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O ID E O INCONSCIENTE COLETIVO

Questões a Freud, Jung e Lacan

Rodrigo Zanatta
São Paulo, Dezembro de 1999


INTRODUÇÃO

Para muitos pode parecer estranho, esquisito, ou mesmo "herético", forçar a aproximação de termos aparentemente distintos um do outro - tanto no nível da experiência quanto no de sua teorização - na medida em que os termos trazidos a tona em título também sugerem campos conceituais diferentes e, porque não, divergentes. Ao nos aventurarmos por essas fronteiras ainda pouco exploradas, devemos sempre manter vivo o fato de que, ao contrário do que aparece às mentes (como se diz:) "primitivas", as palavras não são as coisas, e que estas últimas recebem de nós nomes que não raro nos levam a confusões quanto ao uso que fazemos dos conceitos, quando fora do campo no qual foram forjados.

Acontece, no campo em questão, como se João, filho de José e Maria, fosse o mesmo João, filho de Antônio e Fátima, simplesmente por serem chamados, aqui e acolá, pelo mesmo nome. E aquele que observa fica num impasse ao tentar determinar os traços de personalidade e características físicas de João, sem saber que por esse nome se designa objetos, ou no caso, pessoas diferentes. Ou, ao contrário, como se um sujeito que aqui é chamado por todos de João, acolá o é por Joaquim, por razões que não precisamos discutir e, destarte, o observador desavisado não consegue perceber que aquilo que é feito aqui por um e acolá por outro, segundo o testemunho daqueles que o nomeiam, por ter-se fiado nos nomes, é de fato feito pelo mesmo indivíduo.

Assim, é necessário que ao invés daquilo que tem feito a maioria dos que tem se dedicado ao assunto "Freud e Jung", isto é, ao invés de nos perdermos num esvaziamento vão do sentido dos termos e disputarmos entre nós seus significados, fixemos o olhar nas coisas e exploremos suas variadas facetas através dos termos e descrições destas que nos são dados por nossos predecessores na psicologia do inconsciente. Assim as teorias podem deixar de ser doutrinas, e passar a ser instrumentos.

FREUD E A "HERANÇA ARCAICA"

Se Freud formula a noção de "Id" apenas em 1923 para dar conta daquilo que até então aparecia na teoria "confundido" com a massa total do inconsciente, é pelo fato de ser necessário destacar deste todo um conjunto de fenômenos dotados de uma dinâmica própria que, apesar de "plenamente inconscientes", devem ser diferenciados do restante do material inconsciente para se constituir, então, como o próprio "núcleo" deste.

Sabe-se que na primeira tópica do aparelho psíquico Freud fizera distinção entre inconsciente (incs), pré-consciente (pcs), e consciente (cs). Sabe-se também que este se refere ao inconsciente em mais de um sentido: 1) qualitativo, isto é, o estado de um conteúdo psíquico que, no sentido 2) dinâmico pode ser inconsciente ou consciente. Ou seja: o pré-consciente é, qualitativamente falando, inconsciente, embora dinamicamente tenha sua própria ordem, mais próxima à consciência. É o próprio Freud quem escreve:

"Ao latente, que é inconsciente apenas descritivamente [qualitativamente], não no sentido dinâmico, chamamos de pré-consciente; restringimos o termo inconsciente ao reprimido dinamicamente inconsciente..."1

Neste plano, o "inconsciente" coincide com o "reprimido". Mas não se deve confundir o id com o reprimido, muito menos é numa equivalência ao reprimido que se deve confinar a noção de inconsciente em Freud - embora seja essa uma definição possível, como várias vezes fora criticado, inclusive por Jung, de fazer do inconsciente uma "lata de lixo". Temos assim "inconsciente" enquanto estado de uma representação psíquica que pode ser pré-consciente, isto é, submetida à ordem e dinâmica conscientes, ou pode ser inconsciente, isto é, submetida à dinâmica inconsciente. O material, a substância, não se diferencia em nada do que na psicologia geral pode-se entender pelo termo bastante geral: "memória". O diferencial aí é introduzido pela dinâmica dos processos em questão, onde, em relação ao material reprimido, cabe salientar os mecanismos de deslocamento e condensação, ou seja, a metáfora e a metonímia.

Freud observa que os conteúdos psíquicos recalcados caem sob o domínio do id - o que não os faz necessariamente o mesmo, embora haja um estreita relação entre eles. Na sua "topologia do saco", como se expressa Lacan, Freud coloca o reprimido ao lado do id e ao mesmo tempo destacado do ego:

Fig. 01

Vê-se aí tanto o "rompimento", por assim dizer, entre "ego" e "reprimido", quanto a continuidade entre o id e ambos. Isso se deve ao fato de que tanto o ego quanto o reprimido têm sua origem no contato do id com o ambiente externo, como várias vezes Freud ilustra com sua metáfora biológica da célula que desenvolve uma membrana que permeará suas relações com o mundo externo (essa metáfora é especialmente interessante e válida, na medida em que reproduz uma imagem que abre um amplo campo de analogias e que, assim, de uma certa forma, melhor ilustra o desenvolvimento do ego a partir do id.)

As principais características do ego, segundo Freud, são a coerência de seus processos psíquicos, seu controle sobre a motilidade e, aquilo que afirma ser o seu núcleo, isto é, o sistema perceptivo. Cabe notar que a "substância" do ego não se diferencia da do "reprimido" a não ser pelo destino tomado pelos processos psíquicos oriundos do id, em função do contato com a "realidade", ou, mais especificamente, para usar a terminologia lacaniana: com a lei. As catexias libidinais, idéias e desejos que não encontram uma forma de satisfação no real, grosseiramente falando, são colocadas à parte do ego ("split-off"), onde este deixa de exercer sobre aquelas o seu controle, relegando-as ao controle do id. Isto traz algumas questões topológicas acerca da noção de "ego", e tentaremos indicar nossa trilha mais à frente. Tanto no ego quanto no reprimido, trata-se de um precipitado que envolve as pulsões do id e a "energia" oriunda dessas, a libido2, assim como os objetos da realidade externa aos quais esta energia esteve ou está ligada (investida), ou seja: simulacros imaginários que compõem a representação do mundo, organizados pelos mecanismos inconscientes, isto é, no que diz respeito ao inconsciente dinâmico, num homo sapiens, o que Lacan chamou o efeito do significante. Enquanto o ego e o inconsciente reprimido são o resultado da experiência individual e única do sujeito, o efeito individual e único do encontro entre um cérebro e parte de uma massa pre-articulada de material siginificante provido pela história cultural da comunidade onde vem a ser tal cérebro, o id se configura como uma instância psíquica impessoal e independente da experiência individual, ou seja, o conjunto dos trieben, ou pulsões, universais na espécie humana3.

Queremos agora introduzir uma forma simplificada do esquema topológico da segunda tópica freudiana - o que também tem o intuito de preparar o caminho para o nosso objetivo:


fig. 02

Chamemo-la, em homenagem ao esquema freudiano, de "topologia do ovo", ou "topologia da célula" se for preferível, desde que se entenda que se trata de uma topologia, e nada mais. E devemos notar que há nesta uma semelhança com aquelas inspiradas no estilo do Sr. Kurt Lewin. Seguindo tal inspiração, digamos que, num primeiro momento, aquele campo em "1" que chamamos 'ego' sofre progressivas diferenciações em seu interior, formando compartimentos semi-independentes que, num segundo momento, têm com os vizinhos relações mais ou menos permeáveis, como em "2" a do eu e do reprimido, onde, segundo Freud, há um rompimento da continuidade dos processos psíquicos, chamado "recalque" e mantido pela "resistência".

Abordaremos mais sucintamente a questão das diferenciações internas do ego num outro espaço. Por hora, é necessário focalizar esses aspectos do "id", de que nos fala Freud, e que se referem aos "resíduos arcaicos". Ele nos diz:

"... nenhuma vicissitude externa pode ser experimentada ou sofrida pelo id, exceto por via do ego, que é o representante do mundo externo para o id. Entretanto, não é possível falar de herança direta no ego. É aqui que o abismo entre um indivíduo concreto e o conceito de uma espécie se torna evidente. Além disso, não se deve tomar a diferença entre ego e id num sentido demasiado rígido, nem esquecer que o ego é uma parte especialmente diferenciada do id. As experiências do ego parecem, a princípio, estar perdidas para a herança; mas, quando se repetem com bastante freqüência e com intensidade suficiente em muitos indivíduos, em gerações sucessivas, transformam-se, por assim dizer, em experiências do id, cujas impressões são preservadas por herança. Dessa maneira, no id, que é capaz de ser herdado, acham-se abrigados resíduos das existências de incontáveis egos; e quando o ego forma seu superego a partir do id, pode talvez estar apenas revivendo formas de antigos egos e ressuscitando-as."4

Dificilmente se encontrará, mesmo em Jung, melhor definição de "inconsciente coletivo" e sua formação, do que aquilo que frisamos na citação acima.

Neste trecho de seu "O Ego e o Id", Freud quer salientar que na formação do superego5, onde entram em jogo tanto o material pulsional edípico quanto as restrições impostas pelo ambiente, onde mais tarde Lacan irá situar a introdução da metáfora paterna na constituição da cadeia significante, entram em jogo também conteúdos provenientes da experiência acumulada da espécie. Não há razão para restringir a operação desses "resíduos arcaicos" à formação do superego, na medida em que, como veremos, também o ego se mostra dependente dessa herança em sua formação. Isso se dá porque o ego deve ser entendido como um prolongamento ligeiramente diferenciado do id, um "precipitado", onde se imiscuem as relações objetais deste com as formas do instinto (ou pulsão - trieb) que se apresentam, e o superego como uma diferenciação posterior no sistema id-ego. Pode-se extrair exemplos dessa "herança arcaica", no nível animal, todos aqueles comportamentos ditos "instintivos" que o animal executa, como a construção de uma casa por um João de Barro, ou a organização social das abelhas, provável resultado de milênios de evolução; no nível humano, pode-se tomar as fantasias que as crianças geralmente constróem em relação a seus progenitores, ou ainda suas incursões animistas em sua singularíssima forma de saber sobre o mundo6, cujo caráter universal pode ser facilmente constatado pela comparação com material mitológico e religioso, cujo simbolismo, usando tal termo no sentido genérico, também se repete em nossos sonhos.

Há também as forma próprias de relações imaginárias, de identificações, projeções e etc, onde o termo imaginário se aproxima da noção de "instinto" e "natural". Trata-se aí daquilo que o animal humano trás de disposição inata para responder ao mundo no qual é posto. Não é necessário dizer que no homem a plasticidade, a abertura de tais disposições, ou para já adiantar um termo que nos será útil depois de criticado, tais arquétipos, é infinitamente maior que nos organismos mais simples, como nos protozoários, por exemplo. E é só no sentido de apontar tal hiância que tem sentido, em Freud, uma distinção entre der Instinkt e das Trieb.

Numa nota de rodapé que Freud introduz na segunda parte de seu Psicologia das Massas e Análise do Eu7, discutindo a descrição que Le Bon faz da "mente grupal", em especial seu uso do termo inconsciente, bem próximo àquele de Jung, encontramos o seguinte:

"Não deixamos de reconhecer, é fato, que o núcleo do ego, que compreende a 'herança arcaica' da mente humana é inconsciente; além disso, porém, distinguimos o 'reprimido inconsciente', que surgiu de uma parte dessa herança." (op. cit.)

Pode causar uma certa estranheza ou um sentimento de ambigüidade a idéia de "núcleo do ego", sobretudo por se tratar aí de uma afirmação isolada e rara, na medida em que o núcleo do ego é tomado quase sempre como sendo o sistema perceptivo. Mas na medida em que a este núcleo é dado o atributo de conter a herança arcaica, é com o id que devemos identificá-lo, o que além disso dará pleno sentido à topologia proposta acima.

Não é a toa que vemos surgir nesse momento, pela pena de Freud, formulações que concernem a essa "herança arcaica" e "coletiva" da espécie, pois esse período marca uma certa guinada em seu pensamento, se dermos crédito ao testemunho de E. Jones, para questões relativas à antropologia, história, sociologia, etc. e esse texto é um dos seus últimos grandes trabalhos teóricos, que tem a virtude de preparar o caminho para desenvolvimentos posteriores. Freud retoma a questão da "herança arcaica" em Moisés e o Monoteísmo8, uma das melhores obras de Freud, onde nos esclarece seu ponto de vista:

"A resposta imediata e mais certa é que ela consiste em certas disposições [inatas], características de todos os organismos vivos: isto é, na capacidade e tendência de ingressar em linhas específicas de desenvolvimento e de reagir, de maneira específica, a certas excitações, impressões e estímulos [...] elas representam o que identificamos como sendo o fator constitucional dos indivíduos."9

Pode-se perceber aí que isso que Freud está destacando como "herança arcaica" se situa, nessa tripartição que Lacan faz da experiência analítica, nessa espécie de 'espectrômetro' inventado por ele, justamente no campo do Imaginário, isto é, naquelas formas específicas através das quais o animal humano, ou não, é capturado em sua relação com o mundo, e que encaminham algo dele num sentido que é aquele que se sedimentou ao longo da história evolutiva de seus semelhantes. Freud continua:

"Temos, em primeiro lugar, a universalidade do simbolismo na linguagem. A representação simbólica de determinado objeto por outro - a mesma coisa aplica-se a ações - é familiar a todos os nossos filhos e lhes vem, por assim dizer, como coisa natural [e o termo "natural" aqui deve ser entendido em seu pleno sentido]. Não podemos demonstrar, em relação a eles, como aprenderam, e temos de admitir que, em muitos casos, aprendê-la é impossível. Trata-se de um conhecimento original que os adultos, posteriormente, esquecem. É verdade que o adulto faz uso dos mesmos símbolos em seus sonhos [...] Ademais, o simbolismo despreza as diferenças de linguagem; investigações provavelmente demonstrariam que ele é ubíquo - o mesmo para todos os povos. Aqui, então, parecemos ter um exemplo seguro de uma herança arcaica a datar do período em que a linguagem se desenvolveu."10

Devemos nos deter um pouco no sentido que se deve dar ao que Freud está aí chamando "simbolismo", em especial porque neste ponto o termo se distancia bastante da noção de símbolo usada por Lacan, aproximando-se mais daquela que em Jung é qualificada de "interpretação redutivista". O fato de dizer que "... o simbolismo despreza as diferenças de linguagem ..." não contrapõe Freud e Lacan. A noção de símbolo aí usada é aquela de uma analogia, de algo que, de alguma forma, produz sentido. Sua consistência se localiza lá onde se produz o significado, isto é, naquilo que Lacan chamou a conjunção do imaginário e do simbólico. Trata-se da mesma concepção de Jung, embora as conclusões sejam divergentes. Já Lacan isola com o termo símbolo, mais especificamente significante, o aspecto material de tal conjunção. Isto é, o que podemos chamar "a letra". E mostra que o significado, seja ele qual for, se produz na concatenação, na ligação entres os significantes. Só posso dizer o que é uma "casa", usando outro significante. É verdade que muitas vezes, em especial no discurso religioso e no discurso psicótico, alguns entre tais significantes especialmente se tornam portadores de uma grande gama de significados. Tornam-se hipercondensados, por assim dizer. Essa também é uma outra questão, muito ampla, que esperamos poder discutir em um outro momento.

Há um outro aspecto que Freud destaca nesse mesmo texto que estamos trazendo à tona, que é a dimensão externa dessa herança. Quem já se deteve aí deve lembrar que Freud supõe, em relação ao estudo que está fazendo sobre a história do povo judeu, que a "lembrança" do suposto assassinato de Moisés teria sobrevivido especificamente entre alguns grupos ou homens, nomeadamente os profetas, que constantemente, através de seu discurso, revigoravam a memória do povo em geral no que se referia à doutrina mosaica. Faz assim uma distinção essencial quando, ao mesmo tempo em que situa a herança arcaica no "id" imaginário, situa-a na exterioridade do discurso. Trata-se de duas dimensões (adianto: o imaginário e o simbólico) que, como já salientamos, terão que ser retomadas mais à frente. O que não se pode duvidar é que Freud não desprezava a "herança arcaica", inclusive nos trás importantes observações sobre sua dinâmica, questão que nos ligará diretamente ao conceito de inconsciente coletivo de Jung

JUNG E A ANIMA MUNDI

O conceito de inconsciente coletivo de Jung surge quando este se defronta com essa mesma universalidade de "simbolismos" à qual Freud se refere, fazendo-se assim necessário diferenciar um inconsciente "pessoal" e um "inconsciente coletivo". Não que Freud não estivesse a par dessa situação, e de fato, no período em que trocaram suas 700 cartas (aproximadamente), se encontravam freqüentemente discutindo esta questão. Mas não havia ainda se dedicado a uma pesquisa mais extensa nesse campo. Enquanto Jung não tardou em usar o termo, foi só em 1937 que Freud pode dizer:

"O conteúdo do inconsciente, na verdade, é, seja lá como for, uma propriedade universal, coletiva, da humanidade."11

Por esse termo, Jung entende aquele nível psíquico onde se registra a experiência acumulada da espécie, ao longo de sua história. Ele nos diz:

"Ao lado desses conteúdos inconscientes pessoais, há outros conteúdos que não provém das aquisições pessoais, mas da possibilidade hereditária do funcionamento psíquico em geral, ou seja, da estrutura cerebral herdada. São as conexões mitológicas, os motivos e imagens que podem nascer de novo, a qualquer tempo e lugar, sem tradição ou migração históricas. Denomino esses conteúdos de inconsciente coletivo."12

Somente essa citação deveria bastar para afastar todos aqueles que erroneamente lêem na obra de Jung concepções místicas ou "transcendentais" no que diz respeito especialmente ao conceito de arquétipo. Se Jung se refere ao cérebro, e espera encontrar aí o suporte material necessário ao seu conceito - nada quer dizer que isso seja evidente13 - deve-se ver nisso justamente aquela atitude de "desmistificação" típica do século XIX, da qual Jung também é herdeiro. Os arquétipos, cujas interconexões constituem o inconsciente coletivo, se configuram como possibilidades herdades de desenvolvimento de determinados processos psicológicos, como estruturas que dão forma à experiência, e que são constantemente atualizadas por esta. Estas formas e motivos podem ser vistas e isoladas largamente na mitologia, nas religiões e nos sonhos. Ao recorrer ao cérebro, Jung coloca a idéia de "arquétipo" em estreita relação com aquela de instinto, ou seja, como certos padrões, "trilhas" específicas que, no caso, a imaginação humana pode percorrer, na medida em que já foram percorridas muitas vezes no passado:

"... naturalmente não se trata de idéias hereditárias, e sim de uma predisposição inata para a criação de fantasias paralelas, de estruturas idênticas, universais, da psique, que mais tarde chamei de inconsciente coletivo. Dei a essas estruturas o nome de arquétipos. Elas correspondem ao conceito biológico do 'pattern of behavior'"14

Fica assim claro que, em termos lacanianos, o que aqui destacamos do conceito de arquétipo se refere àquilo que é da ordem imaginária, e está em perfeito paralelo com aquilo que salientamos da descrição de Freud a respeito da herança arcaica (excetuando-se o que é veiculado pelo discurso).

Num outro momento, Jung diz:

"... o inconsciente consiste, entre outros, dos 'resíduos' da psique arcaica indiferenciada, inclusive dos estágios prévios da animalidade."15

Cabe notar que também Freud fez remontar aos "estágios prévios da animalidade" os seus resíduos arcaicos. Isso faz destacar ainda mais o aspecto materialista da concepção de Jung, ou seja, trata-se na "psique", na "alma", naquilo que a anima, no néphesh, de algo que se desenrola e se desdobra na história evolutiva do cérebro. Isso faz consistência com a noção de imaginário, na medida em que pressupõe no homem toda uma gama relativamente organizada de esquemas pré-organizados de resposta e adaptação. E aqui vale assinalar um marco diferencial que permitirá compreender a relação entre as teorias aqui em análise. Enquanto Jung acentua o aspecto imaginário, pois não se discerne em Jung o que é propriamente da ordem imaginária do que é da ordem simbólica, confusão que faz com que Jung apreenda todos os fenômenos sempre pela via imaginária e o leve a conceber o inconsciente, em seu extremo, como a Anima Mundi dos alquimistas, abrindo as portas para a banalização e a degradação esotérica de sua teoria, Freud e na sua trilha Lacan destacam o aspecto simbólico, isto é, a trama significante que constitui o inconsciente em sua lógica e em seus movimentos. O que faz com que Lacan e seus discípulos concebam cada vez mais caduco tudo o que é da ordem imaginária, fechando assim os olhos, a priori, para toda uma dimensão da experiência humana que, em muitos aspectos, se revela essencial.

Assim se refere Jung:

"O inconsciente coletivo compreende toda a vida psíquica dos antepassados desde seus primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isso exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência, visto que tende constantemente a recolocar todos os processos conscientes em seus antigos trilhos."16

Devemos parar por aqui, não muito mais poderá ser dito até que tenhamos feito uma profunda análise do termo arquétipo e suas incidências em relação as categorias do imaginário e do simbólico.

A partir do que foi exposto, fica evidente e nos salta aos olhos a semelhança que há entre aquilo que Freud chamou Id e o Inconsciente Coletivo de Jung, semelhança que nos autoriza a pensar que, embora com nomes e descrições ligeiramente diferentes, de acordo com as necessidades internas de cada teoria, estavam ambos olhando para a mesma coisa.

Porém, tão importante quanto as semelhanças, faz-se necessário determo-nos agora nas dessemelhanças. Elas surgem quando Freud coloca em seu "Id" a morada desses deuses mitológicos da psicanálise, isto é: Pulsão de Vida (Eros) e Instinto de Morte. Seremos breves quanto a isso. Para Freud, a despeito de todo o material arcaico já bastante elaborado que se pode encontrar no id (que para Lacan é o conjunto prévio da linguagem), estes seriam os "instintos" básicos a que todos estes remontariam. Não há nada semelhante a isso na obra estritamente junguiana, embora este viesse a sugerir alguns "instintos básicos"17, não muito distante das concepções biológicas, que seriam a sobrevivência da espécie, do indivíduo e um tal "instinto religioso", que talvez tenhamos a oportunidade de examinar em um outro momento. Por hora cabe notar que para Freud estes, se um dia passaram pelo seu pensamento, seriam apenas formas secundárias dos instintos mais básicos. Nesse sentido, é mister perguntarmo-nos se, de alguma forma, esses "instintos básicos" não estariam, de alguma forma, presentes em Jung.

E uma análise mais atenta nos revela que é este o caso. Que, embora Jung não tenha se referido diretamente a eles, ainda que conhecesse a obra de Freud, de alguma forma eles estão lá, implícitos. Tomemos, a título de exemplo, o processo de individuação, do qual nos fala Jung. Ali, trata-se de uma constante integração de aspectos opostos da personalidade, da conunctio, como a define Jung. Esse caráter de "integração", de formação de unidades progressivamente mais complexas, é marca registrada do Eros freudiano. Da mesma forma, na alquimia, da qual Jung se serve abundantemente, encontramos a "etapa" da mortificatio, isto é, da decomposição das substâncias, de sua putrefactio, sua putrefação e desintegração, absolutamente necessárias à reintegração posterior, o que nos remete diretamente ao Instinto de Morte em Freud. E se entendemos este nos termos lacanianos de "compulsão à repetição", de "insistência da cadeia significante, então é aí, nessa constante reatualização das estruturas arquetípicas em relação à experiência que se deve ver o instinto de morte em Jung.

LACAN

Podemos agora passar a uma breve revisão daquilo que apresentamos, tentando incluir os termos lacanianos mais incisivamente em nossa análise.

Os conceitos introduzidos por ele, especialmente aqueles que compõem seu "esquema Z" e sua dinâmica são, além de inovadores e catalisadores de qualquer experiência que queira se definir como "analítica", essenciais e se relacionam diretamente ao ponto que temos em vista. Ver-se-á que algumas coisas, a princípio, parecem não ajustar-se satisfatoriamente, porém, seria de uma extrema insinceridade intelectual, e pior, deixar-nos ia para trás e tornaria inútil tudo o que viemos trabalhando até aqui e o que ainda está por vir, esquivarmo-nos dessa dificuldade, justamente essa, que nos promete os melhores frutos de nosso labor.

Vejamos então o que Lacan18 tem em mente:

fig. 03

Nesse esquema, o ponto em "S" (das Es) representa o sujeito. Trata-se aí de algo difícil de se definir apressadamente. O sujeito lacaniano hora se apresenta como o "das Es", o Isso ou Id freudiano, hora, nas formas de seu desejo, como o recalcado, à imagem e semelhança do discurso de um "outro". Vê-se então que Lacan se mantêm fiel àquela semi-fundição que Freud faz entre o Id, como reservatório libidinal, fonte de pulsões titânicas caóticas e impessoais (e é nesse campo que se deve incluir os "resíduos arcaicos" ou "arquétipos"), e o recalcado/reprimido, enquanto mais submetido ao processo primário e o princípio do prazer, imperantes no Id. Embora não seja nesse sentido que o termo sujeito é usado de forma geral por Lacan, seu sentido mais estrito, o sujeito do inconsciente, se define também por sua relação com o reprimido, na medida que é aí que se revela o desejo.

Nas condições que nos encontramos, os termos se encontram, se entrecruzam, se sobrepõem, e é necessários prosseguir como uma certa cautela. O sujeito lacaniano está preso na rede da linguagem. É, desde o princípio, submetido à ordem do Outro, pelas vias do inconsciente. Jung não tem um termo para isso especificamente, embora num certo sentido o termo sombra apreenda aquilo que no sujeito se refere ao "reprimido". O "campo de apreensão" dos dois conceitos é o mesmo, embora em Jung este se particularize pelo aspecto imaginário, ao recorrer àquilo que é presente no "id" sob a forma de "arquétipos", que não deve de forma alguma ser tomado como o "sujeito", embora no esquema em questão estejam na mesma posição. Já para Lacan, o sujeito se define essencialmente por ser determinado pelo discurso do Outro, discurso enquanto rede significante, ou seja, aquilo que também está no "id" de Freud, e Lacan o reconhece, e que em Jung está totalmente confundido com o imaginário, mas que no esquema Z está particularmente isolado em A.

Em a (ver nota 18), trata-se do "outro" em sua existência real apreendido na relação imaginária fundadora do "eu" (a'). Se o reprimido, enquanto massa significante, e enquanto somatória de imagos presa no jogo desses significantes se configura como o material do qual o sujeito faz suas aparições no mundo, então deve-se também diferenciar, no esquema acima, a posição desse material, tanto em S, a massa significante, quanto em a', a somatória de imagos. Entre a' e a se estabelece a relação especular, a relação imaginária, que é atravessada pelo inconsciente apreendido pelo sujeito como discurso do Outro, com "O" maiúsculo (A). Inconsciente que, em sua dinâmica, se define pela regência interna desse discurso, isto é, as leis da linguagem.

Na medida em que o inconsciente segundo Lacan é esse movimento de A a S, temos aí a relação direta que se estabelece entre o mundo cultural, o mundo do espírito, da linguagem, do símbolo, e o mundo 'natural', do Id (imaginário), definido enquanto pura virtualidade de formas inatas. Pode-se perceber aí uma certa confusão no uso que temos feito dos termos até aqui, e ela de fato existe. Pode-se perguntar: "mas no id, não se trata da 'usina da linguagem', como o próprio autor disse acima? Porque falar dele aqui como 'imaginário'?" A questão é justa. Devemos especificar, novamente, que o Id se liga, no texto freudiano, ao imaginário e ao simbólico, da mesma forma que o inconsciente coletivo de Jung. Além do mais, destacar-se-a deste id e do ego a instância do superego, que coloca outras questões. Lacan sublinha e evidencia muito mais a 'usina da linguagem', reduzindo o aspecto imaginário do id, se assim podemos falar, ao imperativo: "goze!", representado pelo falo imaginário, o pai primevo. E não é à toa que vemos surgir, nas memórias de Jung, como imagem onírica inaugural de todo seu pensamento, aquele phallus dionisius, do qual nos fala. Portanto, estamos aí diante da seguinte questão: Podemos reduzir o "id imaginário", aquilo que em Jung se refere ao mundo dos arquétipos, o inconsciente coletivo, e etc, à imagem do pai primevo e aquilo que a ela se refere? É isso o que o faz Freud e Lacan. Sem dúvida não estamos querendo aqui responder a tal pergunta. Queremos apenas frisar que há uma oposição fundamental em "Freud e Jung", e que é bem frisada pelas palavras de ambos:

Freud:

"Por que, meu Deus, me permito segui-lo nesse campo? O senhor deve dar-me algumas sugestões. Mas, provavelmente, os meus túneis serão muito mais subterrâneos do que suas escavações, e não tomaremos conhecimento um do outro, mas cada vez que eu subir à superfície poderei saudá-lo."19

Ao que Jung responde, dois dias depois:

"Nossas diferenças pessoais tornarão o nosso trabalho diferente. O senhor extrai as pedras preciosas, mas eu possuo o 'degree of extension' [grau de extensão]. Como o senhor sabe, o meu procedimento é sempre do exterior para o interior e da totalidade para a parte. Consideraria por demais desconcertante deixar grandes áreas do conhecimento humano permanecerem negligenciadas. E por causa da diferença de nossos métodos de trabalho devemos, sem dúvida, encontrarmo-nos de vez em quando, em lugares inesperados."20.

Queremos, na nossa linha de indagações, apenas indicar tais "lugares inesperados" onde o fruto do pensamento de tais autores pode se encontrar. Não cabe ainda avaliarmos as conseqüências de tais formulações, mas somente colher mais material, para então podermos colocarmo-nos questões mais profundas e centrais, e que possam talvez abrir caminhos para a solução de problemas teóricos difíceis, desde que as teorias simplesmente monologuem com elas mesmas

Podemos, nos limites do que propomos em título, dizer que estão aí presentes tudo o que estivemos salientando. É importante observar que Jung às vezes chamava o inconsciente coletivo de "psique objetiva", como várias vezes frisara, de que o inconsciente (coletivo) se manifesta como um "outro". Não que fizesse distinção entre ambos, mas simplesmente por apreender também o seu caráter "externo", que no esquema lacaniano é A.

Conseguimos então com o que foi exposto mostrar que não há grandes diferenças essenciais entre a noção de inconsciente coletivo em (Jung) e aquelas de Id (em Freud) e inconsciente (em Lacan). O campo do inconsciente coletivo corresponde ao campo do S e ao do inconsciente, conforme definido pelo esquema Z. Abordaremos novamente esse assunto, aprofundando mais nossa pesquisa, quando tratarmos da questão do Imaginário, do Simbólico e do Real em relação à teoria dos arquétipos.





1 FREUD, S. O Ego e o Id. ESB Vol. XIX. Pag. 27. Editora Imago. Rio de Janeiro, 1976.

2 Termo que por si só, em se tratando de Freud e Jung, demandaria todo um trabalho de pesquisa e análise que não cabe fazer aqui, mas de capital importância, especialmente considerando as intervenções de Lacan.

3 Notar-se-á que em Lacan o das Es freudiano assume outra conotação que é precisa e justamente aquela da "usina da linguagem", aquilo que nos referimos acima como "massa pre-articulada de material siginificante provido pela história cultural da comunidade". O Id, assim entendido, é o conjunto articulado de significantes anterior à chegada de qualquer cérebro a este mundo, e que existe externamente, na materialidade da linguagem. Pode-se dizer a este respeito que Freud trouxe a tona aí, para explicar a "herança arcaica", para definir o das Es, tanto o aspecto "cérebro", isto é, aquilo que é da ordem imaginária, quanto o aspecto "usina da linguagem", diferenciação que não se encontra em Jung; e Lacan, nitidamente, faz prevalecer o segundo aspecto sobre o primeiro. Veremos isso em detalhes, num outro momento.

4 Ibidem. Pag. 53. Grifo do autor.

5 Termo que também merece aqui uma breve análise. O superego, chamado "herdeiro do complexo de édipo", tem também estreitas vinculações com o inconsciente coletivo, de Jung. Pode-se até mesmo dizer que este termo de Jung abarca em Freud tanto aquilo que é da ordem do id quanto o superego. Não só pelo seu aspecto imaginário, naquilo em que se origina do id (entendido como o faz Melaine Klein), isto é, naquilo que pode ser colocado no registro biológico, exclusivamente, ou pelo ideal imaginário do eu, representado no conceito junguiano de "self", como também, aquilo que tanto Freud quanto Lacan acentuam, a introdução da lei via castração, a marca do significante paterno, que submete o sujeito de uma vez por todas à ordem da cultura, isto é, à dinâmica da "usina da linguagem". Vê-se assim que o superego é também o agente do laço que vincula o imaginário/cérebro à ordem significante, ou seja, que abre vias culturalmente definidas para a fruição e modulação do imaginário. Na ausência de tal vínculo, temos o predomínio de uma ordem imaginária desarticulada, representada na imagem do corpo despedaçado, isto é, a psicose. Mais à frente, reencontraremos o superego no esquema L de Lacan, na posição do Outro (A).

6 Em todas essas comparações, deve-se ter o cuidado de se manter diferenciado o que é da ordem imaginária e o que é da ordem simbólica, no sentido lacaniano, pois tal diferenciação se mostrará de grande utilidade em nossa análise. Para fins de ilustração, digamos que o que é da ordem imaginária, acima, está exemplificado naquilo que se refere ao que é natural, isto é, o comportamento animal, suas formas de captura num esquema de ação-reação, às vezes bastante complexo, em que se manifesta uma certa relação de "complemento" entre o que se passa no organismo do animal e o que se passa no ambiente. No nível humano, tal relação imaginária é desde o princípio manca, e o que a equilibra é a intervenção da ordem simbólica que, em sua função ordenadora, pelo efeito canalizador e formalizador da rede significante, da linguagem em seu aspecto material, permite a constituição da subjetividade e em sua relação com o imaginário compõem a intricada rede de construção de sonhos e mitos, que vivemos diariamente. Tais categorias são indispensáveis, mas antes de podermos usá-las, devemos dedicar um trabalho específico ao conceito de arquétipo.

7 FREUD, S. (1921) Psicologia de Grupo e a Análise do Ego. ESB. Vol. XVIII. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1976. Pag. 98.

8 FREUD, S. Moisés e o Monoteísmo. ESB. Vol. XXIII. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1976.

9 Ibidem. Pag. 119. 1o grifo do autor.

10 Ibidem.

11 Ibidem. Pag. 156.

12 JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. O. C. Vol. VI. Par. 851. Editora Vozes. Petrópolis, 1991.

13 Importantes contribuições a esse assunto (e a tudo que estamos discutindo) nos tem sido dadas recentemente pelo desenvolvimento das neurociências e da ciência cognitiva. Por exemplo, a questão da idéia de Deus é analisada pelo neurocientista Eugene d'Aquilli, em texto que traduzimos recentemente (Bases neuropsicológicas da religião, ou porque Deus não se vai?). Lá, ele defende que a ação do que chamou "operadores causais", que consiste em, tomando "recortes da realidade externa", articula-los em sequenciação de lógica causal, está na base da idéia de Deus, da seguinte forma: considerando-se que na ausência da evidência empírica o cérebro, isto é, tais operadores, rearranjam o material percepto/mnêmico de forma a conceber uma causa, o que os situam, esses operadores, no registro de uma necessidade. Logo, se o "recorte da realidade" em questão é a totalidade do Universo, nada melhor que "Deus", ou "O Primeiro Motor", para causá-la. Esse tema será comentado numa outra oportunidade.

14 JUNG, C. G. Símbolos da Transformação. O. C. Vol. V. Par. 224. Editora Vozes. Petrópolis, 1991.

15 Ibidem. Par. 258.

16 JUNG, C. G. O Significado da Constituição e da Herança para a Psicologia. Em A Dinâmica do Inconsciente. O. C. Vol. VIII. Par. 230. Editora Vozes. Petrópolis, 1991.

17 O termo "instinto" é em si problemático. Na literatura psicanalítica costuma-se distinguir o Trieb do Instinkt, sendo o primeiro a representação psíquica do segundo, aquilo que dele é desviado. O trieb já pressupõe a apreensão do instinkt na ordem simbólica. Daí o Es ser tomado por Lacan no sentido da ordem simbólica. Por desconhecermos qual o termo usado por Jung que está por trás do que os tradutores para o português traduziram como "instinto", temos mantido o termo no texto, às vezes, indiscriminadamente.

18 O autor pede licença para um pequeno reparo. No esquema que reproduzimos, as posição de a e a' estão invertidas em relação ao original de Lacan. Portanto, onde está escrito a', leia-se a, e vice-versa. Nada que interfira no sentido do que estamos colocando.

19 McGUIRE, W (org.). A Correspondência Completa de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. 280F Pag. 466. Série Analytica. Direção Jayme Salomão. Imago Editora, Rio de Janeiro 1993. 2a edição.

20 Ibidem. 282J Pags. 467-468.


Rodrigo Zanatta é psicólogo
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