugar colocou paciente e analista com seus respectivos inconscientes. O esquema tomou a seguinte forma:

O que me parece importante assinalar é a comunicação dos dois inconscientes. O analista deverá estar atento a isto, principalmente ao tratar de uma doença de seu tempo, como a anorexia nervosa. É bem possível que esta doença contenha elementos inteiramente desconhecidos à sua consciência. O analista – também ele imerso na consciência coletiva – deverá atentar para novas formas de manifestação arquetípica; formas estas que aparecem como patologia no paciente.

Proponho então que consideremos a anorexia nervosa como uma forma patológica e compensatória de manifestação do inconsciente. Nesta patologia algum conteúdo inconsciente desconhecido está tentando se apresentar à consciência. Paciente e analista não sabem do que se trata. Não sabemos ainda exatamente que arquétipo está sendo tratado; se soubéssemos, os índices de cura talvez fossem maiores. O analista, no entanto, não pode perder de vista o fato de estar tratando de uma doença de seu tempo, o que fará com que ele atente especialmente para a própria sombra, a fim de, mesmo na escuridão do inconsciente, ser companheiro e guia na viagem neurótica de sua paciente. Assim como os anões na história de Branca de Neve. Mas como fazer isso?

Numa longa explicação a respeito da história das leis de parentesco, Jung chega à conclusão de que o "incesto, enquanto relação endogâmica, é uma expressão da libido que serve para manter a família enquanto tal unida"26. O que ele parece querer dizer aqui é que, no início dos tempos, as relações endogâmicas mantinham a união dos pequenos clãs; com o desenvolvimento da cultura, prevaleceu a relação exogâmica. No entanto, o incesto mantém-se no imaginário do ser humano, e o tabu faz relembrar como as coisas eram a muito tempo atrás. Como uma nostalgia psíquica dos tempos da endogamia, que se atualiza sempre no ser humano e na situação transferencial.

É na situação transferencial que Jung distingue aquilo que denomina de libido de parentesco: "Uma vez que a transferência nada mais é que projeção, ela tanto divide quanto conecta. Mas a experiência ensina que existe um tipo de conexão na transferência que não se rompe com a retirada das projeções. Isto porque, por trás disso, há um fator instintivo de extrema importância: a libido de parentesco. Esse tipo de libido, tão abafada pela enorme expansão da tendência exogâmica, só poderá encontrar vazão, uma modesta vazão, no círculo familiar mais imediato, algumas vezes nem mesmo ali, devido à muito bem justificável resistência ao incesto. Enquanto era limitada pela endogamia, a exogamia resultou em uma organização natural da sociedade que hoje desapareceu por completo. Agora somos todos estrangeiros uns aos outros. A libido de parentesco – que ainda poderia engendrar um sentimento satisfatório de pertencimento /.../ – foi, há muito, privada de seu objeto. Mas sendo um instinto, não se satisfaz facilmente com um mero substituto qualquer, seja um credo, um partido, uma nação ou o estado. Este tipo de libido pede a conexão humana. E é este, sem dúvida, o âmago de todo o fenômeno transferencial, já que a mesma relação que se estabelece consigo mesmo é estabelecida com qualquer outro ser humano, e ninguém pode estar se relacionando com o homem em geral se não estiver se relacionando consigo mesmo"27.

"Dessa forma, a ligação que se estabelece na transferência /.../ é de vital importância não só para o indivíduo mas para a humanidade como um todo e a sociedade, e de forma particular para o progresso espiritual e moral da humanidade"28.

E Jung conclui "Psicologia da Transferência" com as seguintes palavras: "O fenômeno transferencial é, sem dúvida, uma das síndromes mais importantes no processo de individuação. /.../ Através de seus conteúdos e símbolos coletivos, [a transferência] transcende a personalidade individual e se estende até o âmbito do social /.../"29.

Tanto os trechos citados do volume 10 quanto estes do volume 16 foram escritos por volta de 1945, na plena maturidade da obra de Jung. É aqui que ele nos dá oportunidade de juntar psique e cultura, psique e sociedade. É aqui que ele antecipa aquilo que Touraine virá a escrever muitos anos depois. E é aqui que consigo vislumbrar a intersecção de uma explicação individual com uma explicação mais abrangente da anorexia nervosa.

Uma explicação possível no plano pessoal é a de que se trata de mulheres com uma ferida na estruturação do animus enquanto arquétipo que permite uma feminilidade madura. Esta ferida pode-se dar de várias formas, como vimos anteriormente, na parte teórica e nos casos clínicos apresentados. Seja pela ausência do animus, como propõe Salzmann, seja pela fixação do animus ao arquétipo materno, como quer Woodman, seja pela hipertrofia do animus, que passa a funcionar autonomamente deixando de permitir uma relação mais efetiva da mulher com seu pensamento.

A ferida aparece na passagem da infância para a vida adulta. Ártemis não está presente na travessia para a outra margem ou, às vezes, ela é impiedosa, disfarça-se de caçador e leva a menina para a anorexia nervosa. Outras vezes, Hades rapta a menina para o mundo inferior onde impera a lei do jejum, e ela terá de aprender o mistério de ser deflorada pelo animus uma e outra vez, tendo que, para isso, se desgrudar do arquétipo materno.

A mulher pós-feminista provou o fruto da árvore do conhecimento e passou a ganhar o pão com o suor da própria fronte. Isto custa caro e creio que o ganho de consciência é ainda muito recente. Somos muito mais frágeis em nossa estrutura do que nosso ideal gostaria de acreditar. A "mulher natural" ainda está presente em nós.

A consciência coletiva prega que saudável é ser magra, e do inconsciente surgem cadáveres ambulantes ou o descontrole total da bulimia. Na transferência devemos atentar para o parentesco (kinship libido) que nos iguala a essas mulheres. No inconsciente, a alma dos analistas também chora pelo paraíso perdido; ali também, um tipo de libido regressiva advoga o status quo da alma.

Se atentarmos para os aspectos coletivos da transferência, talvez possamos compreender melhor a ferida dessas mulheres aparentemente bem-sucedidas, mas que negam os instintos mais fundamentais e que às vezes se tornam até mesmo incapazes de se reproduzirem devido aos prolongados períodos de amenorréia causados pela subnutrição (dificuldade inconsciente de sair da endogamia para a exogamia?). Parece até uma questão de equilíbrio ecológico, uma reordenação psíquica, uma redistribuição da libido – dessa libido do parentesco da qual nos fala Jung.

Se considerarmos o animus como o arquétipo que permite uma relação mais clara da mulher com os conteúdos inconscientes, é para o seu desenvolvimento que deveremos atentar na relação transferencial. O trabalho inicial costuma se dar no plano pessoal; no entanto, na minha experiência clínica, pude observar que é de fundamental importância que o analista mantenha consciente para si a libido de parentesco. O animus é um arquétipo do inconsciente coletivo, se apresente ele ou não no quatérnio transferencial, o que diz respeito a analista e paciente, simultaneamente.

Na anorexia nervosa, como vimos nos casos clínicos, é especialmente importante atentar para o desenvolvimento do animus, porque ele é, no indivíduo do sexo feminino, o arquétipo que cumprirá aquilo que Jung denominou de função transcendente no processo de individuação. E também porque é ele o arquétipo relacional capaz de mediar qualquer questão pendente no desenvolvimento da mulher anoréxica.

Na cultura, na medida em que cada mulher individual puder ter uma relação mais consciente com o animus, haverá transformações no plano coletivo no que diz respeito ao feminino. As mulheres poderão ser mais incisivas, mais claras sem perder a relação com sua natureza feminina.

No prefácio a "Two Essays on Contemporary Events"30 (volume 10, de 1946), Jung diz: "Estamos vivendo momentos de grande distúrbio: as paixões políticas estão inflamadas, levantamentos internos têm levado nações aos limites do caos, e os fundamentos de nossa weltanschauung estão destroçados. Este estado crítico das coisas tem uma influência tão tremenda na psique individual que o médico deve seguir seus efeitos com atenção redobrada. Ele não é tomado pela tempestade de eventos somente a partir do grande mundo exterior; ele sente a violência do impacto até na quietude de seu consultório e na privacidade da consulta médica. Por ter responsabilidade para com seus pacientes, ele [o médico] não pode se permitir uma retirada para a pacífica ilha do trabalho científico, mas deverá constantemente descer para a arena dos eventos mundanos, de forma a participar da batalha dos conflitos entre paixões e opiniões. Se ele permanecesse distante do tumulto, a calamidade do seu tempo o atingiria somente de longe, e o sofrimento de seus pacientes não encontraria nem ouvidos nem compreensão. Ele [o médico] estaria perdido no que diz respeito a saber como falar com o paciente e ajudá-lo a sair do isolamento. Por esse motivo, o psicólogo não pode evitar lidar com a história contemporânea, mesmo que sua alma se encolha ao ouvir os rugidos da política, as mentiras da propaganda e os discursos dos demagogos"31. Estas considerações, é óbvio, dizem respeito aos momentos imediatamente posteriores à segunda guerra mundial, mas me parecem procedentes para a questão transferencial acima comentada.


1 Jung,, C. G. The Collected Works, Princeton University Press, Second edition, 1970, Vol. 10, Par. 445.

2 Op. cit., Par. 448.

3 Jung, C.G. The Collected Works, Princeton University Press, 1973, Vol. 18, p. 5-182.

4 Op. cit., Par. 14-15.

5 Idem, Par. 18.

6 Op. cit., Par. 20.

7 Idem, Par. 77.

8 Idem, Par. 78.

9 Idem, Par. 79.

10 Op. cit., Par. 80-81.

11 Idem, Par. 93.

12 Jacobi, J. Complexo, Arquétipo e Símbolo na Psicologia de C.G Jung. Ed. Cultrix, São Paulo, 1995.

13 Op. cit., p. 18-19.

14 Idem, p 20-21.

15 Op. cit., p 39-40.

16 Idem, p. 66-67.

17 Idem, p. 72.

18 Idem, p. 73.

19 Idem. p.73

20 Op. cit., p. 100.

21 Idem, p. 101.

22 Idem, p. 101.

23 Jung, C. G. Psicologia da Transferência, The Collected Works, Vol. 16, Princeton University Press, 1972.

24 Op. cit., Par. 420.

25 Jacoby, M. O encontro analítico. São Paulo, Cultrix, 1995.

26 Op. cit., C.W. 16. Par. 431.

27 Op. cit., Par. 445.

28 Op. cit., Par. 449.

29 Idem, Par. 539.

30 Jung, C. G. "Two essays on contemporary events", The Collected Works, vol. 10. Princeton University Press.

31 Op. cit., p. 177-8.

 

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