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PERSPECTIVAS
EPISTEMOLÓGICAS
Paulo Bonfatti
Psicólogo e Doutor em E-mail: paulobonfatti@hotmail.com
RESUMO: Este trabalho propõe uma análise conceitual de três noções sobre as quais se apóia grande parte da psicologia de Carl Gustav Jung, a saber: arquétipo, inconsciente coletivo e si-mesmo (Selbst). Esta análise objetiva buscar uma melhor compreensão da estrutura desta teoria, bem como permitir uma aproximação dos possíveis motivos das reservas do meio acadêmico no que diz respeito à aceitação da teoria de Jung PALAVRAS-CHAVE Arquétipo. Carl Gustav Jung. Inconsciente coletivo. Psicologia analítica. Si-mesmo (Selbst). SUMMARY This work presents a conceptual analysis of three notions upon which a large portion of Carl Gustav Jung’s psychology is based, namely: archetype, collective unconscious and self (Selbst). This analysis seeks a better comprehension of this theory’s structure and an approximation of the reasons behind academia’s reservations regarding Jung’s theory. KEYWORDS Analytical Psychology. Archetype. Carl Gustav Jung. Collective unconscious. Self (Selbst) RÉSUMÉ Ce travail propose une analyse conceptuelle de trois notions sur lesquelles se fonde une grande part de la psychologie de Carl Gustav Jung, à savoir: archétype, inconscient collectif et soi (Selbst). Cette analyse a pour but d'assurer une meilleure compréhension de la structure de cette théorie, ainsi que de permettre une approche des raisons qui semblent determiner l'accueil mitigé que la psychologie de Jung reçoit encore au niveau de l'enseignement à l'université. MOTS CLEFS Archétype. Carl Gustav Jung. Inconscient collectif. Psychanalyse. Soi (Selbst).
INTRODUÇÃO Em minha experiência na clínica, na docência e na pesquisa, tenho observado um crescente interesse pela psicologia junguiana . Todavia, paradoxal e paralelamente, noto o fato de esta teoria encontrar certa reserva, quando busca dialogar com o meio acadêmico2. Com raras exceções fora dos círculos junguianos, tenho encontrado dificuldade em estabelecer uma ponte entre Jung e o pensamento acadêmico. Esta é uma situação que traz uma inquietação, por buscar uma prática clínica sempre articulada com a construção do saber. Geralmente, o que observo são críticas pejorativas, colocando Jung como um autor acientífico e esotérico. É comum colegas serem rejeitados em diversos nichos acadêmicos por quererem articular suas idéias com um referencial junguiano. Entendo que as tentativas de aproximações teóricas de Jung com áreas tabus como I ching, Astrologia e Alquimia como também a superficial associação de suas idéias a um referendamento pseudocientífico dos ditos alternativos, místicos e espiritualistas muito contribuem para esta reserva acadêmica. Alguns autores, mais articulados, advogam que Jung seria, paradigmaticamente, um divisor de águas por romper com um universo de um saber cartesiano, uma linha de raciocínio, situada extra campo psicológico, que explicaria as reservas do meio acadêmico - com seus aspectos essencialmente racionais – em relação à teoria junguiana (CAPRA, [1982] 1993, p. 178). Todavia, entendendo que se deveria buscar uma compreensão desta reserva do meio acadêmico dentro da própria teoria junguiana, e não fora dela, propus-me a uma busca analítica da própria psicologia analítica. Hipoteticamente, pensei que a estruturação das concepções conceituais de Jung poderia apontar possibilidades de compreensão das reservas em relação à sua teoria. Parti então, para a verificação dessa hipótese. Entretanto, diante de uma teoria tão ampla e tão complexa, tive que cumprir o árduo exercício acadêmico de delimitar o tema. Sendo assim, foquei-me em três concepções, que em meu entender são basilares da teoria junguiana, a saber: arquétipo, inconsciente coletivo e si-mesmo. Essa escolha ocorreu por ser pouco possível, em meu entender, tentar compreender Jung sem levar em conta as três noções. Grosso modo, a concepção dos arquétipos consistiria em padrões coletivos herdados de estruturação de imagens psíquicas análogas. Consoante à construção de arquétipo, encontramos a concepção de inconsciente coletivo – um locus onde os arquétipos se situariam, aprioristicamente, aguardando a possibilidade ou não de se manifestarem através de imagens arquetípicas. Por conseguinte, deparamo-nos com um centro virtual que, de modo onipresente, ordena, influencia e engendra todos os processos psíquicos que ocorrem na psique, sendo, ao mesmo tempo, o centro e o todo desta mesma psique – o si-mesmo. Sem dúvida alguma, arquétipo, inconsciente coletivo e si-mesmo ampliaram um grande leque de compreensão de fenômenos psicológicos, antropológicos, sociais, culturais e religiosos3. Mas o que seriam as três concepções? Teriam elas aspectos conceituais que justificariam as reservas acadêmicas feitas à teoria junguiana como um todo? Na busca destas respostas, entendi que seria impossível não me remeter ao próprio autor, objetivando uma busca conceitual destas concepções. Com este objetivo lancei mão, basicamente, dos textos de suas Obras completas, de sua biografia relativamente4 autorizada no livro Memórias, sonhos e reflexões (JUNG, [1961] 1996) e de suas Cartas (JUNG, [1906-1945] 1999a; JUNG, [1946-1955] 2002) (JUNG, [1956-1961] 2003a) que foram consentidas, por Jung, para que fossem publicadas, por serem um referencial teórico-científico de suas idéias5 (JUNG, [1906-1945] 1999a, p. 3). ARQUÉTIPO Em relação a arquétipo, Jung afirma que a idéia não seria necessariamente sua. Pois pode ser encontrada em vislumbres, conceitos ou intuições desde a antiga Grécia a autores contemporâneos como Filo, Dionísio Areopagita, (JUNG, [1946-1955] 2002, p.111), Agostinho, Malebranche, Bacon (JUNG, [1919] 1984 §275)6, Hipócrates, Agrippa de Nettesheim, Zoroastro, Sinésio, filósofos Platônicos, Hans Driesch (JUNG, [1952] 1984 § 920-921), Heinrich Zimmer, Karl Kerényi, Erich Neumann, Mircea Eliade (JUNG, [1953] 2000a § 1250), Adolf Bastian, Hubert, Mauss, Hermann Usener. (JUNG, [1938/1954] 2000b §153). Todavia, seria uma das contribuições mais originais de sua teoria e intimamente ligada à outra concepção, a de inconsciente coletivo - uma instância psíquica pré-existente que não qualifica a psique como uma tabula rasa (JUNG, [1957] 2000a §1271), pois de acordo com Jung, o inconsciente coletivo seria uma camada mais profunda, inata, universal e idêntica em todos os seres humanos; já os seus conteúdos seriam os arquétipos (JUNG, [1936/1954] 2000b § 136). A concepção de arquétipo dentro do viés junguiano foi paulatinamente construída, passando por nomes distintos como imagens primordiais (JUNG, [1938/1954] 2000b § 153) e dominantes (JUNG, [1947/1954] 1984 § 403). Jung ligava o arquétipo aos instintos (JUNG, [1919] 1984, §271), a tendências instintivas (JUNG, [1961] 1998 § 545) ou como “manifestações psicológicas do instinto” (JUNG, [1957] 2000a §1271). Apofaticamente, para ele, arquétipo não seria “idéia hereditária” (JUNG, [1957] 2000a §1258), “especulação filosófica” (JUNG, [1954] 2000a § 1273), “idéia inata” (JUNG, [1931] 1984 § 435) ou herdada (JUNG, [1912/1952]1986 § 154), nem resíduos arcaicos (JUNG, [1957] 2000a § 1272). Além disso, buscava sempre diferenciar arquétipo de imagem arquetípica que seriam as manifestações do primeiro. Jung encontrou, também, analogias de sua concepção de arquétipo em autores de outras áreas do conhecimento como Lévy-Brühl (JUNG, [1936] 2000b § 89), Hubert, Mauss, Bastian (JUNG, [1936] 2000b § 89) e até mesmo Freud (JUNG, [1956] 2000a §1261). De acordo com os escritos de Jung, podemos perceber que arquétipo se caracteriza, entre outras coisas, como algo atemporal, autônomo, incontável (JUNG, [1936] 2000b § 99), inesgotável, inefável (JUNG, [1952] 1984 § 954), inexplicável (JUNG, [1936/1954] 2000b § 140 nota 29), anterior à consciência e que surge simultaneamente com a vida (JUNG, [1942/1948] 1983 § 222 nota 2). Além disso, não se pode abarcá-lo, por ser irracional e irrepresentável (JUNG, [1947/1954] 1984 § 417). Todavia, o arquétipo pode ser observável apenas em suas manifestações sempre mutáveis. Seria ele também algo inalterável e onipresente (JUNG, [1961] 1998 § 530) que se manifesta em aspectos físicos, psíquicos e instintivos (JUNG, [1947/1954]1984 § 417). Filosoficamente, o arquétipo se encontra numa perspectiva em que a essência precederia a existência (JUNG, [1936/1954] 2000b §136), sendo que, ao mesmo tempo, a prova da essência do arquétipo em si é uma possibilidade difícil (JUNG, [1938/1954] 2000b § 155). Por sua natureza transcendente (JUNG, [1947/1954] 1984 § 417), sua origem desconhecida e seus sentidos múltiplos (JUNG, [1934/1954] 2000b § 80), o arquétipo remete a uma questão metafísica que o próprio Jung recusa aprofundar, dizendo-se empirista (JUNG, [1938/1954] 2000b § 187). Mais que isso, o arquétipo não pode ser reduzido e o seu conhecimento é apenas aproximativo. Mas sua experiência direta é fascinante (JUNG, [1934/1954] 2000b § 82), tremenda, misteriosa, impactante e avassaladora - isto é, numinosa7 (JUNG, [1912/1952] 1986 § 467; JUNG, [1961]1998 §547; JUNG, [1957] 2000a §§ 1272 - 1273). De difícil definição, intangível e avesso a uma perspectiva conceitual, há de se ater à sua fenomenologia (JUNG, [1940] 2000b § 272), não se devendo, contudo, tentar explicá-lo, pois, segundo Jung, quem sofrerá com isso será aquele que não consegue compreendê-lo (JUNG, [1940] 2000b § 271). Diante de tudo isso, é se levado a entender que os aspectos elencados por Jung apontam para uma direção cuja idéia de arquétipo encontra, intencionalmente ou não, ressonância numa seara enigmática. Todavia, mesmo sabendo que arquétipo se trata de um modelo – e também do amplo leque de possibilidades da aplicabilidade desse modelo na clínica psicológica, na compreensão de fatos sociais8, de sua possível fenomenologia e da limitação da razão diante de aspectos psíquicos –, fica difícil estabelecer, numa busca conceitual mais apurada, uma clara linha divisória do que seria arquétipo. Jolande Jacobi, em seu livro Complexo, arquétipo e símbolo na psicologia de C.G. Jung prefaciado e referendado9 por Jung alerta que, na tentativa de se definir o que seria arquétipo, fica-se, na verdade, apenas buscando esboçá-lo ou circunscrevê-lo. Assim, acaba-se trabalhando “como se” se compreendesse o que ele é (JACOBI, [1957] 1990, p. 37). Entendo que, ao trabalhar dentro deste “como se”, torna-se mais delicado o diálogo acadêmico. Parece que se passa para uma perspectiva de não só intuir ou supor o que seria arquétipo, como também acreditar que seja algo, epistemologicamente, tangível. Entendo, ainda que essa perspectiva de crença epistemológica, amalgamada aos aspectos descritos dos arquétipos reforça a possibilidade de se inferir que a idéia de arquétipo tem, em seu bojo, significativos aspectos enigmáticos que, em meu entender, pouco esclarecem sua compreensão conceitual10.
No que se refere à inconsciente coletivo, Jung o nomeia distintamente de suprapessoal (JUNG, [1917/1943] 1978 §103), primordial (JUNG, [1956-1961] 2003b, p. 111), psique coletiva (JUNG, [1928] 1978 § 235), substrato comum da psique (JUNG, [1929/1957] 2003b §11), substrato anímico coletivo (JUNG, [1940] 2000b § 262) ou pleroma (JUNG, [1906-1945] 1999a, p. 76). De outras formas também distintas, Jung concebe o inconsciente coletivo num amplo leque epistemológico, isto é: como hipótese (JUNG, [1947/1954]1984 § 403), conceito (JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 39), idéia (JUNG, [1936] 2000b § 87), tese (JUNG, [1936]2000b § 90), suposição (JUNG, [1940] 2000b § 262), um nome para algo observável (JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 265), como algo que deve existir (JUNG, [1950] 2000b § 711) ou que existe indubitavelmente (JUNG, 1983 § 419), mas que se apresenta de maneira difícil de se provar no cotidiano das pessoas. Ao tentar compreender o que seria inconsciente em si para Jung encontra-se um paradoxo, quando ele diz que o inconsciente é incognoscível, justamente por ser inconsciente (JUNG, [1946-1955] 2002, p. 30). Corolário da noção de arquétipo, a concepção de inconsciente coletivo poderia ser observada na manifestação de motivos universais que se manifestam em mitos, delírios e sonhos. Pelo que se pode depreender, Jung propõe ao inconsciente coletivo uma circunscrição praticamente ilimitada. Afinal, se o inconsciente, de uma maneira geral, é vida (JUNG, [1939] 2000b § 521), o inconsciente coletivo, certamente, também está associado a essa perspectiva. De forma não menos ampla, também foi circunscrito a uma sabedoria (JUNG, [1906-1945] 1999a p.100) inteligência e propósito (JUNG, [1939] 2000b § 509). É portador de uma criatividade (JUNG, [1906-1945] 1999a, p. 226), de uma espécie de consciência (JUNG, [1939] 2000b § 506) e de uma pré-existência que afeta nossa liberdade (JUNG, [1929] 1984 § 230). Originário no passado e apontando para o futuro (JUNG, [1939] 2000b § 498), é criador de uma compensação curativa à consciência (JUNG, [1946-1955] 2002, p. 82). Autônomo (JUNG, [1939] 2000b § 497) e independente, é onipresente e universal (JUNG, [1958] 1999b § 565), com ramificações somáticas e psíquicas (JUNG, [1929] 1984 § 231). É o somatório dos arquétipos e dos instintos (JUNG, [1919]1984 § 270), suprapessoal (JUNG, [1917/1943] 1978 § 103), e com ele somos o objeto, e não o sujeito (JUNG, [1934/1954] 2000b § 46). Conceitualmente, mostra que somos todos iguais perante ele (JUNG, [1935] 1998 § 87), que é imutável e apresenta conteúdos numinosos (JUNG, [1957/1959] 1999b § 549). Desconhecido (JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 175), é um nomen de aspectos demonstráveis (JUNG, [1906-1945]1999a, p. 334). Sem dúvida alguma, a concepção de inconsciente coletivo é deveras interessante e fascinante e - de forma análoga à idéia de arquétipo – é uma possível chave de leitura para diversos fenômenos históricos, culturais, antropológicos e clínicos. Todavia, quando se depara com essas circunscrições tão amplas e nestes como se da concepção de inconsciente coletivo, fica-se, novamente dentro do pensamento junguiano, numa seara do intangível, ao se buscar uma precisão maior. Numa de suas cartas, Jung assevera que a “imperfeição chocante da imagem de Deus precisa ser explicada ou entendida. A analogia mais próxima dela é nossa experiência do inconsciente” (JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 150). Este terreno intangível nos deixa, nas palavras de Jung, diante do inconsciente que é “uma charada que qualquer um [pode] refletir sobre ela” (JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 175). Nesse sentido, a impressão que se tem, ao ler os textos de Jung, é que eles apontam para um território hipoteticamente tão amplo, que possivelmente nos perderíamos ao percorrê-lo. Por outro lado, ao mesmo tempo, também sugerem que o mapa conceitual/epistemológico oferecido por ele para percorrer esse território pode ser limitado e, ainda, deixar áreas incógnitas ou pouco sinalizadas. SI-MESMO Em relação ao si-mesmo, Jung diz que essa idéia poderia ser observada anteriormente tanto no oriente quanto no ocidente (JUNG, [1956-1961] 2003, p. 165). Por outro lado, seria também apenas um nome para um fator psíquico empírico, porém incognoscível (JUNG, [1944] 1991b § 327). Mais que isso, um conceito-limite que se manifesta através de um amplo simbolismo associado à totalidade. Desta forma, apesar de não aceitar que suas concepções possam ser questionadas por um viés filosófico, o si-mesmo é definido por ele mesmo, filosoficamente, como um “conceito limite, algo como a ‘coisa-em-si’ de Kant” (JUNG, [1944] 1991b § 247)11. Ao longo da construção de sua idéia de si-mesmo, Jung explicitou a dificuldade na tentativa de uma definição mais precisa. Sem hesitar, assume, de forma aparentemente tranqüila, a “obscuridade” (JUNG, [1944] 1991b § 247), a incognoscência, seu aspecto paradoxal (JUNG, [1951] 1990 §§ 257, 341, 355), “absoluto” (JUNG, [1942/1948] 1983 § 233), seu caráter “indefinível” e “indescritível” (JUNG, [1944] 1991b §§ 20-22). Enfim, um si-mesmo que é algo que não devemos nem tentar compreender (JUNG, [1946-1955] 2002, p. 350). Em face desses aspectos, de difíceis articulações dentro de uma dinâmica acadêmica, Jung procurou sustentar e ratificar sua idéia de si-mesmo como algo empírico em diversos momentos de sua obra12. Todavia, esse limite epistemológico traçado por Jung ao longo de seus textos parece ser afetado, quando o mesmo afirma, num momento de definição mais tardia (1958) nas definições de Tipos Psicológicos13, que, “na verdade”, seria um conceito “empírico em parte” (JUNG, [1921/1958] 1991a § 902). Por esta tentativa de definição e pelo que foi visto até então, o que podemos depreender é que a concepção de si-mesmo também caminha para uma região pouco estável e distanciada de uma afinação mais conceitual. Esta situação se apresenta de forma mais evidenciada quando nos aproximamos das características do si-mesmo, apontadas por Jung, não só de indissociabilidade com a imago dei (JUNG, [1951] 1990 § 73, 42, 320) (JUNG, [1942/1948] 1983 § 233), como também de intangibilidade, inefabilidade, incomensurabilidade, incognoscibilidade (JUNG, [1944] 1991b § 327), atemporalidade (JUNG, [1949] 2000a § 1419), incorruptibilidade, eternidade (JUNG, [1954] 2000a §1567) e transcendência (JUNG, [1946-1955] 2002, p. 284). O que chama a minha atenção é que essa idéia se baseia na perspectiva daquilo que Jung classificou de “empírico em parte” (JUNG, [1921/1958] 1991a § 902). Mostrando-se como um conceito impermeável, ou inadequado, a uma crítica epistemológica, trabalha-se, mais uma vez, partindo da “hipótese” ou “postulado” (JUNG, [1921/1958] 1991a § 902) do si-mesmo como se fosse algo totalmente empírico, o que o próprio Jung afirma não ser, ao final de sua vida. Numa passagem de Aion, Jung diz que o si-mesmo é um fator psíquico de que só se pode ter uma
idéia satisfatória [...] a partir de uma experiência
mais ou menos completa [...] [que] trata de fatos e [...]
o chamado conceito, neste caso, não é mais do
que uma descrição ou definição resumida
desses fatos. [...] Não se trata do conceito, mas sim de uma
palavra, de uma ficha de jogar que só tem importância e
aplicação por representar a soma das experiências
que, lamentavelmente [diz Jung], não posso transmitir aos meus
leitores [...] Sempre que meu método é aplicado [,
afirma Jung, descrição da natureza dessas experiências
e o método de obtê-las], são confirmadas as
minhas indicações referentes aos fatos. [E finaliza,]
na época de Galileu qualquer um poderia ver as luas de
Júpiter, se se desse ao trabalho de usar o telescópio
por ele inventado. (JUNG, [1951]
1990 § 63)
Nesse sentido, se é levado a crer, diante do que foi apresentado até então, que o telescópio utilizado por Jung é o seu próprio olhar. Assim, ainda em relação ao si-mesmo, cumpre dizer que aquilo que externa e aparentemente mais fragiliza o ponto de vista de Jung – observação e compreensão do material empírico ou “empírico em parte” (JUNG, [1921/1958] 1991a § 902) – só se sustenta ou realiza, quando se parte do próprio universo de construtos junguianos. Um universo que só é plausível, se levarmos em conta os aspectos propostos de sua própria teoria, mas que, fora dela, ancora-se em local incerto.
A partir das tentativas de depreensão do que Jung afirmou acerca do que seria arquétipo, inconsciente coletivo e si-mesmo chama a atenção a necessidade de Jung apontar o caráter científico de suas idéias e de elas serem baseadas em questões empíricas (JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 255-256, 259, 260, 265, 266). Consoante a isso, observa-se também uma busca de se desvincular de uma imagem de filósofo(JUNG, [1956-1961] 2003a, p. 39), apologeta, teólogo (JUNG, [1956/1957] 2000a § 1669) ou místico (JUNG, [1939] 2000b § 506, 507) . Entretanto, pensando mais especificamente na questão que desejo partilhar, percebe-se que as construções das concepções de arquétipo, inconsciente coletivo e si-mesmo possuem contornos delicados que dificultam uma tentativa de aproximação mais apurada de conceitos. Sem restringir a teoria junguiana à apenas esses três aspectos, pode-se observar que os mesmos são definidos insuficientemente, tornando-os pouco talhados para um avizinhamento do tipo conceitual. Os pontos de vista de Jung parecem não bem definidos, implicando, assim, numa teoria que mais se aproxima de uma possibilidade de circunscrição do que descrição. Além disso, epistemologicamente, seus termos são também pouco definidos e possuem, por vezes, contornos distintos. Parece que o próprio Jung via sua teoria como inacabada14 e não se incomodava muito com isso. Sugere assim, ser ela um corpo teórico em aberto que apresenta uma estrutura articulada de forma, por vezes, pouco coerente. Partindo aparentemente de uma perspectiva aberta e inclusivista, seus textos parecem divagar por tangentes, ao invés de apontar objetivamente idéias de uma maneira mais formal ou sistematizada. Essa perspectiva sugere seu método de amplificação (JUNG, [1935] 1998 §§ 172-173) e a busca da conjunção de opostos alquímica (JUNG, [1951] 1990 § 141). Nesse sentido, parece que Jung busca integrar à sua teoria pontos de vista distintos, não tomando posições conceituais claras, mas, sim, relativizadas e abertas a novas amplificações. São características percebidas na teoria junguiana que, em meu entender, apontam para limitações de uma criação de uma interface dialogal acadêmica dessa mesma teoria. Andrew Samuels, fecundo teórico junguiano, afirma que para aqueles que desejam um maior rigor científico, “a psicologia junguiana será sempre deficiente” (SAMUELS, [1985] 1989, p. 22) e cita E. Glover, que afirma que numa perspectiva científica “Jung é, na melhor das hipóteses, um escritor confuso” (GLOVER, 1950, p. 69 apud SAMUELS, [1985] 1989, p. 22). Ora, o confuso pode e deve ser discutido. Todavia, devemos ter referenciais que nos dêem subsídios para que possamos construir esta discussão. Tudo isso indica que o pensamento junguiano necessitaria de uma estrutura lógica mais consistente, viabilizando uma categorização de seus termos e construtos teóricos para que se possa tê-la como referencial em condições de discussão acadêmica. Quando se lida com a obra de Jung, nota-se que seus conceitos vão se modificando ao longo da mesma não só numa tentativa de uma delimitação e clareamento, mas, também, de amplificações que vão assimilando novas possibilidades. Existencialmente isso é extremamente louvável, entretanto do ponto de vista acadêmico mais parece dificultar do que facilitar. Entendo que a teoria junguiana nunca irá se encaixar numa perspectiva cartesiana e nem é essa a minha proposta. Todavia, é necessária uma articulação conceitual mais precisa dessa teoria. Sua falta de definição de conceitos claros, nos leva a perceber que sempre existe a possibilidade de um devir conceitual que nos deixará epistemologicamente perdidos, dentro da incomensurabilidade coletiva e arquetípica que o próprio Jung atribuiu à psique. Assim sendo, é se levado a crer que da forma como se encontram suas definições, conceitos e construções teóricas, elas sempre estarão fragilizadas para uma aproximação dentro de um viés acadêmico. Nesse sentido, se estiver correto em minha percepção, talvez seja este um dos caminhos (e não o único) para compreender o motivo da teoria de Jung, num sentido mais amplo, ter pouca inserção no meio acadêmico, criando assim, uma reserva desse meio em relação a esta teoria. Enquanto junguiano, penso que precisamos nos esforçar numa perspectiva de autocrítica para perceber as possíveis dificuldades teóricas dessa linha de pensamento psicológico. Certamente há uma dificuldade em analisar criticamente um autor com o qual nos identificamos. Mas entendo que há a necessidade de fazê-lo para evitarmos a criação de dogmas em nossas convicções teóricas. Acredito que isso nos preservará da possibilidade de um dogmatismo ou fundamentalismo junguiano. Nesse sentido, penso sempre ser relevante inquirir se estamos utilizando conceitos junguianos, sem questioná-los, dentro de um viés que os articula - parafraseando novamente Jolande Jacobi (JACOBI, [1957] 1990, p. 37) - como se fossem verdades e, mais preocupante ainda, orientando-nos por essas verdades. Se esses conceitos se transformarem em verdades ou dogmas teóricos inquestionáveis dentro do meio junguiano, é-se levado a crer que estaríamos nos aproximando mais de uma dinâmica da crença do que da construção de um saber psicológico e, assim, começaríamos a acreditar em vez de pensar em Jung. Apesar do próprio Jung apontar sua teoria como algo aberto e achar interessante que outros se aproximem e aprofundem suas concepções, não tenho aqui a pretensão de propor algo inovador. Todavia, acredito que se possa contribuir dizendo que a mesma necessita trabalhar na busca de elementos conceituais mais afinados. Penso que este seja um grande estímulo provocador para nós, junguianos. Dialogar com o meio acadêmico, auto-questionar e ao mesmo tempo não perder a identidade junguiana é extremamente instigante e inquietante. Poderia, unilateral e limitadamente, ater-me a uma crítica árida racionalista de um lado ou, então, por outro, deixar-me seduzir apenas pelas imagens arquetípicas em detrimento da construção de um saber psicológico acadêmico. Todavia entendo que nenhum desses caminhos seria interessante. Sustentar e vivenciar este aparente conflito de opostos, parece-me ser o caminho mais frutífero em busca de um amadurecimento.
Encontrei um caminho ou um convite paradoxal
numa passagem do livro Psicologia e
Alquimia e chamo os junguianos a
participar dessa apreensão quando Jung afirma:
Os próprios alquimistas diziam: “Rumpite libros, ne
corda vestra rumpantur” ([isto é], Rasgai os livros para
que não se rompam vossos corações). Mas por
outro lado [prossegue Jung, os alquimistas ] insistiam justamente na
continuidade do estudo dos livros. (JUNG [1944] 1991b § 564)
Nessas buscas, questionei-me diversas vezes se continuaria sendo junguiano e a imagem que sempre me arrebatava era a de estar serrando o próprio galho em que sentava. Confesso que muitas vezes essa questão me angustiou. Como questionar um autor que é minha própria referência? Questionar significa romper? Hoje, de forma mais tranqüila, uma outra imagem se apresenta desdobrando-se àquela do galho que sentava e, ao mesmo tempo, serrava. Esse desdobramento me leva a entender que grandes árvores precisam de podas que só farão brotar novos ramos. Mais que isso, sentar-se em galhos frágeis não vale a pena e que, mesmo com possíveis galhos frágeis, a teoria junguiana continua sendo ainda uma grande árvore que, como tudo, precisa ser constantemente cuidada. Enfim, minha visão de Jung hoje é mais amorosa que apaixonada.
REFERÊNCIAS BONFATTI, Paulo. A expressão popular do sagrado: uma análise psico-antropológica da Igreja Universal do Reino de Deus. São Paulo: Paulinas, 2000a. _____. A questão do mal: uma abordagem psicológica junguiana. Rhema, Juiz de Fora, v. 6, n. 22, 2000b. _____. Considerações e desdobramentos acerca da psicologia da religião. Diálogo, São Paulo, ano VII, n. 25, fev. 2002. ______. Uma psicologia sine tempore: uma análise das concepções de arquétipo, inconsciente coletivo e si-mesmo na teoria de Carl Gustav Jung. 2007. 119 f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) - PUC/Rio, Rio de Janeiro, 2007. CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, [1982] 1993. CARD, Charles. The emergence of archetypes in present-day science and its significance for a contemporary philosophy of nature. [S. l.: s. n.], 1996. Disponível em: www.compilerpress.atfreeweb.com/Anno Card Archetypes & Modern Science 1996.htm . Acesso em: 10 abr. 2008. FREITAS, Laura Villares de. O ensino da psicologia junguiana no IPUSP: conquistas e desafios. In: Congresso Latino-Americano de Psicologia Junguiana, III., 2003, São Paulo. Anais... São Paulo: Lector, 2004. p. 411-416. JACOBI, Jolande. Complexo, arquétipo, símbolo na psicologia de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, [1957] 1990. JUNG, Carl Gustav. Estudos sobre psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 1978. (Obras completas de C. G. Jung, v. VII) _____. Psicologia da religião ocidental e oriental. Petrópolis: Vozes, 1983. (Obras completas de C. G. Jung v. XI) _____. A dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1984. (Obras completas de C. G. Jung, v. VIII) _____. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1986. (Obras completas de C. G. Jung, v. V) _____. Aion – estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, [1951] 1990. (Obras completas de C. G. Jung, v. IX/1) _____. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, [1921] 1991a. (Obras completas de C. G. Jung, v. VI) _____. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, [1944] 1991b. (Obras completas de C. G. Jung, v. XII) _____. Memórias, sonhos e reflexões (reunidas e editadas por Aniela Jaffé). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, [1961] 1996. _____. Vida simbólica I. Petrópolis: Vozes, 1998. (Obras completas de C. G. Jung v. XVIII/1) _____. Cartas I. Petrópolis: Vozes, [1906-1945] 1999a. _____. Psicogênese das doenças mentais. Petrópolis: Vozes, 1999b. (Obras completas de C. G. Jung, v. III) _____. Vida simbólica II. Petrópolis: Vozes, 2000a. (Obras completas de C. G. Jung, v. XVIII/2) _____. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000b. (Obras completas de C. G. Jung, v. IX/1) _____. Cartas II. Petrópolis: Vozes, [1946-1955] 2002. _____. Cartas III. Petrópolis: Vozes, [1956-1961] 2003a. _____. Estudos alquímicos. Petrópolis: Vozes, 2003b. (Obras completas de C. G. Jung, v. XIII) _____. (Org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, [1964] [19--?] KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, [1781]1994. NEUMANN, Erich. História da origem da consciência. São Paulo: Cultrix, [1954] 1995. OTTO, Rudolf. O sagrado. Portugal: Edições 70, [1917] [19--?]. PENNA, Eloísa Marques Damasco. Jung e a alma brasileira. In: Congresso Latino-Americano de Psicologia Junguiana, I., 1998, Uruguay. Anais... Uruguay: Faculdad de Psicologia y Educación de la Universidad Católica del Uruguay, 2000. p. 177-178. PIERI, Paolo Francesco. Dicionário junguiano. São Paulo: Paulus, [1998] 2002. SAMUELS, Andrew. Jung e os pós-junguianos. Rio de Janeiro: Imago, [1985] 1989. SHAMDASANI, Sonu. Memórias sonhos, omissões. 1995. Disponível em: <http://www.rubedo.psc.br/Artigos/memorias.htm> Acesso em: 07 jul. 2008. TRACEY, David. Jung on Academy. The Journal of Analytical Psychology, v. 42, p. 2, abr. 1997. VERÍSSIMO,
Luiz José. A experiência
religiosa como expressão do si mesmo – um
estudo a partir do pensamento de C. G. Jung. 1997.
? f. Dissertação
(Mestrado em Filosofia)- UERJ/IFCH, Rio de Janeiro, 1997. 1Trabalho apresentado no XVI Congresso Internacional da Associação Junguiana do Brasil em setembro de 2008 (Rio de Janeiro – Brasil). 2Tal situação é apontada tanto pelos junguianos no Brasil (FREITAS, 2004; PENNA, 1998), quanto no exterior (TRACEY, 1997). 3Essa aplicabilidade foi articulada e constatada em outros trabalhos (BONFATTI, 2000a; BONFATTI, 2000b; BONFATTI, 2002; BONFATTI, 2007). 4Sobre este livro, Sonu Shamdasani, em seu artigo – sugestivamente intitulado “Memórias, sonhos, omissões” (SHAMDASANI, 1995) – não só relativiza as informações existentes, como também questiona o fato de ser um livro autobiográfico, mas sim uma biografia de Jung escrita por Aniella Jaffé. Mais que isso, aponta também uma série de omissões que ocorreram em sua escrita. 5Precisamos também relativisar a fidedignidade das Cartas, segundo Sonu Shamdasani: “Em uma entrevista, ela [Aniela Jaffé] recordou que, depois da morte da esposa, Jung não se sentia disposto a responder sua correspondência e que ela respondeu muitas cartas em seu nome, lendo para ele suas respostas, as [sic] quais, às vezes, ele fazia poucas correções. Essa afirmação espantosa não deixa claro, precisamente, quantas cartas de Jung, durante esse período, foram escritas dessa forma. As últimas cartas de Jung, [...] de suas cartas selecionadas, que Aniella Jaffé editou com Gerhard Adler, são comumente tidas como possuindo suas mais sábias e mais humanas afirmações. Quantas dessas foram, na verdade, trabalho de Aniella Jaffé?” (SHAMDASANI, 1995) 6Um aspecto peculiar das Obras completas de Jung é o fato de ter sido convencionado, internacionalmente, que as indicações são feitas em parágrafos (§) como forma de facilitar a localização do texto citado, independentemente do idioma ou da edição do livro em questão – neste sentido, optei por também seguir esta mesma forma de indicação bibliográfica. 7Ao se referir ao aspecto numinoso do arquétipo, Jung se remete a Otto (JUNG, [1938/1940] 1983 § 6), em sua obra O sagrado (OTTO, [1917] [19--?]). Curiosamente, esse autor, ao falar dos “elementos do numinoso”, antes de descrever “a reacção provocada na consciência pelo sentimento do objecto numinoso [sic]” (OTTO, [1917] [19--?], p. 17), adverte o leitor de maneira singular: “Convidamos o leitor a fixar a atenção num momento em que experimentou uma emoção religiosa profunda e, na medida do possível, exclusivamente religiosa. Se não for capaz ou se até não conhece tais momentos, pedimos que termine aqui a sua leitura. (OTTO, [1917] [19--?], p. 17).” Luiz José Veríssimo, em sua dissertação de mestrado A experiência religiosa como expressão do si mesmo – um estudo do pensamento de C.G. Jung, afirma que Otto, nesta passagem, “parece negar qualquer acesso a um entendimento do numinoso” (VERÍSSIMO, 1997, p. 37). Afinal, suas “afirmações [...] provocam a impressão de nos deixar numa aporia. Pois, se é tão problemática a apresentação do sagrado pelo discurso conceitual, como se justifica a elaboração de uma obra versando sobre um tema que é considerado inexprimível em seus próprios fundamentos?” (VERÍSSIMO, 1997, p. 37). 8Além das áreas citadas aponto o interessante artigo “The emergence of archetypes in present-day science and its significance for a contemporary philosophy of nature” de Charles R. Card que discorre sobre o surgimento da concepção de arquétipo no meios acadêmicos de diversas outras áreas do conhecimento da ciência contemporânea, como computação, biologia e sistemas não lineares (CARD, 1996) 9Jung não só prefaciou este livro de Jacobi, como também o texto deste prefácio está contido em suas Obras completas em Vida simbólica II - volume XVIII/2: “Komplex, Archetypus, Symbol in der Psychologie C.G. Jungs” (JUNG, [1957] 2000a §§ 1256-1258). Nesse sentido Jung não só referendou Jacobi como também afirma que se sentiu plenamente compreendido por ela. 10Pieri parece direcionar-se numa orientação semelhante ao afirmar que “no plano epistemológico a psicologia analítica acaba por indulgenciar em enrijecimento meta ou extrapsicológicos onde formula acriticamente a noção de arquétipo” (PIERI, [1998] 2002, p.50). 11O que se depreende da expressão coisa em si, utilizada por Kant na Crítica da razão pura (KANT, [1781] 1994), é que ela “remete a algo que existe em si mesmo, diferentemente do fenômeno que se apresenta. É algo que não é passível de ser objeto de conhecimento científico, por ser inacessível ao conhecimento humano. Isso ocorre por encontrar-se numa instância que extrapola os limites das estruturas do próprio ato cognitivo” (BONFATTI, 2007, p.83) 12Cito, exemplarmente, (JUNG, [1952] 2000a § 1511; JUNG, [1951] 1990 § 59; JUNG, [1952] 2000a § 1511; JUNG, [1951] 1990 §59; JUNG, [1921] 1991a §902). 13Em 1958, Jung escreveu “especialmente” a definição de si-mesmo para a XI parte – “Definições” – na edição daquele ano de seu livro Tipos psicológicos (JUNG, [1921/1958] 1991a § 902 nota 72). 14Ver prefácio de Jung no livro do analista junguiano Erich Neumann História da origem da consciência. ([1954] 1995, p. 11-12). |