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AS FERIDAS DO PATINHO FEIO
Uma Visão Junguiana do Conto de Hans Christian Andersen

 

Wagner de Menezes Vaz1
Rafael Rodriguez2

 

Trabalho originalmente apresentado no evento Contos de Andersen – Leituras Psicológicas, promovido pela Rubedo em junho de 2008.


Em 1843, Hans Christian Andersen publica este que é o seu mais famoso conto e, posteriormente, sendo traduzido para o inglês e o alemão, obtém grande receptividade o que o projetaria definitivamente como um renomado escritor. Filho de sapateiro e de lavadeira, apesar das dificuldades, nunca desistiu de seu interesse pela arte.

A infância pobre teve grande influência em seus escritos. Que sentimentos se ocultavam por trás deste homem castigado pela vida e que, até aquele momento, não havia se revelado com grande sucesso em sua carreira literária? Teria sido este o motivo da criação de seu “Patinho Feio” que se tornou um belo cisne e que atingiu a felicidade quando amadureceu?

O “Patinho Feio” é considerado o conto mais autobiográfico de suas obras. Como disse um de seus biógrafos, Jens Andersen (2005, tradução nossa), “[...] mais que qualquer outro conto antes contado, este seria sobre ele.” Não tanto pelo fato dele também não possuir atributos estéticos como o patinho feio, mas porque tal sucesso, coincidentemente, só veio com o lançamento deste conto, já adulto, aos 38 anos de idade, chamando a atenção de todos para o grande escritor de contos de fada, romances, e até mesmo de livros de viagem que ele era. Andersen pode até ter sido rejeitado pela Grande Mãe da vida, por conta de sua infância difícil e pobre, mas não por seus pais.

Vejamos algumas passagens do conto. Uma ave que nasce em um ninho que não é o de sua espécie sofre rejeição de todos ao seu redor, exceto de sua mãe que demonstra, a princípio, uma clara esperança que seu filho se torne o mais bonito e o melhor nadador, até finalmente cair no discurso social e desejar não vê-lo mais devido à sua feiúra. Assim, sem opção, ele sai para a vida sozinho e sem rumo, pretendendo viver sem saber como, sobreviver sem saber por que, procurando viver longe de um lugar onde o rejeitaram. Porém, sabendo que nunca deixaria de ser o feio e considerado persona non grata por todos de sua comunidade, ele se torna o espelho do que lhe atribuíram ser.

Quando os filhotes nascem, a primeira coisa que buscam é um rosto no qual se mirar. Ao se defrontar com este rosto, eles o reconhecerão como sendo o de sua mãe. E os patinhos irão segui-la até estarem maduros. O que chama a atenção neste conto de Andersen é a questão da identidade e de como esta é construída a partir do reflexo. Mario Jacoby (1984, p.47) irá se referir a isto como ressonância empática, conceito este desenvolvido por Kohut. Então vejamos: a primeira reação da mãe ao ver seu filho desengonçado foi de espanto. E foi através desta reação, através do reflexo especular materno, que travou seu primeiro contato com o mundo. O mundo lhe dizia: - “Como és feio!”. Uma ferida narcísica se faz presente – existem outros mais afortunados, com mais sorte e possibilidades. São mais bonitos e contam com a aceitação social.

Uma ferida narcísica é uma ferida emocional, difícil muitas vezes de ser curada. Ela é um impeditivo à construção de uma identidade e, por conseguinte, dificulta a criação de uma maneira própria de viver. As animosidades constantes entre a mãe e o patinho feio acabaram por forçar a um corte prematuro dos laços afetivos. A falta de um sentimento de pertença, que confere identidade ao indivíduo, inexiste no patinho feio. Não existem laços que o liguem à sua família e nem tampouco à sua comunidade. Sua auto-estima fica comprometida. No conto, ao fugir pelas moitas, o patinho feio espanta os pássaros aninhados, afirmando para si: “Deve ser porque sou tão feio!”. A identidade se constrói mediante a formação de laços sociais e, por conseguinte, no diálogo com a alteridade. Caricaturalmente, a ausência de laços favorece o patinho feio, de forma que ele afirma: “[...] Sou tão feio que nem o cachorro me quis morder”. Neste caso a estratégia de acatar o discurso da feiúra atua como uma defesa narcísica a fim de proteger o Ego da dor.

A natureza muitas vezes pode parecer cruel proporcionando experiências desafiadoras ao recém-nascido, porém sua sobrevivência dependerá desta sua capacidade de adaptação. A mamãe pata como uma representante do discurso social procura transmitir os valores. Ela diz: “Vejam só! Assim é o mundo!”. Fisicamente um pato deve ter atributos que o caracterize como tal e suas funcionalidades devem estar operantes. É assim que se comporta um pato. O nosso personagem destituído, para aquele meio específico, dos atributos esperados não tem o reconhecimento do seu entorno de que ele era de fato um pato. Seus atributos confundem sua família e a vizinhança. A mãe se encontra perturbada; seu instinto de mãe entra em atrito com os valores sociais. No começo, ela defende seu rebento procurando, compensatoriamente, ressaltar-lhes as qualidades – “[...] Se quer que o diga, nada até um pouco melhor [...] é um pato macho, e aí não importa tanto”. Ao mesmo tempo em que seu instinto materno a conduz a um comportamento protetor para com o desajeitado, ela tem dúvidas com relação a ser ele um de sua espécie. Os valores se impõem – “[...] Larga-o aí e ensina os outros filhotes a nadar”. A identidade grupal torna-se ameaçada ante a consciência das diferenças.

Sendo assim, o patinho teve uma vida miserável até atingir sua maturidade, correndo risco de vida o tempo todo, sendo perseguido e depreciado. Por conta disto, sente medo de tudo, até de quem não lhe quer mal; sente-se um sem-lugar no mundo, ou melhor, ocupa esta posição de não-aceito, não-visto, não-querido.

Numa tarde de fim de outono, o patinho feio avistou à beira do lago aves enormes e alvas que levantavam vôo rumo a terras mais quentes e sentiu uma irresistível vontade de acompanhá-las. Citando o conto: “Como poderia ter ousado desejar para si uma tal delícia [a de voar como os cisnes] ele que já se teria dado por muito feliz se os patos o tivessem tolerado em sua companhia, pobre bichinho feio?”. Neste episódio o patinho feio descobre o que é a felicidade; por aquelas aves sente uma identificação inexplicável, mas que gera um sentimento de nostalgia "não-vivida", uma melancolia do desconhecido, como se seu inconsciente gritasse em sua surdez. Diante deste ímpeto pela felicidade, e após passar por possibilidades de aceitação, experiências tristes e aterradoras que só reforçavam a utopia de um dia ser feliz, decide no início da primavera, após novamente avistar os cisnes, entregar-se a sua pulsão de vida (ou seria de morte?) e arriscar sua inútil existência de dor à possibilidade de estar perto das criaturas mais felizes da Terra, por um instante que fosse, como se pudesse se contagiar de tanta alegria, e podendo mesmo ser ferido até a morte por aqueles grandes pássaros. Mal percebeu ele que também havia se tornado um grande pássaro e, como Narciso, somente ao ver seu reflexo na água do lago, foi capaz de se apaixonar por si mesmo e reconhecer a magnitude de seu ser. Só a partir deste momento sentiu alívio e satisfação por ter vivido tudo o que viveu, pois o que lhe aguardava após o enamoramento pela vida seria venturoso. Agora era elogiado como o mais belo dos belos. A experiência de contemplar sua imagem refletida na água foi de fato uma experiência numinosa e redentora.

Uma dinâmica muito parecida e comum ocorre na sociedade ocidental pós-moderna, no que tange ao papel do localizador para um problema familiar ou social, geralmente em um dos integrantes da família ou da sociedade. Algumas patologias psíquicas familiares e grupais são, fazendo-se uma análise atenta, centradas em indivíduos específicos, geralmente um dos filhos, ou moradores de rua, por exemplo, mirando-os como os culpados pela desordem, ou os doentes destacados do todo. Nunca como o retrato da doença coletiva ou o espelho de um traço comum a todos os integrantes de tal coletividade. Filhos drogadictos, pais problemáticos, sujeitos exageradamente “avoados” ou acomodados, esotéricos e fanáticos religiosos, obsessivos e sistemáticos, hoje em dia toda diferença é um “gancho” para eleger um localizador de problemas.

Nos dias de hoje, Jacoby (1984, p.47) admite que “[...] teria dificuldade em citar pessoas que, num maior ou menor grau, não sejam vulneráveis a flutuações narcisistas, [...] que nunca caiam numa inflação irrealista ou que nunca sejam alcançadas por sentimentos de total desmerecimento”. Diz ainda estar havendo muita discussão sobre o aumento dos chamados distúrbios de personalidade, diagnóstico um tanto vago, que cobre uma gama enorme de pessoas, inclusive nós, que podemos a qualquer momento sofrer de complexos de inferioridade ou supercompensações. Portanto, elegemos patos feios para tudo e criamos com muita competência, filhos e indivíduos neuróticos e hipocondríacos, como era considerado inclusive o próprio Andersen à época.

Então perguntamos: Como fica o sujeito perante o discurso social da rejeição e do preconceito? O nosso personagem assimila este discurso e entende que a feiúra é um peso para si e para os outros. Kohut cita um fenômeno que ele denominou de mirroring (espelhamento) para descrever o “the gleam in mother’s eye” (o brilho no olho da mãe) que se constitui na “[...] empatia ótima parental que é base para um sentimento saudável de valor próprio”. (KOHUT, 1977, apud JACOBY, 1991, p.39, tradução nossa). Este fenômeno se configura como uma resposta à atuação narcísico-exibicionista da criança, confirmando sua auto-estima, ou seja, funciona como um espelho ao refletir o amor e o deslumbramento que a mãe sente por seu filho, fazendo com que ele se sinta confirmado, admirado e entendido como ser humano. Neste momento consideramos oportuna a transcrição de uma reflexão de Kohut acerca deste fenômeno, extraída do livro “Shame and the origins of self-esteem”.

      [...] algo mais ocorre quando o self está se formando; não só o self deseja ser admirado e enfaticamente entendido pelo ‘Self-objeto’ (o cuidador); o self experiencia este self-objeto (pai ou mãe) como onipotentes e perfeitos; já que [...] o self-objeto dificilmente pode ser distinguido do próprio mundo do self, a perfeição atribuída ao self-objeto implica na própria perfeição da criança; a criança num sentido se funde com o self-objeto o qual o experiencia como idealizado, onipotente e perfeito; o desapontamento na percepção gradual que os pais são dificilmente todo-poderosos pode criar um efeito de ‘internalização transmutadora’ que cria estruturas que podem se tornar matrizes para o desenvolvimento de ideais (em termos junguianos, seria o recolhimento das projeções).

      Em outras palavras, a auto-estima pode ser criada e mantida por meio de ideais que emergem fora da fusão com o self-objeto idealizado; estes ideais são convincentes e podem se tornar modelos para sua própria conduta. (KOHUT, 1971,1977, apud JACOBY, 1991, p.39-40, tradução nossa).

Esta reflexão pode ser constatada no conto quando, ao final, o patinho feio se transforma em cisne; mesmo ciente de que é belo e de que é reconhecido e amado pelos que estão a sua volta, ele se diz até satisfeito com as angústias e adversidades sofridas e que sentia agora a ventura, as maravilhas que o aguardavam. “Sentiu-se muito feliz, mas não ficou vaidoso nem soberbo, pois um bom coração nunca se torna soberbo.”

Se voltarmos à atenção para o próprio Andersen, seus contos deram um lugar à criança, ou seja, ela passa a ser um sujeito ativo e não passivo em suas estórias. Foi através de suas obras que a criança e a infância tiveram espaço na literatura. Seu desejo íntimo maior era apenas o de ser distinguido. As dificuldades reais ou imaginárias de Andersen, refletidas no personagem autobiográfico vão de encontro a uma reflexão de Jacoby (1984) que afirma que “[...] o equilíbrio narcísico deve ser mexido para que os processos de amadurecimento aconteçam”.

Vamos observar que existe no conto um sentimento no patinho feio que se apresenta como um estranhamento. Ao entrar em contato com cisnes adultos ele se vê aturdido pela beleza daquelas aves lindas e felizes. Ele pensa consigo mesmo: “Não sabia o nome daquelas aves, nem para onde voavam, mas apesar disso gostava delas como nunca antes gostara de alguém.” Poderíamos perguntar o que no patinho apontava para algo diferente de si? Que processo estaria em movimento a ponto de desejar para si tamanha felicidade representada pela numinosidade experimentada pela visão daqueles magníficos cisnes? As agruras porque passou o patinho não foram poucas. Poderia ele ter se resignado à sua feiúra e se submetido às pressões externas e se adaptado a ponto de negar-se completamente. No entanto, com todo o sofrimento um impulso mais forte o motivou a ir a campo, a buscar não se sabe o quê. É certo dizer que os acontecimentos externos foram grandes catalizadores desta busca. É uma estória de superação. O mundo interior frente às pressões normatizadoras do mundo exterior. Jung (1981, p.525) irá definir que

      a individuação é, portanto, um processo de diferenciação cujo objetivo é o desenvolvimento da personalidade individual. A necessidade de individuação é natural, enquanto que o impedimento da individuação por uma normalização exclusiva ou preponderante, de acordo com os padrões coletivos, será prejudicial para a atividade vital do indivíduo, para a sua vivência pessoal.

Ao partirmos da idéia de que o sentimento de não pertença possa também estar associado a uma imagem (vide a rejeição de sua mãe), o patinho feio ao considerar seu estranhamento frente ao seu meio corresponderia a um investimento de libido na consciência e, a partir do momento em que na presença de outros cisnes, sem que perceba, faz um movimento de pescoço que culmina com um grito agudo típico da espécie, isto por si só já se constitui numa pequena resposta individuadora. O que importa, neste momento, falando em termos analíticos é a interação do sujeito com seu inconsciente (o investimento pessoal da libido), que corresponde ao estabelecimento de uma ligação do eu com o self. O Self, portanto, estaria atuando como o centro regulador da psique, o spiritus rector inconsciente, podendo seus conteúdos, sob determinadas condições, tornarem-se acessíveis ao Ego e passarem a atuar como orientadores do processo de individuação.

Jacoby (1984) vai dizer que o ser humano tem uma necessidade básica e vital de se refletir para poder se reconhecer. Necessitamos disso para nos sentirmos reais, aceitos, e assim, importantes para outras pessoas e conseqüentemente, para nós mesmos. Relembra ainda a lenda grega num hino de Píndaro na qual Zeus, após terminar sua criação, perguntou aos deuses se eles achavam que faltava algo e estes o pediram que criasse as musas, que louvariam seus feitos e seu universo, embelezando tudo através de suas palavras e música.

Assim, vemos que somente existir não é suficiente e não satisfaz. A criação e a coisa-em-si não são independentes. Os feitos de Zeus teriam que ser trazidos para a atenção consciente através de louvação. Da mesma forma, o ser humano individual precisaria ter sua frágil e vulnerável existência refletida e ressonante nos éteres. De que adianta existir, se ninguém o notará, compreenderá, amará ou apreciará o que você é e o que você faz? Diante disto, segundo Jacoby (1984), não há equilíbrio narcísico saudável que resista ou sensação de amor próprio que possa ser mantida.


Referências

ANDERSEN, Hans Christian. O Patinho Feio. In: ______. Tìtulo en negrito. Local: Editora, data. p. 240-251.

ANDERSEN, Jens. Hans Christian Andersen, a new life. Overlook Duckworth, 2005. p. 329.

JACOBY, Mario. Individuation and narcissism: the psychology of the self in Jung and Kohut. Hove: Bruner-Routledge, 1990. 267p.

JACOBY, Mario. Narcisismo e transferência. In: ______. O encontro analítico: transferência e relacionamento humano. Tradução de Claudia Gerpe. São Paulo: Cultrix, 1984. Cap. 3, p. 47-64. (Coleção Estudos de Psicologia por Analistas Junguianos).

JACOBY, Mario. Shame and the origins of self-esteem: a junguian approach. London: Bruner-Routledge, 1991. 131p.

JUNG, C. G. Definições. In: ______. Tipos psicológicos. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. Cap 11, p. 471-552.


1 Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo.

2 Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo

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