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WE CAN WORK IT OUT: “A VIDA É MUITO CURTA” Igor
Fernandes
Falar em Beatles é falar em mito. E em um seminário junguiano, poucas coisas caem tão bem. O rock em si possui esfera mítica. Aqui temos os deuses, heróis, vilões, os mortais e tudo mais que qualquer mitologia tem ao redor do mundo. Dessa perspectiva, os Beatles se constituem como um mitologema, um núcleo específico dentro desse mito maior, o rock n’ roll. Poucos ritmos alcançam tamanha abrangência e envolvimento por parte de seus ouvintes como o faz esse filho do blues. Cada um dos quatro rapazes de Liverpool ocuparam ora juntos, ora separados o lugar de deuses, heróis e até mesmo vilões desse panteão. Gravada durante as sessões de “Rubber Soul”, sexto álbum da banda, “We can work it out” não está em nenhum LP (Long Play) da discografia. A musica foi lançada em single no dia 3 de dezembro de 1965 juntamente com a canção “Day tripper”.
Só para que nos situemos sobre o que é um single,
pois no Brasil não temos a cultura desses compactos simples,
trago a definição objetiva da Wikipédia, que nos
informa que single é uma nomenclatura da indústria
fonográfica para uma canção considerada viável
comercialmente o suficiente pelo artista e pela gravadora para ser
lançada individualmente, embora algumas vezes a musica apareça
também no LP. Essa música alcançou o primeiro lugar nas paradas da Europa, EUA e possivelmente muitos outros paises não creditados nas listas. Composta por Paul McCartney e John Lennon, que não compunham juntos desde 1963, a canção conta a história de um par romântico à beira de um rompimento. O motivo parece ser a intransigência do interlocutor. Enquanto
você vê do seu modo, (diz a letra) No entanto, quem se pronuncia insiste a cada refrão we can work it out [podemos dar um jeito nisso]. Para que pudéssemos ter uma visão mais ampla sobre o que esta canção nos fala, recorro nesse momento à história da mesma. Paul fez essa letra como tantas outras para sua, então noiva, Jane Asher. Jane, que era atriz, decidira deixar Liverpool para ingressar na Old Vic Company, uma companhia de teatro em Bristol. Isso significava deixá-lo para trás. A moça fez a sua escolha, sua carreira falava mais alto naquele momento. A idéia que Paul tinha de uma noiva naqueles dias iam de encontro a uma mulher dedicada e que permaneceria ao seu lado, como mostra a letra da canção. Dedicada ela provou que seria, mas à sua arte. O Beatle morava então na casa dos pais de sua noiva. De família nobre, Jane era filha de um famoso psiquiatra autor de vários livros de medicina e sua mãe descendia da nobreza britânica. O ambiente intelectual na casa dos Asher era prazeiroso, próspero e motivo de orgulho para Paul. Sentia-se vaidoso ao apresentar Jane Asher como sua noiva. Deparamo-nos aqui com Eros. Falar em relacionamento humano, seja este de cunho sexual, emocional ou intelectual é falar de Eros. Segundo o Dicionário Crítico de Análise Junguiana de Andrew Samuels, Eros “é o princípio psíquico da capacidade de relacionar-se”. Nossa capacidade de envolver-se com algo, nossa criatividade e nossa amorosidade são, segundo Guggenbühl-Craig (1980), atributos dessa força que na psicanálise também foi chamada de “pulsão de vida”.
Tente ver da minha maneira, (inicia Paul) Durante toda a música poderemos observar Paul McCartney, o beatle “certinho”, como muitos o têm até hoje, tentando convencer sua noiva de que suas palavras deveriam ser ouvidas. E continua:
Pense no que está dizendo. Em 1965, os Beatles já tinham uma carreira consolidada, já eram mundialmente famosos, tinham boa quantia de dinheiro em suas contas e ainda assim buscavam a cada álbum se reinventar, fazer coisas novas, aprimorar suas técnicas e claro, fazer mais fama. Cabe aqui a pergunta: Em que hora Paul olhou para Jane? McCartney quer ser olhado, mas neste momento não vê que sua futura mulher também tem uma carreira e que esta dependeria de seu ingresso na companhia de teatro para seu aperfeiçoamento e promoção. Jane já havia feito novelas, começou a carreira cedo. Aos 12 anos protagonizou Alice no País da Maravilhas no cinema; mas Jane Asher também queria mais. O reconhecimento do não-eu e da diferença do Outro possuidor de uma existência própria é característica do Eros. Faz-se necessária a diferenciação do outro e a dificuldade reside parcialmente no fato de que esta constatação implica o reconhecimento de que o outro possui coisas que eu não possuo. Deparamo-nos aqui com um Paul em dificuldades para apreender que sua noiva também gostaria de reconhecimento. Este conceito nos remete a tudo que compete aos relacionamentos humanos. Assim como estes e por conta destes, tem também um lado sombrio. Acerca disto, Helmut Hark nos fala: O Eros está ativo em todos os casos em que o ser humano vivencia ou é envolvido em um relacionamento. Em contrapartida, nos casos em que em vez de um relacionamento, são praticadas as mais diversas formas de dominação, o Eros reprimido manifesta-se sob a forma de poder. (HELMUT, 2000, p. 50). Apesar de afirmar ao final da letra que só o tempo dirá se está certo ou errado, o quão doloroso pode nos ser a idéia de que a própria música, romântica e positiva, feita para o objeto da paixão do correto Paul, pode já não ter sido obra do inconsciente dominador do mesmo? Paul insiste para que a pessoa com quem dialoga o ouça. “Nós podemos dar um jeito e acertar, ou dizer boa noite”, diz. Aparece agora a noite e suas sombras. O que estará Paul dizendo? “Tchau e ´bença”, como se diz no popular, ou falando do mergulho em sombras que esse relacionamento já começara a fazer? Caso sua noiva vá para Bristol, quem sabe o que poderá acontecer a cada um deles? E Paul, continuará na casa de seus sogros alimentando sua intelectualidade? Jane arrumará alguém para dividir sua vida na nova cidade? Paul assumirá sua amante? Sim, como é sabido, durante toda sua relação com Jane Asher, McCartney nutria um romance paralelo. Mais tarde, em 1968, chegou a ser flagrado na cama com esta por Jane. Mas Eros se faz presente em outro relacionamento dentro desta música. E talvez não se saiba ao certo se esta canção fala àquele ou a este encontro. Em 1965 a relação Lennon/McCartney já não era mais a mesma. Desde 1963 os principais compositores do grupo não escreviam nada juntos. Os dois trabalhavam de maneira independente nas letras e em raras ocasiões as dividiam. Esta canção e “A Day in the life”, são exceções. Havia um pacto informal entre Paul e John feito em 1957. Assinarem todas as músicas que fizerem juntos, ainda que estas tivessem sido compostas individualmente. Neste sentido, a marca Lennon & McCartney era fictícia. Em we can work it out, Lennon tem participação em duas estrofes em que ele mesmo canta. É exatamente na mudança de ritmo da música, a chamada ponte. John diz:
A vida é muito curta
Eu sempre pensei
Em entrevista à revista Playboy em 1980, John relata, “tinha Paul escrevendo ‘we can work it out/ we can work it out’- realmente otimista, sabe, e eu, impaciente: ‘life is very short and there’s no time for fussing and fighting, my friend’” [a vida é muito curta e não há tempo para inquietações e brigas, meu amigo]. Há certamente um componente sombrio aqui. John Lennon, segundo ele próprio, sempre achou ser um crime brigas e inquietações, mas talvez não as tenha conseguido evitá-las. Em uma discussão sobre que música lançar como single, Lennon vociferou por Day Tripper, diferindo da visão da maioria que em “we can work it out” via uma música mais comercial. Como resultado, o single foi lançado como o primeiro duplo lado A do mundo. A versão oficial dá conta de que este foi mais um marketing bem sucedido dos fab four. A persona da banda não poderia ser abalada. Seu produtor, George Martin, sempre lembrava que faria mal aos negócios. Porém, a sombra besoura irromperia na consciência do quarteto como um todo anos mais tarde dando fim a uma era. Mas o que ocorrera nesse episódio? Vale ressaltar que Day tripper é uma música de Lennon. Este era considerado o líder da banda, mas vinha perdendo espaço para McCartney. A música teve a maior parte da letra escrita por Lennon juntamente com a famosa parada da guitarra enquanto Paul ajudou em alguns versos. Porém, em uma entrevista disse o primeiro, “Essa é minha. Incluindo a letra, a parada da guitarra e tudo mais” (livre tradução minha); ainda que anos mais tarde, para a revista Rolling Stone (1970) tenha dito que “Day tripper” era um exemplo da colaboração entre eles “onde um parceiro tem a idéia principal, mas o outro abraça a causa e a completa”. É interessante notar que em diversas ocasiões distintas existe uma declaração oficial, dita em entrevistas oficiais e há também as declarações em off que expõe a fragilidade dos laços da maior banda de todos os tempos. O jogo de sombra e persona relatado em suas biografias mostraria que os Beatles não eram exatamente os pacíficos rapazes que aparentavam ser, mas que o mundo também não estava preparado para essa invasão do inconsciente Beatle como fica claro na declaração de Lennon à revista Rolling Stone em 1970. Segundo John, as fotos (dos integrantes bêbados, drogados e com prostitutas) e outras revelações não vieram a público porque ninguém queria "um grande escândalo". Jung sobre persona dirá que está é uma: Máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é individual, quando na realidade não passa de um papel ou desempenho através do qual fala a psique coletiva. (JUNG, CW VII/2, p. 134, grifo meu) Para a indústria da música, um compacto com dois lados A lançado pelos Beatles foi um sucesso, para o grupo, a não diferenciação por parte de John de que lado B não era igual a lado A foi uma constatação de que aquilo poderia acabar mal. A sombra de Eros fica evidente com a disputa de poder entre John Lennon e Paul McCartney. Entretanto, sabemos ser impossível ter uma vida social sem esta instância do psiquismo. Não seria interessante para ninguém ser invadido mais do que já o eram por um mundo inteiro de fãs e jornalistas. Por outro lado, como dito anteriormente, fazer os bastidores da banda vir à tona, seria acabar antes ainda com o sonho de milhões de pessoas que encontravam em sua música significado para a vida. Se para o grupo esse capítulo da história não foi bom levando em consideração suas relações interpessoais, para os Beatles como fenômeno musical aquilo seria uma grande alavanca. Lennon e McCartney rivalizavam para ver quem conseguia emplacar mais músicas de qualidade em um disco e quem ficaria com os lados A dos singles. Declaradamente, um sabia da genialidade do outro e isso os faziam se esforçar mais ainda para que fossem o melhor. É da tensão entre esses opostos que florescem clássicos como Hey Jude, Revolution, Something, Come Together, e muitos outros. Em outras palavras poderíamos dizer que dessa energia tensionada nasce um novo entendimento que é a música. A tensão entre os contrários é essencial. Não há produção de energia para que ocorra o movimento sem que haja esse mal-estar. Usei a expressão mal-estar propositalmente, pois essa tensão retira o sujeito de uma zona de conforto. Não houve conforto em ter a noiva indo morar em outra cidade deixando-o para trás, como também não houve conforto em aceitar deixar suas aspirações de lado para ser uma companheira aos moldes deste último. E certamente tomar a decisão que ia contra o relacionamento não deve ter sido fácil igualmente. Nunca foi tranquilo para o ser humano o reconhecimento de que aquele Outro é diferente de si. Ainda que haja saudades do paraíso, para usar uma expressão de Mario Jacob, é um caminho a ser trilhado. Neste momento de diferenciação o homem está só e não há também garantias de que algo vá dar certo. Mas, como diz Jung, a sombra, tida pela atitude unilateral da consciência como a parte inferior da personalidade, “é o reprimido que tem que se tornar consciente para que se produza essa tensão entre os contrários sem o que a continuação do movimento é impossível”. Voltando a Jacobi e sua metáfora paradisíaca, a “serpente no paraíso significa impulso” (JACOBI, 2007, p. 168) e citando o Fausto de Göethe, ela também representa “parte de uma força que, sozinha, faria o mal, mas acaba fazendo o bem” (idem, p. 168). Obviamente sem cairmos na ingenuidade de tentar abarcar a totalidade da mesma, tendo em vista que o inconsciente é dinâmico e está sempre produzindo novos conteúdos. Sendo assim, podemos aqui citar outro conceito de extrema importância para o entendimento das relações eróticas, o de negociação, cunhado por Jacques Derrida. Segundo Carlos Bernardi, o filósofo “resgata a palavra em sua etimologia” (BERNARDI, 2008). Do latim neg otio, sem descanso, envolve trocas, afirmações, negações, sem nenhuma posição antecipadamente firme e sem nenhuma resolução final. Não há parada, não há término. Todos os dias há negociação, enfatiza Derrida, tanto na vida pública, quanto na privada e, igualmente, na vida psíquica. (BERNARDI, 2008, p.21) Não há descanso para McCartney, não há descanso para Lennon, não há descanso para os Beatles. Os opostos que Eros nos impõe, diz Jung, são por um lado da “natureza primitiva e animal do homem” e por outro está ligado à sua intelectualidade (C. W. VII § 32). Se um dos dois faltar, já há dano (idem § 32). Relacionar-se é inseguro para o homem, no entanto o fazemos com aparente destreza. “Mas o triunfo sobre a natureza se paga muito caro”, sentencia Jung (idem § 32). Em 1969, ano de gravação de Abbey Road, a banda não sabia ao certo qual seria o seu futuro. Os integrantes já não se suportavam mais e isso ficava bastante claro já nas gravações do filme Let it be lançado no ano seguinte. John mostrou sua nova composição "Cold turkey" para que fizesse parte de um novo compacto do grupo. Paul não gostou. John resolve montar sua própria banda com Eric Clapton nas guitarras e Ringo na bateria e não satisfeito assina "cold turkey" sozinho, quebrando o pacto feito 12 anos antes. É bom comentar que em seu primeiro disco solo "Give peace a chance" lançado antes de Abbey Road, Lennon dá o crédito a Paul da música. A hybris dos Beatles, a inflação do ego heróico, fruto de tudo que foi dito dentro de um caldeirão com fãs e mídia os idolatrando, fazia estragos irreparáveis no inconsciente besouro.
John já havia declarado publicamente que
eram mais famosos que Jesus Cristo e mais, que os Beatles eram Deus.
Chegaram com isso a arrumar problemas com a Kun Klux Klan, nos EUA e
foram obrigados a se retratar para que um problema maior não
fosse causado. Coisa que ao mesmo Lennon aconteceria mais tarde
quando um fã seu o assassinaria por este pregar valores de
desprendimento e, no entanto, levar uma vida burguesa. Assim o rock n´roll escrevia mais algumas páginas dessa fascinante mitologia composta de histórias alegres, mas também de medo, ira, tragédia, comédia. Com tudo isso, os Beatles encarnaram os desejos e temores de muita gente ao redor do mundo. Obviamente que sem a sua música de qualidade não houvesse talvez espaço para tudo isso. Sem desmerecer Ringo e George, especialmente este que na última fase dos Beatles andava inspirado, o binômio Lennon & McCartney seja na época de parceria seja na de briga foi fundamental para a construção dessa identidade. É no oposto que se acende a chama da vida, nos diz Jung Se Lennon diz que a vida é muito curta, McCartney nos avisa que podemos dar um jeito nisso, ainda que não seja definitivo. E-mail do autor: imfernandes2004@gmail.com |