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Confissão Religiosa e Experiência Imediata:
Uma reflexão sobre o fenômeno da confissão religiosa
segundo a perspectiva de C.G. Jung

 

Lorena Kim Richter

 

Introdução

 Jung sempre se preocupou com o crescente afastamento do homem do universo simbólico da religião. Estes símbolos, embutidos de paradoxos e contradições, dariam forma ao sofrimento humano, canalizariam a energia psíquica em um nível individual e coletivo, viabilizariam o contato com a realidade psíquica. Em suma: possibilitariam uma existência com mais sentido. Em função de uma supervalorização da razão perderíamos o acesso a uma vida mais simbólica: 

...necessitamos urgentemente da vida simbólica. Somente a vida simbólica pode expressar as necessidades da alma – as necessidades diárias da alma... e já que as pessoas não possuem nada neste sentido, não conseguem jamais deixar... essa vida terrível, maçante, banal onde elas nada significam. No ritual elas estão mais próximas da divindade... [1]

Jung [1939] 1995e: par. 627

Seria este o ponto de partida do autor, quando ele procura analisar mais profundamente o fenômeno da confissão religiosa.[2] A princípio Jung diferencia claramente entre religião e confissão de fé. A confissão seria um fenômeno mais geral ligado à concepção de “uma sociedade organizada que professa coletivamente uma crença específica ou um determinado modo de agir ético”(Jung [1956-1961]2003: 193). A religião, por sua vez, é considerada pelo autor uma função “natural” inerente à psique. Desta forma, a psique seria “naturaliter religiosa” (Jung [1944]1994: par. 14) o que leva Jung a conceber um homo religiosus, isto é, um ser humano que assume uma atitude específica, uma atitude religiosa, que pode ser definida de acordo com o emprego originário do termo religio: uma observação e consideração cuidadosa de certos fatores dinâmicos, percebidos como “potências”, que incluem espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais etc. Em síntese, trata-se de fatores que o ser humano vivencia como suficientemente poderosos, perigosos, belos ou portadores de sentido para considerá-los, e que agem sobre ele e seu estado geral.  A atitude religiosa seria uma acurada observação do que Otto[3] denominou de numinoso e que Jung ([1940] 1999: par. 6) traduz como “existência ou efeito dinâmicos não causados por um ato arbitrário”. Baseando-se em Otto, o autor afirma que o numinoso independe da vontade do homem, que, sendo possuído por ele, é mais vítima do que criador do mesmo.

Considerando esta diferenciação, Jung nos apresenta a seguinte questão : A confissão constitui a princípio uma possibilidade de vivência religiosa , assume ,no entanto, por vezes formas que se opõem radicalmente a uma experiência mais profunda. No presente artigo analisarei estes dois pontos .

 

 2 Confissão religiosa- sistema simbólico que confere sentido

 Jung ([1940] 1992) atribui à confissão religiosa um papel importante na sociedade humana: baseando-se originalmente na experiência do numinoso, ela viabilizaria o acesso ao sagrado, simultaneamente porém, exerceria uma função protetora entre o fiel e aquilo que ele experimenta como sagrado. O fiel pode não estar inteiramente preparado para o que o autor define como experiência imediata ou primordial[4]. Segundo Pieri (2002), Jung se refere com  este termo a uma vivência articulada com uma imagem arquetípica anterior a qualquer elaboração consciente ou interpretação. Podemos, desta forma, compreender a experiência primordial como experiência imediata, uma experiência ainda não traduzida pela consciência. Segundo Jung, os aspectos principais do arquétipo seriam sua numinosidade, inconsciência e autonomia. O contato com as imagens de origem arquetípica transportaria “o sujeito para o estado do arrebatamento, numa entrega em que a vontade está inteiramente ausente”[5] (Jung [1947] 1995b: par. 383). Desta forma uma confissão religiosa pode desempenhar uma função mediadora entre o sujeito e a sua vivência, substituindo esta por um grupo adequado de símbolos envoltos em dogmas e rituais fortemente organizados.

A experiência imediata promove a aproximação entre a consciência e as manifestações arquetípicas, procedentes do inconsciente. Existiria, segundo Jung, uma espécie de “deisidamonia” (temor divino) em relação a conteúdos que não procedem da consciência. A consciência tenderia a reprimir fatores psíquicos irracionais, demonstrando medo e aversão em relação a tudo que provém do inconsciente. Tratar-se-ia de um “temor secreto dos perils of the soul [perigos da alma]”(Jung [1940] 1999: par. 23). O homem teria de fato motivos suficientes para temer estas forças impessoais, inconscientes. Enquanto elas não se manifestassem, ele se encontraria em uma “feliz inconsciência” (id. ibid.). Quando, porém, “os dinamismos profundos do homem coletivo” (id. ibid.) fossem desencadeados surgiriam “as feras e demônios que dormitam no fundo de cada indivíduo”(id. ibid.). Segundo o autor, podemos observar: 

...desde os primórdios da humanidade ...uma forte tendência de limitar a irrefreável e arbitrária influência ‘sobrenatural’, mediante determinadas formas e leis[6]

Jung, [1940] 1992: par. 32 

Este processo continuaria ao longo da história através de uma multiplicação de ritos,[7] instituições e convicções.

O rito seria “desde tempos imemoriais um caminho seguro de lidar com as forças imprevisíveis do inconsciente”[8] (Jung,, op. cit.: 82). Samuels (1986: 191) indica que segundo a psicologia analítica o rito funciona como um “continente psíquico”. Quando o indivíduo passa por determinadas transformações, mudanças de status ou modos de ser, conteúdos inconscientes são ativados. Instala-se um estado de desequilíbrio psíquico e o sujeito se sente impelido a recorrer a um ritual oferecido no plano coletivo, como por exemplo a confissão religiosa à qual eventualmente pertence. Samuels (id. ibid.) indica que Jung atribui grande importância ao ritual, pois o homem experimentaria, a partir deste, as suas condições psicológicas mais fundamentais. Caso não exista um ritual apropriado, ele é levado a criar espontaneamente rituais que servem como “recipiente” para sua experiência. Desta maneira, ele se protege contra uma eventual desintegração de sua personalidade que periga ocorrer em função da transição de uma condição psicológica para outra.

Baseando-se em temas arquetípicos e mitológicos, o rito se expressa de forma simbólica. Conferindo sentido à vivência, à transição experimentada pelo grupo ou indivíduo em um determinado momento, ele precisaria contar com “representações adequadas ao espírito dos tempos” (id. ibid.) Quando o rito deixa de corresponder ao “espírito dos tempos”, buscam-se novas representações arquetípicas, novas interpretações para formas antigas. Segundo Mircea Eliade (1996a: 30), estudioso de religião comparada e referência para Jung nesse campo de investigação: 

... os mitos e os ritos revelam sempre uma situação-limite do homem... Por situação-limite entendemos aquela que o homem descobre tomando consciência do seu lugar no Universo. 

O mito por sua vez constituiria segundo Samuels (op. cit.: 128) uma “metáfora para atividades do arquétipo per se”. Eliade afirma que (1996b: 85) o mito está intimamente conectado à idéia de criação. O seu relato inaugura uma nova situação cósmica, se refere à origem das coisas, indica como uma realidade veio à existência. Desse modo podemos conceber o homem moderno, assim como os seus ancestrais, como um “fazedor de mitos” (Samuels, op. cit.: 128), pois ele revive situações antiquíssimas, ligadas a temas arquetípicos. Os mitos se referem à condição humana: “Nos heróis, nos deuses celestes ou ctônios, nas potências da natureza, existe, digamos, um vínculo estreito com modos de ser do homem ‘comum’” (Veríssimo 1997: 16).

Jung exemplifica a conexão entre mito e existência humana a partir da vida de Cristo. Esta pode ser concebida segundo um ponto de vista histórico e arquetípico: Cristo viveu uma vida única, que pode ser conectada simultaneamente com temas mitológicos amplamente difundidos: 

Nos próprios evangelhos, os relatos de fatos reais, a lenda e o mito se entrelaçam em um todo que constitui, precisamente, o sentido dos Evangelhos. Perde-se este caráter de totalidade tão logo se procure separar, com o escalpelo, o individual do arquetípico.

Jung [1940] 1999: 146 

Jung afirma que muitas figuras históricas realizaram, de certo modo, o arquétipo da vida heróica. Neste sentido, pelo fato de o arquétipo constituir o pressuposto inconsciente de toda vida humana, a vida de Cristo não pode ser isolada da vida do homem comum: “...tudo o que acontece na vida de Cristo ocorre também sempre e em toda parte” (id. ibid.).

Jung ([1952] 1992: par. 450) sugere que o material mitológico nos fornece dados acerca do funcionamento psíquico. Concebendo o arquétipo como uma disposição para reproduzir representações típicas que correspondem a experiências pertencentes ao processo de conscientização do ser humano, podemos dizer que o mito ilustra um momento potencial de síntese particular entre consciente e inconsciente. Para Jung ([1942] 1992: par. 287) tanto o mito quanto o rito possuem significado terapêutico. Processos psíquicos de grande relevância se expressariam a partir de mitologemas ou costumes rituais, como, por exemplo, as cerimônias que acompanham os eventos do nascimento e da morte, as iniciações da puberdade e da vida masculina etc. O mito e o rito possibilitariam o acesso ao que o inconsciente oferece simbolicamente, quando a consciência se vê diante da impossibilidade de atribuir sozinha um sentido a um momento específico da existência.

Da mesma forma, o autor afirma que a confissão religiosa constitui de certo modo um “sistema de cura religioso”, ([1942] 1992: par. 462). Jung ([1940] 1992: par. 76) relata que, como psicoterapeuta, ele se viu diante de indivíduos que passaram por experiências imediatas mas não queriam ou podiam se submeter à decisão da autoridade eclesiástica, experimentando violentas crises e conflitos. O autor afirma estar convencido da importância do dogma e do ritual pelo menos como “métodos de higiene espiritual” [Methoden geistiger Hygiene] (id. ibid.). Quando um paciente pertence a uma confissão específica que lhe confere sentido à vida, Jung considera imprescindível apoiar tal decisão, caso contrário o paciente estaria completamente desprotegido frente à experiência imediata. Enquanto um meio de defesa se mostra eficaz, Jung não pretende derrubá-lo e chega mesmo a declarar durante um seminário em 1939: 

O meu ponto de vista ... é que enquanto um paciente realmente é membro de uma igreja, ele precisa levar isto a sério. Neste caso deve realmente e sinceramente pertencer a esta igreja, e não procurar um médico para que este resolva os seus conflitos, já que considera que deve fazer isto com Deus[9]

Jung, [1939] 1995e: par. 620 

Uma pessoa que pertence por exemplo à igreja católica deve buscar a cura a partir dos meios que esta oferece. Como terapeuta, Jung não pretende impor o seu ponto de vista, nem julgar se uma forma de defesa constitui ou não uma verdade última. Desta forma, não vai tentar conduzir o paciente a um sistema religioso, apenas pelo fato de ser concebido como vivo pela coletividade, mas se propõe a investigar cuidadosamente qual sistema confere ao paciente o sentimento de vivacidade e totalidade. Caso contrário, o terapeuta excluiria “a plenitude da vida” [die Fülle des Lebens] ([1932] 1992: par. 530), aquilo que o paciente sente como real. “Real porém é aquilo que produz efeito[10] (id. ibid., grifos do autor). Neste sentido Jung conclui: 

Se a vivência da Santa Comunhão for real, enquanto o ritual e o dogma exprimem a situação psicológica do indivíduo de maneira plena, há possibilidade de cura. No entanto, quando o dogma e o ritual não exprimem a situação psicológica do indivíduo em questão de forma adequada, ele não pode ser curado.[11]

[1939] 1995e: par. 622 

            Tanto o dogma quanto o rito não devem ser reduzidos a um mero mecanismo de defesa do qual se faz uso diante do “assalto” da experiência imediata. Caso contrário seria possível substituí-los por qualquer outra forma de proteção. Explicações científicas poderiam assumir a função do dogma graças à “inabalável fé do homem moderno em tudo o que traz o rótulo de ‘científico’”(Jung [1940] 1999: par 81). A teoria científica, porém, seria construída somente a partir da consciência, enquanto o dogma  representaria a psique de maneira mais completa, retratando mais adequadamente a dinâmica do processo inconsciente. Uma explicação científica seria abstrata e predominantemente racional, enquanto o dogma expressa mediante a sua imagem uma totalidade irracional. Segundo Jung, o dogma deve a sua existência, por um lado, a: 

Experiências reveladas e imediatas da ‘gnose’[12], como por exemplo o Homem-Deus, a cruz, a concepção virginal, a Imaculada Concepção, a Trindade etc.; por outro à colaboração ininterrupta de muitos espíritos e muitos séculos.

id. ibid. 

Por um lado, as imagens citadas fascinam, convencem e subjugam o indivíduo, pois tratando-se de imagens arquetípicas elas representam as experiências primordiais em relação ao divino. Por outro, elas foram depositadas em um sistema abrangente e ordenador e freqüentemente são representadas por uma instituição dominante e poderosa.

O rito, a ação sagrada ilustra, por sua vez, a atividade do arquétipo, e, nesse sentido, estaria em íntimo contato com o inconsciente. A celebração da missa católica, por exemplo, exerceria uma forte impressão, mesmo na ausência de uma compreensão mais profunda deste ritual. Jung ([1939] 1995e: par. 615) nota que o núcleo da missa contém um mistério vivo, que exerce um determinado efeito naqueles que a assistem.[13] Segundo o autor o ritual da missa sagrada está arraigado em uma época pré-cristã. Partes importantes deste ritual, como a hóstia, por exemplo, pertenceriam ao culto mitraico. Este fato apontaria para uma contínua transmissão de determinadas práticas religiosas, que sempre expressaram condições psíquicas fundamentais. Nesse sentido, Jung afirma que um ritual não deve ser modificado, ele deve ser exercido conforme a tradição prescreve. Segundo Eliade (1996b: 90), o ritual possibilitaria o acesso aos acontecimentos primordiais que fundaram a condição humana atual. Esta “recordação reatualizada” (id. ibid.) desempenharia um papel fundamental: “o homem deve evitar cuidadosamente esquecer o que se passou in illo tempore” (id. ibid.). Jung ([1939] 1995e: par. 617) ressalta que não deveríamos racionalizar o dogma. O complexo dogma da concepção virginal, por exemplo, perderia a sua veracidade caso passasse por um processo de racionalização. A razão não compreenderia o segredo, o mistério que esta máxima religiosa envolve: 

Psiquicamente, não nos encontramos suficientemente desenvolvidos para compreendermos a ...extraordinária verdade do ritual e do dogma. Por isso determinados dogmas não deveriam jamais ser criticados. [14]

id. ibid

O ponto de vista de Jung em relação a esta problemática porém não é tão inequívoco o quanto parece. Na nota preliminar ao ensaio Interpretação psicológica do dogma da Trindade ([1942] 1992) o autor assume uma postura diferente. Ele afirma que: 

(A) fé é um carisma que não é concedido a todos. Em compensação, o homem é dono de uma capacidade de pensar que pode se exercer sobre as coisas mais excelsas.[15]

op. cit.: par. 170 

Determinados pais da igreja por exemplo não temiam refletir sobre a simbologia cristã como certos autores modernos. Jung afirma que onde há apenas fé e ausência de reflexão, a dúvida se instala. Neste sentido, o crente não deve projetar a sua dúvida naqueles que refletem sobre o conteúdo de determinadas doutrinas, acusando-os de estarem ferindo as mesmas: “O caráter vivo do dogma nos prova que ele pode ser aceito pela fé e simultaneamente constituir um objeto de reflexão” [16] (id. ibid.).

            Estes dois pontos de vista, que, a princípio, parecem opostos – dando a impressão de que o autor se contradiz quando analisa a eficácia do dogma –, se referem, na verdade, a problemas diferentes. Ao escrever o prefácio ao texto que se dedica ao estudo da Santíssima Trindade, ele não pretende avaliar o valor religioso deste dogma. Preocupado com o fato de determinados símbolos cristãs se afastarem cada vez mais do âmbito da compreensão reflexiva, ocultando-se em uma esfera marcada pela inacessibilidade e incompreensão, Jung pretende, a partir de uma análise psicológica, sublinhar a vitalidade e necessidade destes. No outro caso, porém, Jung parece temer que esta reflexão seja exercida no sentido de uma racionalização. Desta maneira o caráter vivo do símbolo se perderia: 

A vida é racional demais, não há existência simbólica, na qual sou algo diferente, na qual eu represento um papel, o meu papel como um dos atores do drama divino da vida. [17]

Jung [1939] 1995e: par. 628 

Jung ([1956/ 1961] 1990: 228) afirma que em função de uma exacerbação do racionalismo científico podemos observar uma crescente tendência “antimitológica”. O mito, porém, seria imprescindível para qualquer experiência religiosa, pois “religio exige sempre um erga” (id. ibid.). Segundo o Dicionário Escolar Latino Português organizado por Faria (1956), erga pode ser traduzido por “na direção de, defronte, com respeito a, relativamente a”, o que eqüivale a dizer que o sentimento religioso não existe por si só, mas se refere a um enunciado mitológico, transcendente, seja ele um deus, um salvador, um princípio ético etc.. Jung (op. cit.: 230) aponta, ainda, para o fato de que a desmitologização acarreta a impossibilidade de “comunicação religiosa” [religiöse Mitteilung]. Na medida em que, o mito, como fenômeno social, é narrado e ouvido por muitos, ele fornece uma imagem, uma forma de expressão, à vivência religiosa e isto possibilita a comunhão. Uma experiência que ocorre somente no plano subjetivo, sem a presença de uma imagem mítica tradicional, permanece socialmente inarticulada.

É preciso, no entanto, atentar para o fato de que Jung não nega a importância da solidão no que concerne à experiência religiosa. A solidão seria uma fase imprescindível quando se busca a experiência primordial: “Somente ela constitui o verdadeiro e inabalável fundamento da... vida interior de fé”[18] (id. ibid.). Em seguida, porém, esta vivência precisa ser compartilhada, comunicada. A linguagem necessária para tal deve, portanto, ser compreendida por todos. Para tal, o sujeito lança  mão do mito já existente de longa data, como, por exemplo, o mito cristão. Podemos suspeitar que essa postura significa um retorno ao antigo, como se colocássemos “vinho novo em odres velhos” (Jung [1956/ 1961] 2003: 195). Uma experiência individual viva, contudo, nunca estagna, trazendo sempre novos aspectos. O mito permanece o mesmo em sua essência – característica esta imprescindível para todas as formas de religião –, mas recebe uma nova interpretação.[19]

 

3 Confissão religiosa- perda da experiência imediata?

 Em seguida analisarei mais detalhadamente a razão pela qual o autor assume, em determinados momentos de sua obra, uma postura crítica diante das confissões religiosas.

Segundo Jung as religiões assimilam os processos inconscientes da psique e os expressam através de imagens magníficas, acessíveis aos seus fiéis. O autor ressalta, porém, que quanto mais magnífica e abrangente a imagem transmitida pela tradição, maior a distância entre ela e a experiência individual: “Só nos resta intuí-la e senti-la, mas a experiência originária se perdeu” ([1935] 2000: par. 10). O dogma seria o fruto do labor de muitos espíritos, ao longo de vários séculos. Encontrara-se “purificado de tudo o que há de extravagante, insuficiente e perturbador na experiência individual” (Jung [1940] 1999: par.88). A experiência individual, porém, representaria, justamente por sua “pobreza [Armut]” (Jung [1940] 1992: par. 88), “vida imediata, o sangue quente e rubro, que pulsa hoje”[20] (id. ibid.) e, nesse sentido, seria mais persuasiva do que qualquer tradição.

Segundo Jung o homem sempre se esforçou em representar e assimilar a experiência do sagrado a partir dos mais diversos dogmas e interpretações. Interpreta-se, especula-se, dogmatiza-se a experiência primordial a ponto de esta desaparecer diante de tantas palavras e imagens. Quando a confissão perde o acesso à experiência imediata, ela periga tornar-se uma petrificação sem vida. Afastando-se gradualmente da experiência original, os sistemas religiosos perderiam a sua força, as suas imagens esmaeceriam, restando somente a sua exterioridade banal, paradoxal e quase isenta de sentido. No caso do cristianismo, Jung afirma que: 

O mistério do nascimento virginal ou a homoousia do Filho com o Pai, ou a Trindade, que não é uma tríade, não propiciam mais o vôo da fantasia filosófica. Tornam-se meros objetos de fé.

[1935] 2000: par. 11 

A própria experiência imediata a princípio se chocaria com a visão dogmática e com a ordem da igreja. Jung ilustra tal fato analisando a vivência religiosa do místico e eremita suíço Nicolau de Flüe e o processo de assimilação a qual esta foi submetida. Nicolau de Flüe teve uma visão de luz, na forma de um semblante humano, que o aterrorizou profundamente.

Todos os que se aproximavam dele ficavam assustados. Sobre a causa deste terror, ele mesmo costumava dizer que havia visto uma luz penetrante, representando um semblante humano. Ao visualizá-lo temera que seu coração explodisse em estilhaços. Por isso, tomado de pavor, desviara o rosto, caindo por terra. Eis a razão pela qual seu rosto inspirava terror aos outros.

Woelflin apud Jung [1935] 2000: 13 

 A única interpretação condizente com o espírito da época era que se tratava do próprio semblante de Deus. O aspecto assustador da visão se opõe, no entanto, à concepção cristã que descreve Deus como representante do supremo bem e da perfeição. Nesse sentido, o processo de assimilação e conscientização, ao qual Nicolau de Flüe se submeteu, foi especialmente laborioso. Segundo Jung, a visão deste eremita constitui uma verdadeira experiência primordial e, neste sentido, representa uma tarefa peculiar para uma “elaboração dogmática [dogmatische Überarbeitung]”(Jung [1933] 1992: par. 483). O caráter genuíno e simultaneamente herético da visão foi gradativamente eliminado, e o seu aspecto impressionante, carregado de afeto, desapareceu por completo.

Outro problema abordado por Jung é o fato de a confissão religiosa freqüentemente constituir uma forma de fugir do encontro com o inconsciente. A confissão se converteria em um substituto do “outro lado da vida da alma” (Jung, [1940] 1999: par. 46), daquilo que se apresenta de maneira mais obscura, que se afasta da consciência. Segundo Jung a auto-aceitação representa uma tarefa árdua: 

Servir ao miserável, perdoar aquele que me ofende, amar o inimigo em nome de Deus constituem sem dúvida uma excelsa virtude... Quando porém descubro que o mais inferior de todos, o mais pobre entre os miseráveis... o próprio inimigo habita dentro de mim... então toda verdade cristã se inverte, não existe mais amor nem paciência, falamos ao irmão dentro de nós ‘racha’, julgamos, nos tornamos furiosos com nós mesmos.[21]

Jung [1932] 1992: 520, grifos do autor 

Jung cria o conceito de sombra para descrever os aspectos inaceitáveis e por isso rejeitados da psique humana: “Todo mundo é seguido por uma sombra, e quanto menos ela se encontra incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é”[22] (Jung [1940] 1992: par. 131). A sombra pode ser concebida tanto a partir de seu aspecto pessoal como a partir do seu aspecto arquetípico. Num primeiro sentido, a sombra constitui o lado não aceito da personalidade[23], representando as tendências, as atitudes, os desejos não aceitos pelo eu, e, neste sentido, “a sua natureza” [seine Natur] (Jung [1951] 1995c: par. 13) pode ser deduzida dos conteúdos do inconsciente pessoal. Tratar-se-ia mais especificamente do que Jung denomina como “sombra do eu”, de formas de existência ou valores que o sujeito não reconhece como próprios. O eu rejeita determinados elementos no sentido de se defender contra uma possível desintegração psíquica, no entanto a sombra representa uma parte viva da personalidade que “quer viver com esta” (Samuels, op. cit.: 205). Geralmente compreende-se por sombra a parte negativa da personalidade, mas esta interpretação não abrange a complexidade do conceito: 

Se as tendências reprimidas da sombra fossem apenas nocivas, não haveria qualquer problema. A sombra, porém, constitui por via de regra simplesmente algo inferior, primitivo, inadequado... não sendo de uma malignidade absoluta. Ela contém igualmente características infantis ou primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana...[24]

Jung [1940] 1992: 134 

Reconhecer os aspectos obscuros da personalidade constituiria, segundo Jung ([1951]1995c:par.14), o fundamento de qualquer forma de autoconhecimento. A sombra representa “um problema moral, que desafia a totalidade da personalidade do eu, pois ninguém realiza a sombra sem um considerável esforço moral” [25] (id. ibid.).

Em um nível mais profundo, a sombra constitui um arquétipo. Segundo Pieri (op. cit.: 476), este arquétipo se torna ativo em função da necessidade de uma relação dialógica entre a consciência e a parte psíquica que, apesar de inaceitável para a consciência de um indivíduo específico, inegavelmente participa da estrutura psíquica de qualquer ser humano. Jung (op. cit.: 19) afirma que enquanto nos confrontamos apenas com o aspecto pessoal da sombra não nos deparamos com maiores dificuldades. Seria possível reconhecer o mal em seu aspecto relativo, porém enfrentar o “mal absoluto” nos conduziria ao mais profundo abalo. Devido a sua natureza arquetípica os conteúdos da sombra são  “autônomos”, marcados pelo afeto, se apossam do eu, reduzindo consideravelmente a liberdade deste: “A emoção não é uma atividade, e sim um acontecimento que acomete o sujeito. De modo geral, os afetos se manifestam onde há menos adaptação...” [26] ( Jung,, op. cit.: par. 15).

O arquétipo da sombra se manifesta através de suas imagens arquetípicas. A sombra aparece mediante os mais diversos contextos: o sonho, o mito, um sistema metafísico – temas e problemas que se referem à condição humana em geral. Tratar-se-ia de “diferentes situações-limite da existência que, por mais dolorosas que sejam... permanecem intransponíveis... ou não ultrapassáveis...” (Pieri, op. cit.: 476). O sujeito, por sua vez, se esquiva de um contato mais íntimo com estas imagens, sustentando uma visão unilateral de si próprio e das coisas. Quando, porém, prevalece uma postura mais receptiva diante destes “objetos psíquicos” (id. ibid.), eles se revelam a partir de seu aspecto duplo, o que possibilita uma ampliação da consciência.

Em um primeiro momento, o encontro entre consciência e sombra ocorre a partir de um mecanismo que Jung denomina de projeção. A projeção é de caráter irracional e pode ser tanto positiva como negativa. Figuras religiosas freqüentemente se tornam alvo de fortíssimas projeções. O Cristianismo, por exemplo, seria por vezes compreendido e vivenciado de maneira bastante superficial. Exige-se a imitatio Christi [imitação de Cristo] (Jung [1944] 1995d: par. 7), o que significa seguir o modelo de Cristo, tornar-se semelhante a este. No entanto, esse modelo se torna um objeto externo de culto, o que significa que um conteúdo inconsciente, que não foi integrado pela consciência, é simplesmente substituído por uma figura externa. Um processo subjetivo é deslocado, desta forma, para o objeto. Segundo Jung ([1921] 1995a: par. 793) a projeção consiste em um processo de dissimulação, através do qual um conteúdo subjetivo, concebido como alheio, é incorporado ao objeto. Dessa maneira, o sujeito se livra tanto de conteúdos desagradáveis e incompatíveis, como também de valores positivos, aos quais ele não tem acesso em função de uma baixa auto-estima. Samuels (op. cit.: 164) afirma que aspectos percebidos como bons às vezes são projetados com a finalidade de serem protegidos contra o resto da personalidade, fantasiada como destrutiva e devastadora.

Jung destingue entre projeção passiva e ativa. A primeira constituiria o mecanismo comum de projeções tanto patológicas como normais. Trata-se de um processo automático e não intencional. A segunda se refere ao ato da empatia. O sujeito destaca de si um conteúdo, um sentimento e o transfere para um objeto, para que este adquira vida e possa ser incluído na esfera subjetiva. O próprio Jung admite, porém, que neste caso tratar-se-ia predominantemente de um processo de introjeção. Resumidamente, a introjeção se comporta de maneira oposta à projeção. A partir do processo da introjeção o objeto é incluído no âmbito subjetivo. O autor considera a introjeção um “processo de assimilação [Assimilationsprozess]” (op. cit.: par. 752). No caso da empatia, por exemplo, a situação do outro é incorporada pelo indivíduo. Na projeção, por sua vez, ocorre uma separação entre sujeito e objeto, o que resulta em um isolamento do primeiro. Vale ressaltar que a introjeção não se refere somente à empatia. A empatia constitui um processo de adaptação e refere-se a uma introjeção ativa. Já a introjeção passiva é associada por Jung (id. ibid.) aos processos de transferência no tratamento das neuroses, principalmente quando o objeto exerce uma forte atração sobre o sujeito.

Quando Jung analisa a “imitação de Cristo”, atividade esta que muitas vezes se configura como meta, ele critica principalmente o fato de a confissão religiosa, neste caso, não conceder espaço suficiente ao mundo psíquico do fiel. Negligenciar-se-ia o “homem interior” (Jung [1944] 1994:par. 7). O autor enfatiza, porém, que não pretende responsabilizar a religião por algo que se deve primeiramente “à incompetência humana” (id. ibid.). Neste sentido ele não se refere a “uma compreensão melhor e mais profunda do cristianismo, mas a uma superficialidade e um equívoco evidentes para todos nós” (id. ibid.). A exigência de seguir o modelo de Cristo deveria proporcionar um desenvolvimento psíquico no sentido de uma transformação na totalidade que esta figura sagrada possa representar. Caso contrário, “o mediador divino permanece... do lado de fora, o homem porém continua fragmento, intocado em sua natureza mais profunda” ([1944] 1995g: par. 7)..[27] Seguir Cristo de modo mais autêntico significaria realizar este modelo a partir dos meios de cada um na esfera individual.

O autor aponta para uma atitude claramente ocidental quando reflete sobre a imitação de Cristo. O homem do ocidente, preso à consciência e ao seu eu, se encantaria principalmente com o mundo externo. Conectado somente com o objeto externo, ele relega a figura divina a um aspecto puramente objetal, o que impossibilita um contato mais profundo com o mundo inconsciente. Esta postura eximiria o indivíduo de uma responsabilidade em relação ao seu próprio desenvolvimento. Concebe-se Cristo como aquele que redime a humanidade dos pecados do mundo. Quando o deus se constela  como um modelo exterior, o mesmo ocorre com os “pecados” do indivíduo. O fiel comete o equívoco de jogá-los literalmente sobre Cristo, isto é, a sombra permanece projetada ao invés de ser integrada. Nesse sentido a projeção religiosa teria como conseqüência um “esvaziamento da alma”, “faltar-lhe-á o mais baixo e o mais alto” (Jung [1944] 1994: par. 9).

  

4 Considerações finais

 Concluindo o presente artigo, gostaria de assinalar a seguinte questão : Não devemos interpretar as reflexões e considerações de Jung em torno das diversas confissões religiosas, como uma interferência no âmbito teológico. O autor não pretende discutir a validade dos pressupostos metafísicos. Lançando constantemente um olhar clínico sobre a problemática religiosa, ele não se interessa em estabelecer verdades únicas, e sim, em perseguir aquilo que provoca um efeito psíquico. Uma religião viva conferiria sentido à existência, possibilitaria uma vida mais simbólica: “Parece-me que, paralelamente à decadência da vida religiosa, as neuroses aumentaram consideravelmente”[28] (Jung [1932]1992: par. 514).

Concebendo o dogma como um símbolo de base arquetípica, Jung busca compreender a importância psicológica deste. Segundo o autor existiria uma viva relação de troca entre o dogma e a psique. Quando ele sugere uma leitura psicológica de fenômenos religiosos, ele se propõem a “...reencontrar a ponte que liga a concepção do dogma com a experiência imediata dos arquétipos psicológicos”[29] ([1940] 1992: 148) a partir “do estudo dos símbolos... do inconsciente”[30] (id. ibid.).

Desta forma seria igualmente inadequado afirmar que Jung relaciona Deus com uma imagem específica. A imagem de Deus não é única. Ela muda de acordo com o contexto cultural dos diversos povos ou conforme as fases da vida do indivíduo. Poderíamos sim, falar de uma pluralidade das imagens de Deus ou como afirma Unterste (1977:19) “ A verdade, o sentido de nossa vida, que denominamos Deus , é o inesgotável.” Na medida que descrevemos Deus segundo critérios rígidos e unilaterais, inviabilizamos qualquer possibilidade de reflexão mais profunda e a fé se transforma em mera repetição de fórmulas prontas.

 

5. Referências Bibliográficas

  

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 _____. Das symbolische Leben [ A vida simbólica ]. Düsseldorf : Walter-Verlag, 1995e,  vol. XVIII/1.

 _____. Briefe [1956-1961]. Olten: Walter-Verlag,1990, vol. III.

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 OTTO, Rudolf. Das Heilige [O Sagrado] [s/d]. München: Beck, 1997.

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 SAMUELS, Andrew; SHORTER, Bani; PLAUT, Fred. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. RJ: Imago, 1986.

 UNTERSTE, Herbert. Theologische Aspekte der Tiefenpsychologie von C. G. Jung [Aspectos teológicos da psicologia profunda de C.G. Jung]. Düsseldorf: Patmos Verlag, 1977.

 VERÍSSIMO, Luiz José. A experiência religiosa como expressão do si-mesmo. Um estudo a partir do pensamento de C.G. Jung. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 1997.

 


[1] ...wir haben alle das symbolische Leben dringend nötig. Nur das symbolische Leben kann den Bedürftnissen der Seele Ausdruck verleihen- den täglichen Bedürftnissen der Seele ! Und da die Leute nichts dergleichen besitzen, können sie nie aus diesem schrecklichen, zermürbenden, banalen Leben... Im Ritual sind sie der Gottheit nahe...

[2] Quando Jung utiliza o termo  confissão religiosa  ele se refere à credo, confissão de fé.

 Considero importante ressaltar que a visão de religião de Jung não está  ligada a uma confissão específica.   Apesar de o autor  estar  mais enraizado no contexto do Cristianismo, ele direciona os seus estudos a diversos sistemas culturais, tanto do Ocidente como do Oriente.

[3] Rudolf Otto (1869-1937), teólogo e professor de ciência da religião.

[4]  Em seus escritos Jung utiliza alternadamente as expressões  experiência  primordial ou experiência originária, referindo-se a uma qualidade que possui dois sentidos diferentes. No primeiro caso podemos compreender a expressão “primordial” ou “originário” como aquilo que se refere ao início, a uma fase inicial que se dá no plano histórico ou temporal. A segunda  acepção do termo, mais relevante para a análise da noção de experiência primordial não se refere a este plano e será explicitada em seguida.

[5] ...sie versetzt das Subjekt in den Zustand der Ergriffenheit, dass heisst der willenlosen Ergebenheit.

[6] Seit dem Morgengrauen der Menschheit hat eine ausgesprochene Neigung bestanden, den ungebändigten und willkürlichen “übernatürlichen” Einfluss durch bestimmte Formen und Gesetze einzuschränken.

[7] Apesar de Jung se referir com bastante freqüência à confissão católica, ele não concebe o ritual somente a partir deste ponto de vista, e sim o analisa de maneira ampla, a partir das mais diversas sociedades e sistemas religiosos. Da mesma forma ele não busca, pelo menos na maioria das vezes, estabelecer uma diferença hierárquica entre mito e religião. Mito e religião não ocupam lugares diferentes segundo uma escala de valores. Jung fala, por exemplo, do mito cristão. Tanto o mito quanto o enunciado religioso descrevem os processos inconscientes.

74...seit undenklichen Zeiten ein sicherer Weg gewesen ist, mit den unberechenbaren Kräften des Unbewussten fertigzuwerden.

[9] Meine Einstellung zu dieser Sache ist, dass, solange ein Patient wirklich ein Mitglied einer Kirche ist, er dies auch ernst nehmen muss. Er sollte dann wirklich und aufrichtig ein Mitglied jener Kirche sein und nicht zum Arzt gehen, um sich seine Konflikte lösen zu lassen, wenn er glaubt, dies mit Gott tun zu sollen.

[10] Wirklich aber ist, was wirkt

[11] Wenn das Erlebnis der heiligen Kommunion ein wirkliches ist, wenn Ritual und Dogma der psychologischen Situation des Individuums vollen Ausdruck verleihen, dann kann es geheilt werden. Bringen Ritual und Dogma die psychologische Situation des betreffenden Individuums nicht voll zum Ausdruck, so kann es nicht geheilt werden.

[12] Jung compreende por gnose uma forma especial de conhecimento. O termo não deve ser confundido com gnosticismo.

[13] Por “mistério vivo” Jung não compreende algo da ordem do misterioso. Este termo se referiria ao mysterium tremendum.

[14] Wir sind psychologisch nicht weit genug entwickelt, die Wahrheit des Rituals und des Dogmas zu verstehen. Deshalb sollten solche Dogmen niemals irgendeiner Kritik unterzogen werden.

[15] Der Glaube ist ein Charisma, das nicht jedem zuteil wird; dafür hat der Mensch ein Denken, das sich um die höchsten Dinge bemühen kann.

[16] Dass das Dogma einerseits geglaubt wird und andererseits ein Gegenstand des Nachdenkens ist, beweist seine Lebendigkeit.

[17] Das Leben ist zu rational, es gibt keine symbolische Existenz, in der ich etaws anderes bin, in der ich eine Rolle spiele, meine Rolle als einer der Schauspieler im göttlichen Drama des Lebens.

[18] Diese allein bildet die wahre und unerschütterliche Grundlage des innerlichen Glaubenserlebnis.

[19] Considero relevante chamar atenção para o seguinte impasse: A versão brasileira (editora Vozes 2003: 195) traduz este último trecho da seguinte forma: “O velho mito... permanece o mesmo... sofre apenas [grifo meu] uma nova interpretação [grifo do autor]”. Na versão original porém encontro o seguinte – O velho mito... permanece o mesmo... ele porém [grifo meu] experiência uma nova interpretação [grifo do autor]. Parece-me que Jung confere importância ao novo, à nova interpretação, o que condiz com o fato de ele relacionar religio com relegere. A tradução brasileira pode conduzir-nos a uma interpretação oposta.

[20] ...unmittelbares Leben, sie ist das warme rote Blut, das heute pulsiert.

[21] Dass ich dem Bettler bewirte, dass ich dem Beleidiger vergebe, dass ich den Feind sogar liebe im Namen Christi, ist unzweifelhaft hohe Tugend. ...Wenn ich aber nun entdecken sollte, dass der Geringste von allen, der ärmste aller Bettler...já der Feind selber in mir ist... Dann dreht sich in der Regel die ganze christliche Wahrheit um, dann gibt es keine Liebe und Geduld mehr, dann sagen wir zum Bruder in uns “racha”, dann verurteilen wir und wüten gegen uns selbst.

[22] Jedermann ist gefolgt von einem Schatten, und je weniger dieser im bewussten Leben des Individuums verkörpert ist, um so schwärzer und dichter ist er.

[23] Nesse caso compreende se por personalidade a “pluralidade de características psíquicas e modos de ser ...” (Pieri,  op. cit.: 381) que constituem o indivíduo.

[24] Wenn die verdrängten Tendenzen des Schatten nichts als böse wären , so gäbe es überhaupt kein Problem. Aber der Schatten ist in der Regel nur etwas Niedriges, Primitives, Unangepasstes...und nicht absolut böse. Er enthält auch kindische und primitive Eigenschaften, die in gewisser Weise die menschliche Existenz beleben und verschönern würden...

[25] Der Schatten ist ein moralisches Problem, welches das Ganze der Ichpersönlichkeit herausfordert, denn niemand vermag den Schatten ohne einen beträchltichen Aufwand na moralischer Entschlossenheit zu realisieren.

[26] Die Emotion nämlich ist keine Tätigkeit, sondern ein Geschehnis, dass einem zustösst. Affekte ereignen sich in der Regel na den Stellsten geringster Anpassung...

[27] Damit steht der göttliche Mittler... draussen, der Mensch aber bleibt Fragment und in seiner tiefsten Natur unberührt.

[28] Es scheint mir, als ob parallel mit dem Niedergang des religiösen Lebens die Neurosen sich beträchtlich vermehrt hätten.

[29]... jene Brücke wieder aufzufinden, welche die Anschaung des Dogmas mit der unmittelbaren Erfahrung der psychologischen Archetypen verbindet.

[30] ...die Erforschung der natürlichen Symbole des Unbewussten...

 

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