|
AS FERIDAS DO PATINHO FEIO
Uma Visão Junguiana do
Conto de Hans Christian Andersen
Wagner
de Menezes Vaz1Rafael
Rodriguez2
Em 1843, Hans Christian Andersen
publica este que é o seu mais famoso conto e, posteriormente,
sendo traduzido para o inglês e o alemão, obtém
grande receptividade o
que o projetaria definitivamente como um renomado escritor. Filho de
sapateiro e de lavadeira, apesar das dificuldades, nunca desistiu de
seu interesse pela arte.
A infância pobre teve grande
influência em seus escritos. Que sentimentos se ocultavam por
trás deste homem castigado pela vida e que, até aquele
momento, não havia se revelado com grande sucesso em sua
carreira literária? Teria sido este o motivo da criação
de seu “Patinho Feio”
que se tornou um belo cisne e que atingiu a felicidade quando
amadureceu?
O “Patinho
Feio” é
considerado o conto mais autobiográfico de suas obras. Como
disse um de seus biógrafos, Jens Andersen (2005, tradução
nossa), “[...] mais que qualquer outro conto antes contado,
este seria sobre ele.” Não tanto pelo fato dele também
não possuir atributos estéticos como o patinho feio,
mas porque tal sucesso, coincidentemente, só veio com o
lançamento deste conto, já adulto, aos 38 anos de
idade, chamando a atenção de todos para o grande
escritor de contos de fada, romances, e até mesmo de livros de
viagem que ele era. Andersen pode até ter sido rejeitado pela
Grande Mãe da vida, por conta de sua infância difícil
e pobre, mas não por seus pais.
Vejamos algumas passagens do conto.
Uma ave que nasce em um ninho que não é o de sua
espécie sofre rejeição de todos ao seu redor,
exceto de sua mãe que demonstra, a princípio, uma clara
esperança que seu filho se torne
o mais bonito e o melhor
nadador, até finalmente cair no discurso social e desejar não
vê-lo mais devido à sua feiúra. Assim, sem opção,
ele sai para a vida sozinho e sem rumo, pretendendo viver sem saber
como, sobreviver sem saber por que, procurando viver longe de um
lugar onde o rejeitaram. Porém, sabendo que nunca deixaria de
ser o feio e considerado persona
non grata por todos de sua
comunidade, ele se torna o espelho do que lhe atribuíram ser.
Quando os filhotes nascem, a primeira
coisa que buscam é um rosto no qual se mirar. Ao se defrontar
com este rosto, eles o reconhecerão como sendo o de sua mãe.
E os patinhos irão segui-la até estarem maduros. O que
chama a atenção neste conto de Andersen é a
questão da identidade e de como esta é construída
a partir do reflexo. Mario Jacoby (1984, p.47) irá se referir
a isto como ressonância empática, conceito este
desenvolvido por Kohut. Então vejamos: a primeira reação
da mãe ao ver seu filho desengonçado foi de espanto. E
foi através desta reação, através do
reflexo especular materno, que travou seu primeiro contato com o
mundo. O mundo lhe dizia: - “Como és feio!”. Uma
ferida narcísica se faz presente – existem outros mais
afortunados, com mais sorte e possibilidades. São mais bonitos
e contam com a aceitação social.
Uma ferida narcísica é
uma ferida emocional, difícil muitas vezes de ser curada. Ela
é um impeditivo à construção de uma
identidade e, por conseguinte, dificulta a criação de
uma maneira própria de viver. As animosidades constantes entre
a mãe e o patinho feio acabaram por forçar a um corte
prematuro dos laços afetivos. A falta de um sentimento de
pertença, que confere identidade ao indivíduo, inexiste
no patinho feio. Não existem laços que o liguem à
sua família e nem tampouco à sua comunidade. Sua
auto-estima fica comprometida. No conto, ao fugir pelas moitas, o
patinho feio espanta os pássaros aninhados, afirmando para si:
“Deve ser porque sou tão feio!”. A identidade se
constrói mediante a formação de laços
sociais e, por conseguinte, no diálogo com a alteridade.
Caricaturalmente, a ausência de laços favorece o patinho
feio, de forma que ele afirma: “[...] Sou tão feio que
nem o cachorro me quis morder”. Neste caso a estratégia
de acatar o discurso da feiúra atua como uma defesa narcísica
a fim de proteger o Ego da dor.
A natureza muitas vezes pode parecer
cruel proporcionando experiências desafiadoras ao
recém-nascido, porém sua sobrevivência dependerá
desta sua capacidade de adaptação. A mamãe pata
como uma representante do discurso social procura transmitir os
valores. Ela diz: “Vejam só! Assim é o mundo!”.
Fisicamente um pato deve ter atributos que o caracterize como tal e
suas funcionalidades devem estar operantes. É assim que se
comporta um pato. O nosso personagem destituído, para aquele
meio específico, dos atributos esperados não tem o
reconhecimento do seu entorno de que ele era de fato um pato. Seus
atributos confundem sua família e a vizinhança. A mãe
se encontra perturbada; seu instinto de mãe entra em atrito
com os valores sociais. No começo, ela defende seu rebento
procurando, compensatoriamente, ressaltar-lhes as qualidades –
“[...] Se quer que o diga, nada até um pouco melhor
[...] é um pato macho, e aí não importa tanto”.
Ao mesmo tempo em que seu instinto materno a conduz a um
comportamento protetor para com o desajeitado, ela tem dúvidas
com relação a ser ele um de sua espécie. Os
valores se impõem – “[...] Larga-o aí e
ensina os outros filhotes a nadar”. A identidade grupal
torna-se ameaçada ante a consciência das diferenças.
Sendo assim, o patinho teve uma vida
miserável até atingir sua maturidade, correndo risco de
vida o tempo todo, sendo perseguido e depreciado. Por conta disto,
sente medo de tudo, até de quem não lhe quer mal;
sente-se um sem-lugar no mundo, ou melhor, ocupa esta posição
de não-aceito, não-visto, não-querido.
Numa tarde de fim de outono, o patinho
feio avistou à beira do lago aves enormes e alvas que
levantavam vôo rumo a terras mais quentes e sentiu uma
irresistível vontade de acompanhá-las. Citando o conto:
“Como poderia ter ousado desejar para si uma tal delícia
[a de voar como os cisnes] ele que já se teria dado por muito
feliz se os patos o tivessem tolerado em sua companhia, pobre
bichinho feio?”. Neste episódio o patinho feio descobre
o que é a felicidade; por aquelas aves sente uma identificação
inexplicável, mas que gera um sentimento de nostalgia
"não-vivida", uma melancolia do desconhecido, como
se seu inconsciente gritasse em sua surdez. Diante deste ímpeto
pela felicidade, e após passar por possibilidades de
aceitação, experiências tristes e aterradoras que
só reforçavam a utopia de um dia ser feliz, decide no
início da primavera, após novamente avistar os cisnes,
entregar-se a sua pulsão de vida (ou seria de morte?) e
arriscar sua inútil existência de dor à
possibilidade de estar perto das criaturas mais felizes da Terra, por
um instante que fosse, como se pudesse se contagiar de tanta alegria,
e podendo mesmo ser ferido até a morte por aqueles grandes
pássaros. Mal percebeu ele que também havia se tornado
um grande pássaro e, como Narciso, somente ao ver seu reflexo
na água do lago, foi capaz de se apaixonar por si mesmo e
reconhecer a magnitude de seu ser.
Só a partir deste
momento sentiu alívio e satisfação por ter
vivido tudo o que viveu, pois o que lhe aguardava após o
enamoramento pela vida seria venturoso. Agora era elogiado como o
mais belo dos belos. A experiência de contemplar sua imagem
refletida na água foi de fato uma experiência numinosa e
redentora.
Uma dinâmica muito parecida e
comum ocorre na sociedade ocidental pós-moderna, no que tange
ao papel do localizador para um problema familiar ou social,
geralmente em um dos integrantes da família ou da sociedade.
Algumas patologias psíquicas familiares e grupais são,
fazendo-se uma análise atenta, centradas em indivíduos
específicos, geralmente um dos filhos, ou moradores de rua,
por exemplo, mirando-os como os culpados pela desordem, ou os doentes
destacados do todo. Nunca como o retrato da doença coletiva ou
o espelho de um traço comum a todos os integrantes de tal
coletividade. Filhos drogadictos, pais problemáticos, sujeitos
exageradamente “avoados” ou acomodados, esotéricos
e fanáticos religiosos, obsessivos e sistemáticos, hoje
em dia toda diferença é um “gancho” para
eleger um localizador de problemas.
Nos dias de hoje, Jacoby (1984, p.47)
admite que “[...] teria dificuldade em citar pessoas que, num
maior ou menor grau, não sejam vulneráveis a flutuações
narcisistas, [...] que nunca caiam numa inflação
irrealista ou que nunca sejam alcançadas por sentimentos de
total desmerecimento”. Diz ainda estar havendo muita discussão
sobre o aumento dos chamados distúrbios de personalidade,
diagnóstico um tanto vago, que cobre uma gama enorme de
pessoas, inclusive nós, que podemos a qualquer momento sofrer
de complexos de inferioridade ou supercompensações.
Portanto, elegemos patos feios para tudo e criamos com muita
competência, filhos e indivíduos neuróticos e
hipocondríacos, como era considerado inclusive o próprio
Andersen à época.
Então perguntamos: Como fica o
sujeito perante o discurso social da rejeição e do
preconceito?
O nosso personagem assimila este discurso e entende que a feiúra
é um peso para si e para os outros. Kohut cita um fenômeno
que ele denominou de mirroring
(espelhamento) para descrever o “the
gleam in mother’s eye”
(o brilho no olho da mãe) que se constitui na “[...]
empatia ótima parental que é base para um sentimento
saudável de valor próprio”. (KOHUT, 1977, apud
JACOBY, 1991, p.39, tradução nossa). Este fenômeno
se configura como uma resposta à atuação
narcísico-exibicionista da criança, confirmando sua
auto-estima, ou seja, funciona
como um espelho ao refletir o amor e o deslumbramento que a mãe
sente por seu filho, fazendo com que ele se sinta confirmado,
admirado e entendido como ser humano. Neste momento consideramos
oportuna a transcrição de uma reflexão de Kohut
acerca deste fenômeno, extraída do livro “Shame
and the origins of self-esteem”.
[...] algo mais ocorre
quando o self está se formando; não só o self
deseja ser admirado e enfaticamente entendido pelo ‘Self-objeto’
(o cuidador); o self experiencia este self-objeto (pai ou mãe)
como onipotentes e perfeitos; já que [...] o self-objeto
dificilmente pode ser distinguido do próprio mundo do self, a
perfeição atribuída ao self-objeto implica na
própria perfeição da criança; a criança
num sentido se funde com o self-objeto o qual o experiencia como
idealizado, onipotente e perfeito; o desapontamento na percepção
gradual que os pais são dificilmente todo-poderosos pode criar
um efeito de ‘internalização transmutadora’
que cria estruturas que podem se tornar matrizes para o
desenvolvimento de ideais (em termos junguianos, seria o recolhimento
das projeções).
Em outras palavras, a
auto-estima pode ser criada e mantida por meio de ideais que emergem
fora da fusão com o self-objeto idealizado; estes ideais são
convincentes e podem se tornar modelos para sua própria
conduta. (KOHUT, 1971,1977, apud JACOBY, 1991, p.39-40, tradução
nossa).
Esta reflexão pode ser
constatada no conto quando, ao final, o
patinho feio se transforma em cisne; mesmo ciente de que é
belo e de que é reconhecido e amado pelos que estão a
sua volta, ele se diz até satisfeito com as angústias e
adversidades sofridas e que sentia agora a ventura, as maravilhas que
o aguardavam. “Sentiu-se muito feliz, mas não ficou
vaidoso nem soberbo, pois um bom coração nunca se torna
soberbo.”
Se voltarmos à atenção
para o próprio Andersen, seus contos deram um lugar à
criança, ou seja, ela passa a ser um sujeito ativo e não
passivo em suas estórias. Foi através
de suas obras que a criança e a infância tiveram espaço
na literatura. Seu desejo íntimo maior era apenas o de ser
distinguido. As dificuldades reais ou imaginárias de Andersen,
refletidas no personagem autobiográfico vão de encontro
a uma reflexão de Jacoby (1984) que afirma que “[...] o
equilíbrio narcísico deve ser mexido para que os
processos de amadurecimento aconteçam”.
Vamos observar
que existe no conto um sentimento no patinho feio que se apresenta
como um estranhamento. Ao entrar em contato com cisnes adultos ele se
vê aturdido pela beleza daquelas aves lindas e felizes. Ele
pensa consigo mesmo: “Não sabia o nome daquelas aves,
nem para onde voavam, mas apesar disso gostava delas como nunca antes
gostara de alguém.” Poderíamos perguntar o que no
patinho apontava para algo diferente de si? Que processo estaria em
movimento a ponto de desejar para si tamanha felicidade representada
pela numinosidade experimentada pela visão daqueles magníficos
cisnes? As agruras porque passou o patinho não foram poucas.
Poderia ele ter se resignado à sua feiúra e se
submetido às pressões externas e se adaptado a ponto de
negar-se completamente. No entanto, com todo o sofrimento um impulso
mais forte o motivou a ir a campo, a buscar não se sabe o quê.
É certo dizer que os acontecimentos externos foram grandes
catalizadores desta busca. É uma estória de superação.
O mundo interior frente às pressões normatizadoras do
mundo exterior. Jung (1981, p.525) irá definir
que
a
individuação é, portanto, um processo de
diferenciação cujo objetivo é o desenvolvimento
da personalidade individual. A necessidade de individuação
é natural, enquanto que
o impedimento da individuação por uma normalização
exclusiva ou preponderante, de acordo com os padrões
coletivos, será prejudicial para a atividade vital do
indivíduo, para a sua vivência pessoal.
Ao partirmos da idéia de que o
sentimento de não pertença possa também estar
associado a uma imagem (vide a rejeição de sua mãe),
o patinho feio ao considerar seu estranhamento frente ao seu meio
corresponderia a um investimento de libido na consciência e, a
partir do momento em que na presença de outros cisnes, sem que
perceba, faz um movimento de pescoço que culmina com um grito
agudo típico da espécie, isto por si só já
se constitui numa pequena resposta individuadora. O que importa,
neste momento, falando em termos analíticos é a
interação do sujeito com seu inconsciente (o
investimento pessoal da libido), que corresponde ao estabelecimento
de uma ligação do eu com o self. O Self, portanto,
estaria atuando como o centro regulador da psique, o spiritus
rector inconsciente,
podendo seus conteúdos, sob determinadas condições,
tornarem-se acessíveis ao Ego e passarem a atuar como
orientadores do processo de individuação.
Jacoby (1984) vai dizer que o
ser humano tem uma necessidade básica e vital de se refletir
para poder se reconhecer. Necessitamos disso para nos sentirmos
reais, aceitos, e assim, importantes para outras pessoas e
conseqüentemente, para nós mesmos. Relembra ainda a lenda
grega num hino de Píndaro na qual Zeus, após terminar
sua criação, perguntou aos deuses se eles achavam que
faltava algo e estes o pediram que criasse as musas, que louvariam
seus feitos e seu universo, embelezando tudo através de suas
palavras e música.
Assim,
vemos que somente existir não é suficiente e não
satisfaz. A criação e a coisa-em-si não são
independentes. Os feitos de Zeus teriam que ser trazidos para a
atenção consciente através de louvação.
Da mesma forma, o ser humano individual precisaria ter sua frágil
e vulnerável existência refletida e ressonante nos
éteres. De que adianta existir, se ninguém o notará,
compreenderá, amará ou apreciará o que você
é e o que você faz? Diante disto, segundo Jacoby (1984),
não há equilíbrio narcísico saudável
que resista ou sensação de amor próprio que
possa ser mantida.
Referências
ANDERSEN,
Hans Christian.
O Patinho Feio. In: ______. Tìtulo
en negrito.
Local: Editora, data. p. 240-251.
ANDERSEN, Jens.
Hans
Christian Andersen, a new life.
Overlook Duckworth, 2005. p. 329.
JACOBY, Mario.
Individuation
and narcissism:
the psychology of the self in Jung and Kohut. Hove: Bruner-Routledge,
1990. 267p.
JACOBY, Mario. Narcisismo e
transferência. In: ______. O
encontro analítico:
transferência e relacionamento humano. Tradução
de Claudia Gerpe. São Paulo: Cultrix, 1984. Cap. 3, p. 47-64.
(Coleção Estudos de Psicologia por Analistas
Junguianos).
JACOBY, Mario.
Shame
and the origins of self-esteem:
a junguian approach. London: Bruner-Routledge, 1991. 131p.
JUNG,
C. G. Definições.
In: ______. Tipos
psicológicos.
4. ed. Rio
de Janeiro: Zahar, 1981. Cap 11, p. 471-552.
1
Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia
Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo.
E-mail
dos autores:
wmvaz@yahoo.com
rafaelrodriguez@globo.com
|