SOBRE O CLUBE PSICOLÓGICO, OS SEMINÁRIOS
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Durante os anos de 1900 a 1909 Jung foi ganhando fama e reconhecimento internacional como psicopatologista experimental. Com um grupo de alunos ele estudava as reações psíquicas (associações); estes estudos foram realizados no Burghölzli, Manicômio Cantonal e Clínica Psiquiátrica da Universidade de Zurique, entre 1902 e 1909, e Jung tinha como colaborador Franz Riklin. A relação de Jung com Freud é muito conhecida, mesmo porque é um período muito bem documentado na biografia e na correspondência de Jung. Nesse sentido, parece não ser necessário um exame mais pormenorizado. Entretanto, alguns pontos devem ser ressaltados. A "associação" entre ambos durou de 1906 a 1912. No ano de 1906 eles estabeleceram uma correspondência; em fevereiro de 1907 se encontram pela primeira vez e, em janeiro de 1913 acontece o rompimento formal entre eles. Jung aponta o ano de 1909 como tendo sido decisivo para suas relações. Foi neste ano que ambos foram convidados pela Universidade Clark (Estados Unidos) para fazer conferências. Essa viagem durou sete semanas e Freud e Jung passavam juntos todos os dias. Esse contato mais íntimo torna-se revelador para Jung, como ele próprio nos conta em Memórias, Sonhos, Reflexões (1987):
Esse período é muito importante porque marca o rompimento, por parte de Jung, com um modelo de pensamento reducionista e estabelece o início do que virá a ser o modelo junguiano por excelência (método analógico). Isso fica evidenciado na correspondência entre Jung e Freud, onde a partir de outubro de 1909 as questões ligadas à mitologia aparecem. O resultado disso virá posteriormente com a publicação, por parte de Jung de Metamorfoses e Símbolos da Libido (1911-2), e por parte de Freud de Totem e Tabu (1912-3). Não se pode esquecer, também, que mesmo nesse período, Jung jamais abriu mão de seu interesse no vitalismo evolucionista, e que durante toda a sua trajetória buscou no testemunho histórico a base objetiva para suas experiências, intuições e idéias. Por volta de 1911, o relacionamento entre Freud e Jung estava como que "por um fio". Jung comenta em Memórias, Sonhos, Reflexões (1987) que: "Freud tinha então, em 1911, num certo sentido, perdido sua autoridade sobre mim." (p.146). Ao mesmo tempo em que Jung distanciava-se cada vez mais de Freud, o círculo de Jung em Zurique buscava uma organização. Em fevereiro de 1912 é fundada em Zurique a Sociedade de Projetos Psicanalíticos, tendo como presidente Franz Riklin. De acordo com Noll (1996),
Em janeiro de 1913 acontece o rompimento formal entre Jung e Freud, que nunca mais se falaram. Nem todos os membros da Sociedade de Projetos Psicanalíticos se posicionaram a favor de Jung, mas neste mesmo mês de janeiro é criado o Psychoanalytical Club, que se reunia em um restaurante de Zurique chamado Seidenhof Restaurant. O grupo básico era composto de dezesseis pessoas, das quais pode-se citar: Franz Riklin, Alphonse Maeder, Jozef B. Lang (futuro analista de Herman Hesse), Hans Schmid-Guisan, J. Vodoz, C. Schneiter, Adolf Keller, Jan Nelken, Maria Moltzer, Toni Wolff, Beatrice M. Hinkle (futura tradutora de Símbolos da Transformação para o inglês), Martha Böddinghaus, Constance Long, Emma Jung e, é claro, o próprio Jung. Em maio de 1914, a primeira compilação de artigos desse grupo de Jung foi publicada no Psychologiste Abhandlungen, Vol. 1, com prefácio de Jung (que era editor dessa coleção) e artigos de Jozef Lang, J. Vodoz, Hans Schmid-Guisan e C. Schneiter. O prefácio de Jung dizia o seguinte:
Em julho deste mesmo ano, o grupo de Jung vota quinze contra um por se separar da Associação Psicanalítica Internacional, e Jung renuncia à presidência da mesma pouco depois de ter sido reeleito (apesar do rompimento com Freud). O grupo continua se reunindo no restaurante Seidenhof. Em 26 de fevereiro de 1916 é fundado o Clube Psicológico de Zurique (Analytical Psychology Club). Inicialmente, Jung convidou Alphonse Maeder para ser o presidente do Clube, mas Maeder recusou. Sendo assim, Emma Jung tornou-se a primeira presidente do Clube, Edith McCormick a diretora, Toni Wolff da Comissão de Conferências e Harold McCormick da Comissão Social. O clube estava localizado no Löwenstrasse 1, numa casa comprada e doada por Edith Rockfeller McCormick (1872-1932), casada com Harold R. McCormick. Ambos viveram em Zurique de 1912 até 1923, fazendo análise com Jung e estudando filosofia com Emil Abegg. Era uma casa de dois andares; no andar inferior havia uma sala para conferências, palestras e festas; havia três ou quatro salas para a biblioteca e outras atividades sociais. No segundo andar estavam os apartamentos onde residiam pessoas que vinham de outros lugares para análise e/ou atividades acadêmicas. Duas das razões principais que levaram Jung a permitir a criação do Clube de Zurique são as seguintes: o aumento do número de pessoas que, neste período, vem procurar Jung para análise e/ou alguma forma de aprendizagem, e a necessidade que tinham estas pessoas (que tinham apenas contato pessoal com Jung e muito pouco entre elas) de se agruparem, possibilitando um sentido de corpo. Segundo Barbara Hannah, no capítulo sete de Jung: His Life and Work, as razões que levaram Jung a fundar o Clube em 1916 foram, basicamente, a de atender a demanda e a de criar um espaço onde ele, seus pacientes e muitos alunos pudessem ter algum tipo de relacionamento social e explorar essa convivência fora do setting analítico. A respeito dessa questão sobre o papel e as finalidades terapêutica e social do Clube, e reforçando a idéia de que Jung não estava tão solitário nessa época (embora ele afirmasse ter sido abandonado pela maioria de seus amigos após o rompimento com Freud), podemos citar dois trechos do prólogo que ele escreve para o livro de Toni Wolff, Estudos sobre a Psicologia de C. G. Jung de 1959 (Vol. X/3 da Obras Completas):
Mais adiante, no mesmo texto, Jung comenta:
Numa carta de Jung a Hans Illing, em 26 de janeiro de 1955, podemos ler:
Além da finalidade terapêutica e social do Clube, que aparece claramente nos parágrafos anteriores, havia também uma preocupação didática.É necessário lembrar que muitos dos seminários ministrados por Jung, principalmente os formais, foram realizados no Psychological Club (criado em 1916) em Zurique, que posteriormente se tornou o C. G. Jung Institute (1948). De maneira geral, pode-se dizer que os seminários de Jung revelam aspectos importantes dentro de sua metodologia de trabalho e atendem a diferentes propósitos:1. Funcionavam para Jung como um teste para novas idéias e alguns desses materiais (não todos) (re)aparecem em seus escritos posteriores.2. Eram um espaço que possibilitava o trabalho com idéias que ele não pretendia tornar públicas através de qualquer publicação.3. Tinham também um aspecto terapêutico, já que a maioria dos participantes eram pacientes de Jung ou de outro analista junguiano. A participação nos seminários dependia da aprovação de Jung.4. Pelo seu aspecto tanto didático quanto terapêutico, pode-se pensar os seminários como tendo um propósito de formação de futuros analistas, já que na época não havia nenhum programa formal de treinamento. Os principais seminários foram registrados e transcritos por várias das Jungfrauen. Entre elas pode-se citar Esther Harding, Cary Fink (após seu casamento com H. G. Baynes, Cary Baynes) e Kristine Mann. A partir de outubro de 1929 até 1939 esta tarefa foi confiada a Mary Foote. Mary Foote fazia o registro dos seminários e, em seguida editava seus transcritos, algumas vezes com auxílio de Jung; o texto era então copiado e distribuído aos membros do seminário que, ao pagarem pelas reproduções, ajudavam financeiramente Mary Foote. O acesso às anotações, que foram organizadas em diferentes volumes, era estritamente limitado e dependia da autorização de Jung ou de outro analista reconhecido e de aprovação profissional. Por muito tempo Jung reluta em permitir a publicação oficial de suas Notas de Seminário. Somente em 1956, consciente do valor desses seminários para os analistas envolvidos no treinamento de estudantes, ele acaba concordando com a publicação. Sobre isto, Jung escreve em 24 de maio de 1956 a Gerhard Adler (um dos editores das Obras Completas)3:
Numa carta de 19 de agosto de 1957 à Bollingen Foundation (Editora das Obras Completas), Jung diz: "Por meio desta, confirmo minha concordância com a inclusão dos escritos designados em sua carta (Notas de Seminário e Correspondência) nos Collected Works" 5. Como resultado de todas essas considerações, foram publicados, ou estão em vias de serem editados, pela Bollingen, os seminários: Dream Analysis (1928-1930), editado por William McGuire (1984); Nietzsche's Zarathustra (1934-1939), editado em dois volumes por James L. Jarnet (1988); Analytical Psychology (1925), editado por William McGuire (1989); Children's Dream (1936-1941), editado por Lorenz Jung; Seminar in Kundalini Yoga (com J. W. Hauer 1932), editado por Sonu Shamdasani (1996); Interpretation of Visions (1930-1934), editado por Claire Douglas (1997)6. No que diz respeito ao papel, à participação e às atitudes de Jung nos seminários, pode-se citar William McGuire na introdução do Dream Analysis:
Os seminários realizados por Jung no período que vai de 1920 a 1941 podem ser divididos em: seminários formais e seminários informais. Os critérios para definir um seminário como formal são: 1. O número de participantes, geralmente pequeno e ligado diretamente a Jung; 2. A duração e a regularidade dos encontros (período que vai de 16 encontros semanais até períodos de tempo superiores a um ano); 3. O fato de terem ocorrido em Zurique, mais especificamente no Psychological Club ou no E.T.H. (Instituto Técnico Federal). Um dos aspectos mais interessantes e estimulantes dos seminários formais está ligado ao fato de serem sempre dirigidos a platéias pequenas (embora em alguns seminários o número de participantes tenha chegado a cinqüenta) e cuja participação dependia da aprovação de Jung. Neste sentido, percebe-se um Jung que fala muito mais livremente do que em suas conferências e seus livros e que, constantemente, experimenta novas idéias. Os seminários informais se definem por: 1. Seu número de participantes, variando desde um grupo pequeno até grande número de participantes, como no Seminário de Swanage, Inglaterra, em 1925, com cem pessoas; 2. A pouca duração dos encontros e a sua regularidade; 3. Não terem se realizado todos em Zurique (Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos foram países onde ocorreram alguns desses seminários informais). Dentre os seminários formais podemos citar: Analytical Psychology (em inglês), Dream Analysis (em inglês), Interpretation of Visions (em inglês), Nietzsche's Zarathustra (em inglês) e Children's Dreams (em alemão). Como seminários informais: The Authentic Dreams of Peter Blobbs and Some of Certain of His Relatives (1920, Inglaterra), Human Relationships in Relation to the Process of Individuation (1923, Inglaterra), Dreams and Symbolism (1925, Inglaterra), Zür Psychologie der Individuation (1930-1931, Küsnacht), The Kundalini Yoga (1932, Zurique), Basler Seminar8 (1931, Basiléia), Fundamental Psychological Conceptions9 (1935, Londres), Dream Symbols of the Individuation Process (1936-1937, Estados Unidos). Segundo William McGuire, na introdução do seminário Dream Analysis, as conferências que Jung ministrou em alemão no Eidgenössische Technische Hochschule (Instituto Técnico Federal) de Zurique costumam ser classificadas juntamente com seus seminários, embora seguissem um estilo conferencial e fossem dirigidas a um público geral e bastante numeroso. Estas conferências, que aconteciam todas as sextas-feiras à tarde, começaram em 20 de outubro de 1934 com o tema geral Modern Psychology e continuaram, com os usuais recessos acadêmicos, até julho de 1935. Jung volta a essas conferências no E.T.H. a partir de outubro de 1938 e o título geral passa a ser agora Process of Individuation. Os temas abordados por Jung são os seguintes: Eastern Texts (Textos Orientais), Exercitia Spiritualia of St. Ignatius of Loyola (Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola), Children's Dreams (Sonhos de Crianças), Old Literature on Dream Interpretation (Literatura Antiga sobre Interpretação de Sonhos), Alchemy I (Alquimia I) e Alchemy II (Alquimia II). A partir de 1933, Jung passou a conferenciar nas Eranos Tagung, em Ascona, Suíça. Eram encontros anuais organizados por Olga Fröbe-Kapetyn. Havia um tema geral, baseado no qual cada conferencista estruturava sua fala. As conferências eram realizadas num grande salão, para aproximadamente 200 pessoas, construído pela própria Olga Fröbe no jardim de sua villa em Moscia, um pequeno povoado entre Ascona e Porto Ronco. As Conferências Eranos tem também uma importância significativa na história da Psicologia Analítica. Até 1933, os seminários funcionavam para Jung como um laboratório de idéias; a partir de 1933, quando sua obra já se tornara muito mais conhecida, Eranos passa a ocupar o lugar antes ocupado pelos seminários, funcionando como um grande fórum de debates de suas idéias. A esse respeito, comenta Jaffé (1988): Para Jung, Eranos representava o encontro bem-vindo com inúmeros pesquisadores notáveis e, assim, a oportunidade para aclarar idéias e aprofundar, nas conversas, o seu próprio conhecimento. Ele apreciava muito esse fato, pois durante toda a vida foi um homem sedento de conhecimento, um instrutor e um aprendiz. (p.86-87)
REFERÊNCIAS HANNAH, Barbara. Jung: His Life and Work A Biographical Memoir. Boston: Shambala, 1991. JAFFÉ, Aniela. Ensaios Sobre a Psicologia de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 1988. JUNG, Carl G. Analytical Psychology Notes of the Seminar Given in 1925 by C. G. Jung. Editado por William McGuire, Bollingen Series XCIX, Princeton University Press, 1989. ________ Civilização em Transição. Obras Completas. Vol. X/3. Petrópolis: Vozes, 1993. ________ Dream Analysis Notes of the Seminar Given in 1928-1930 by C. G. Jung. Editado por William McGuire, Bollingen Series XCIX, Princeton University Press, 1984. ________ Letters. Bollingen Series XCV:2:1951-1961. Princeton, New Jersey, 1991. ________ Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. ________ The Symbolic Life. Miscellaneous writings. Collected Works, Vol. 18. Londres: Routledge and Kegan Paul, 1977. McGUIRE, William (Org.) A Correspondência Completa de Sigmund Freud e Carl G. Jung. Rio de Janeiro: Imago, 1993. NOLL, Richard. O Culto
de Jung. Origens de um Movimento Carismático. São
Paulo: Ática, 1996.
1 "The Psychologische Abhandlungen (Psychological Papers) comprise the works of my friends and pupils as well as other colleagues, and also my own contributions to psychology. In accordance with the character of our psychological interests, this series will include not only works in the area of psychopathology, but also investigations of a general psychological nature. The present state of psychology seems to make it advisable that schools or movements have their own organs of publication; in this way a troublesome scattering of works among many different periodicals can be avoided, and mutuality of outlook can achieve suitable expression through publication in one consistent place." 2 "I myself founded a group nearly 40 years ago, but it was composed by analysed persons and its purpose was to constellate the individual/social attitude. This group is still active today. The social does not come into operation in the dialectical relationship between patient and doctor and may therefore remain in an unadapted state, as was the case with the majority of my patients. This drawback only became apparent when the group was formed and called for the mutual rubbing off of sharp edges." 3 As duas cartas de Jung que constam deste parágrafo foram citadas por William McGuire na introdução à edição do seminário Dream Analysis (1984), nas páginas xiii e xiv. 4 "I should like to refer to our talk of the 14th of May. I am in complete agreement with the publication of my 'Seminar Notes' as an appendix of the Collected Works, and I should like you and Dr. Fordham to make the necessary cuts and corrections of actual mistakes. The shorthand report has not always been quite accurate. As far as the style is concerned it should, if at all possible, not be altered." 5 "I hereby confirm my agreement to the inclusion of the writings designated in your letter (Seminar Notes and Correspondence) in the Collected Works." 6 Além destes, foi publicado (pela Spring Publications), em 1976, The Visions Seminars (1930-1934), editado por Patricia Berry. 7 " ... the Seminar gives us a Jung who was self-confidently relaxed, uncautious and undiplomatic, disrespectful of institutions and exalted personages, extravagantly learned in reference and allusion, attuned always to the most subtle resonances of the case in hand, and true always to himself and his vocation." 8 Existe uma edição deste seminário publicada em Portugal com o título O Homem à Descoberta da Sua Alma (Porto: Brasília Editora, 1975), e uma edição em espanhol com o título Los Complejos y El Inconsciente (Alianza Editorial). 9 É conhecido também como Conferências de Tavistock e foi publicado no Brasil sob o título Fundamentos de Psicologia Analítica, pela Vozes, Vol. XVIII/1.
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