Rubedo | Artigos © Rosa Maria Carollo Blanco
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Kairós: Um Tempo de Fazer Alma
Rosa Maria Carollo Blanco* A Psicologia sempre privilegiou seus estudos a partir dos achados da prática clínica. Este trabalho cobre o espaço de tempo de sete anos da Clínica-Oficina Kairós, que começou como projeto de criação de um espaço de trabalho para pessoas portadoras de transtornos mentais. Instituiu-se como uma ONG e originou-se do sonho de um grupo de construir um trabalho que produzisse sentido para usuários e equipe técnica. A idéia básica era a realização de um trabalho artesanal, um fazer com as mãos. Sabemos que uma das coisas que param nas pessoas assoladas pelas psicopatologias é, justamente, a atividade. Para dar um pouco de paz a si mesmos, os pacientes dormem. O sono os protege dos delírios, alucinações, tristezas, tormentos. Com isto acabam criando um isolamento cada vez maior, uma caverna onde possam se defender. A atividade, construir ferramentas e objetos, criar e inventar, estão no mundo desde antes que a história humana começasse a ser escrita. Ao abandonar a atividade, estamos nos abandonando à mera vida vegetativa ou à repetição do já conhecido. Restaurar esta capacidade criadora, fazedora, foi o caminho escolhido para compor uma clínica. As mãos e não somente a cabeça; movimento no lugar da paralisia; criação no lugar do estilhaçamento. A proposta desta clínica baseia-se, pois, nos achados sobre as assim denominadas psicopatologias. O deparar-se com a psicopatologia traz um impacto capaz de colocar em cheque todas as premissas ou crenças teóricas nas quais se apóiam todos os profissionais da saúde. Pelo menos, qualquer profissional que se permita ouvir e afetar pela imensa dor que assola estas pessoas. Este trabalho está norteado pelas balizas teóricas traçadas por Carl Gustav Jung e re-vistas por James Hillman, seu mais instigante seguidor. Jung compôs as primeiras vertentes da Psicologia a colocar claramente sua discordância sobre a questão da saúde e a doença mental serem consideradas como instâncias diferentes ou contrapostas na vida das pessoas. Também foi o primeiro psiquiatra a refutar, já nos seus primeiros escritos em 1908 “o dogma prevalecente na psiquiatria moderna - doenças mentais são doenças do cérebro” (Jung, vol 3, p. 13). O alcance desta refutação percorre todo o século XX. Só a título de ilustração, num artigo de uma revista de psiquiatria de 1984 publicou-se, em tom de triunfante descoberta, que a década de 80 é a década do cérebro. A corrente organicista ganhou forças cada vez maiores na medicina, contaminando toda a prática clínica e se, hoje, a doença mental não está mais no cérebro, “com certeza”, há de estar no DNA. Para transmitir os conceitos “do ponto de vista psicológico” Jung escolheu a esquizofrenia como paradigma para suas pesquisas e propõe que nos debrucemos sobre os conteúdos dos delírios em busca das respostas para os sistemas que a loucura monta. Hillman diz que, para compreendermos um quadro psicopatológico, devemos transformamo-nos no próprio quadro. Isto serve tanto para a prática como para a teoria. (Hillman,). Jung partiu da esquizofrenia como paradigma, Hillman propõe que cada quadro sintomático apresenta seu próprio paradigma e que precisamos partir de cada um. Radicaliza e amplia esta questão propondo o termo patologização no lugar de psicopatologia, porque assume “a capacidade autônoma da psique para criar doença, morbidez, desordem, anormalidade e sofrimento em qualquer aspecto do seu comportamento e de vivenciar a vida através dessa perspectiva deformada e atormentada” (Hillman, ED, pp.9,10).1 Na obra de Hillman está contida a premissa, já assumida por Jung, que a infirmitas (não firmeza) - de onde vem a palavra enfermidade - faz parte inextricável da vida; que criação e destruição são uma e mesma coisa e propõe entendermos a psique como, nos dizeres de Jung, um princípio criador sem causas. Hillman recoloca esta questão da seguinte maneira: “... insisto em chamar a patologização de atividade criadora ... É, também, um princípio criador que entra na formação do universo. E está, necessariamente, sempre aí. não gradualmente superado através da ampliação do domínio da razão. ... o anormal mistura-se a cada ato da existência, pois a vida psíquica baseia-se no complexo e a patologia jamais termina.” (Hillman, ED p.25) Continua propondo que, para se trabalhar com a dor, aflição, desordem, o peculiar, enfim, esses temas fundamentais à psicologia não podemos tratá-los da mesma maneira como compreendemos o comportamento normal: “Para compreender a psicologia do comportamento anormal (...) não devemos nos voltar para o que é ‘normal’. Nossas normas devem adequar-se ao material que desejamos compreender, devem ser normas igualmente patologizadas.” (Hillman, ED p 11) Até porque, ’norma’ e ‘normal’ derivam da palavra norma, o esquadro utilizado pelo marceneiro. É um termo técnico afeito à geometria, portanto uma ferramenta bastante inadequada para a psicologia. Olhar a patologia de dentro do seu quadro sintomático; transformar-se no próprio quadro com suas especificidades, como maneiras de aproximar-se de cada tipo de dor, sofrimento, desordem etc. Construir um discurso de inteligibilidade para o que o olhar da norma sempre chamou de incompreensível e falso. Debruçar-se sobre a obra de Hillman para construir uma clínica é sempre uma tarefa desafiadora e perturbadora, porque não aponta caminhos. Ele diz que prefere as encruzilhadas. E lá ficamos nós, frente às encruzilhadas. Das várias possibilidades, fomos selecionando algumas, que nos pareceram condizentes com as setas que Hillman ia colocando. Algumas das escolhas compuseram-se como premissas: 1. Partir do pathos. Para ficar com o quadro e tornar-se parte do próprio quadro, ficamos com os relatos dos pacientes. Seus sofrimentos, dores, aflições, alegrias, da maneira como eles as relatam. 2. Ficamos com a psique pensada como uma pluralidade de pessoas – os complexos – mas vendo em cada um uma inteireza, uma subjetividade que se apresenta. Nada nelas é parcial ou inadequado. Cada história que um sofrimento nos conta é tomado, como propõe Hillman, como um estilo de consciência, presente na vida e fazendo parte dela. 3. Os acontecimentos psíquicos são algo que ocorre no mundo e na vida do mundo. Psique como alma no mundo e não, apenas, nos indivíduos humanos. Hillman diz que a personalidade é um drama cheio de gente, onde nem sempre o Ego desempenha o papel de diretor. Pensar a clínica como o lugar onde se desenrola um drama sempre cheio de gente. Pensar a prática clínica como aquele lugar onde deve sair a pessoa do analista e a pessoa do paciente, para que a análise possa acontecer. Quem é essa gente que atende pelos nomes de analista, paciente, mãe, pai, chefe, delírio, alucinação e por aí vai? Às vezes, a trama que se desenrola fala de nossos dramas demasiadamente humanos. Às vezes, irrompem na sala as enormes figuras das tragédias. Ouvir as histórias contadas como narrações à maneira dos textos míticos: O que caracteriza a narrativa mítica é que aqui, as suas pessoas dramáticas não se limitam a representar o drama mas, elas o constroem realmente. As dramatis personae são escolhidas e, simultaneamente, se impõe. Uma trás outra após si e a história – por sua própria vontade - passa a existir...(Kerény, DG p. 21) Hillman nos apresenta outra possibilidade para além da dicotomia Ego x Inconsciente; Luz x Sombra; etc. Para além da dinâmica única dos opostos, propõe que pensemos cada quadro com sua dinâmica própria, com sua face, cheiro. Ele diz não poder pensar em opostos. Seria como opor um poema a outro. Pensar nas várias tonalidades de luz e de cores, das várias perspectivas que nos dão as sombras. Para podermos ver, como ele diz, Cosmos em cada grão de areia. Isto implica abandonar qualquer idéia de uma psicodinâmica ou de uma psique estruturada hierarquicamente, com uma direção para um centro, seja ele a consciência freudiana ou o self junguiano. Poder imaginar-se várias dinâmicas como “uma série de histórias míticas em lugar de processos psíquicos; como o auge e a queda de temas dramáticos, como genealogias, como viagens, contendas, tréguas, como intervenção dos deuses. (...) um deus é uma maneira de ser, uma atitude sobre a existência e um conjunto de idéias (...) um deus dá forma a nossa visão subjetiva para que vejamos o mundo de acordo com suas idéias. [A realidade substancial da psicodinâmica pode ser imaginada como uma] <<microfísica>> e transparecer como se tratasse de uma série de saltos quânticos de minipercepções. [Transparecer como faz o vidro]: como não é visível, confunde-se com seus conteúdos e os dados da psique, ao ser alocados dentro ou atrás do vidro, se transportam da realidade palpável à realidade metafórica, abandonam a vida para entrar na imagem. (Hillman, RP, pp 292, 298) Abandonar a idéia de processos que levem, quer ao caminho da cura, quer ao autoconhecimento; abandonar o centro do qual tudo emana ou para onde tudo converge. Em seu lugar, várias psicodinâmicas e movimentos de centração. 2. Clínica-Oficina Kairós Esta clínica é o resultado de uma busca que seus participantes vinham perseguindo em suas práticas habituais nem sempre satisfatórias. A busca sobre novas maneiras de se pensar a clínica vem sendo feita em muitos lugares, uma vez que está cada vez mais premente um olhar que atenda às exigências que o mundo está nos apresentando. A afirmação que Hillman faz é esclarecedora desta situação: “Minha prática clínica diz que não posso mais distinguir claramente entre a neurose do ‘eu’ e a neurose do mundo, psicopatologia do eu e psicopatologia do mundo ... [até porque] mundo externo é onde todas as subjetividades são estabelecidas”. (C&A pp 10, 12) Nossa escolha recaiu sobre o trabalho artesanal como prática privilegiada para uma proposta clínica. A associação trabalho/tratamento não é nova e passou por uma funda discussão ao longo do século XX. As primeiras idéias sobre atividade associada a tratamento vêm do projeto teórico que ficou conhecido como Tratamento Moral que vê o trabalho e a ocupação terapêutica como instrumento de aprendizagem da ordem, regularidade e disciplina. (Benetton, in Silva 1997, pp. 20,21). Largamente difundido na Europa, preconizava que a raiz de todos os males reside na inatividade. A ociosidade não é só o começo de todos os vícios (...) mas também da demência. (Simon, in Silva, 1997, p. 32). Portanto, (...) o uso do trabalho relacionava-se ao enfrentamento da inatividade; era um instrumento de organização manicomial e de aquisição de responsabilidade por parte do doente. (...) o trabalho constituía um instrumento de educação e treinamento, prescrito por um profissional médico, (...) relacionado de forma orgânica com a instituição manicomial. (Silva, 1997, p. 32). Nas últimas décadas do século XX, a questão da atividade passou a alocar-se melhor numa idéia de atendimento ampliado, onde opera o conceito de reabilitação psicossocial entendido como proposto por Saraceno et al: “conjunto de todas as atividades que tendem à maximização das oportunidades do indivíduo para sua recuperação e para a maximização dos efeitos incapacitantes da cronicidade. Estes objetivos contemplam o manejo a nível individual, familiar e comunitário.” (Silva, 1997. p. 35) Optando pelo trabalho artesanal, pretendemos encaminhá-lo de uma maneira que leve em conta a psique, como Hillman a descreve: “que o corpo é psique, aquilo que o corpo faz, o modo como se move, aquilo que percebe, é psique. ... onde o corpo vive e se move e onde a teia de reações é tecida, também é psique; (...) A psique existe inteiramente em um sistema de relações.” (Hillman, 100 anos... p.84) Esta maneira de olhar a psique vem dos ensinamentos de Jung quando dizia que os conteúdos psíquicos têm sempre de ser considerados numa rede de relações porque, dizia ele, não há processos psíquicos isolados, como não há processos vitais isolados. O trabalho artesanal pretende ser realizado num ambiente que re-crie o mesmo sentido dado a ele nas oficinas dos antigos artesãos, nas quais os mestres eram mestres apenas por serem os de maior saber sobre os fazeres. Sua função era a transmissão de sua experiência: passar para os aprendizes - “seus labores enlaçados com os de artistas e artesãos de séculos passados; transmitir seu lugar, seu entusiasmo, seus instrumentos de trabalho e sua entrega”, como descreve Gala. Estabelecer, através do trabalho feito artesanalmente, o jogo de trocas com o mundo (Fares), a conexão com a tradição pois, como diz Benjamin: “A experiência pertence à ordem da tradição, tanto na vida coletiva como na vida privada.” A maneira de funcionar nas oficinas será construída a partir de uma noção criada por Walter Benjamin - CONSELHO. A análise que se segue foi feita por Claudia Fares, de quem a tomamos emprestada, porque descreve com muita precisão como trabalhar. “O ouvinte torna-se narrador justamente durante os atos simultâneos de dar forma à matéria, pelo exercício das mãos e de escutar a história que está sendo contada. É assim que o ouvinte se torna capaz de narrar. É assim que se coloca a importante noção formulada por Walter Benjamin: a do conselho. O conselho não tem aqui o teor que normalmente costumamos lhe atribuir. Para Benjamin, o conselho é sinônimo de uma sugestão para a continuação de uma história, do relato, da experiência partilhada, cujo fim não podemos jamais adivinhar. ... O conselho não é, de maneira nenhuma, uma interferência vinda do exterior sobre a vida de alguém. Pelo contrário, ele se mostra como uma sugestão ao fluxo narrativo comum, quer dizer, dentro da experiência comum da narração, o conselho serve tanto para quem relata quanto para quem escuta. ... Nessa experiência o homem está, todo o tempo, sendo aconselhado, mantido por esta história que é comum. (...) A experiência transmitida pela narrativa é, portanto, comum ao narrador e àquele que a escuta. Neste sentido, o artesão-narrador ou o narrador-artesão é aquele que está esquecido de si mesmo justamente por acolher aquilo que ele relata fazendo, ao mesmo tempo, a experiência daqueles que escutam sua história.” (Fares, AC. p 49). “Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo de trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o dom de narrá-las. Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo” (Benjamin apud Fares, AC. p 49) Aprendemos com Hillman que a psicoterapia é um modo de ouvir e reagir e que todas as explicações sobre a vida humana são ficções. E que podemos tirar alguma coisa delas, construir algo, realizar uma outra ficção, uma imaginação e poderemos, no papel de artesãos-narradores - sugerir possibilidades de continuidade dos enredos que eles descrevem. “Na oficina do artesão, o exercício se desdobra infinitamente, ganhando novas nuances. Aquele que tece percorre uma experiência que, inevitavelmente, se conta, se relata, no ato de fazer. Enquanto suas mãos trabalham contando silenciosamente seu percurso que os olhos acompanham, o ouvido dispõe-se a escutar o que a palavra, por sua vez, tece.” (Fares, AC p 49) Aprender com as coisas é outro dos ensinamentos que Hillman nos oferece para propor-nos a um modo de terapia que passe pelo fazer. Um fazer que se narra silenciosamente, com o acompanhamento da visão e do ouvido. Este fazer que, ao narrar-se, cria sugestões para a continuidade da narrativa, não passa por explicações. Trata-se, apenas, de dar passagem às conexões que o próprio narrar-fazer estabelece. Não caberá, portanto, nenhum tipo de distanciamento; trata-se de um fazer com, esquecido de si mesmo, que servirá tanto para quem relata como para quem escuta. E assim, poder tecer a rede que está guardando o dom narrativo. 3. O Trabalho da Clínica Em 1999, nasce a Clínica-Oficina Kairós. A primeira tentativa de implantação de oficinas de trabalho havia ocorrido dentro de um equipamento público. Por entraves burocráticos e políticos, o projeto foi abortado. Um grupo de amigos, que se juntava para estudar e discutir sobre a clínica e como dar conta das demandas que o novo século estava apresentando, resolveu fazer deste aborto a gestação de suas inquietações. O grupo começou contabilizando o grande número de tentativas similares que sofriam interrupções bruscas por diversos motivos, incluindo a experiência inicial. No domínio do Serviço Público, estas iniciativas sofriam diretamente do mal das eleições a cada quatro anos. Se houvesse sorte e o prefeito/governador fosse do mesmo partido, poderia continuar. O hábito reiterado dos novos gestores não arcarem com políticas públicas que tiveram sucesso ou, o que é pior, deram visibilidade ao antecessor-adversário, é histórico. O exemplo mais gritante e famoso ocorreu em Santos com o projeto do Hospital Anchieta. Não pode haver continuidade quando as políticas são, assim, tão descontínuas. No caso da Saúde Mental, estas interrupções são mais agravantes dado que interrupções bruscas são a tônica nesta população que tem suas vidas freqüentemente interrompidas pelas crises. Aqui, a violência desta prática se faz mais agudamente presente. Voltar-se, então, para o setor privado. Aqui os resultados não se mostraram muito diferentes. As, assim conhecidas, Empresas de Responsabilidade Social não fogem à lógica do mercado e do lucro. Salvo honrosas exceções que possam existir, regra geral as empresas patrocinam projetos que lhes dêem visibilidade e espaço nas mídias. Têm sido privilegiados projetos ligados a crianças, adolescentes, meio ambiente e que, além disso promovam espetáculos ou que permitam a confecção de edificantes documentários. Já se comprovou um acréscimo nas vendas das empresas que se associam a temas como futuro, limpeza, verde, pacificação etc. Nada que possa ser associado a doença mental contém qualquer desses atributos. Ainda assim, alguns projetos ligados à Saúde Mental conseguiram patrocínio. Na maioria dos casos ocorreu a mesma coisa que no serviço público. Quando mudam as políticas nas empresas, quando o mercado se retrai, quando o projeto já não desperta mais tanto interesse ou novidade, cessa o patrocínio. Regra geral, também, isto é anunciado sem prazo algum para qualquer ação remediadora mais imediata. Aqui, a interrupção brusca também é a norma. Perder lugares de trabalho, perder a possibilidade de algum fazer produtivo, de uma hora para outra. Nada muito diferente de qualquer outro cidadão brasileiro para quem o desemprego ou a demissão sumária é rotina. A diferença é que a maioria dos portadores de distúrbios não tem qualquer possibilidade de emprego formal, nem lei de amparo que o acolha. As leis que prevêem a obrigatoriedade de emprego a deficientes não contemplam os pacientes psiquiátricos. Para sanar a brutalidade das antigas leis que os consideravam incapazes e permitiam os bichos de sete cabeças, foram declarados capazes, cidadãos integralmente reconhecidos, com todos os deveres. Mas, não há emprego possível para esta população. Porque ninguém os emprega, por causa de sua condição e porque, em boa parte dos casos, esta mesma condição não o permite. Porque são cidadãos capazes juridicamente e não trabalham, não conseguem ser aposentados por invalidez. O ciclo se fecha e à sua condição difícil, acrescenta-se o não ter acesso a renda alguma. Nestas circunstâncias é que surgiram as várias propostas de “oficinas de geração de renda”, com a idéia de que esta impossibilidade total de acesso a um mínimo de autonomia financeira tolhe o exercício da cidadania. Agora, juridicamente, os portadores de distúrbios mentais são cidadãos plenos, mas o exercício deste direito não tem canais de existência. Perseguir a estabilidade no serviço público ou a decantada parceria com o setor privado. Como escapar das armadilhas que as duas opções ofereciam? A primeira grande questão foi a necessidade de autonomia, para que o projeto pudesse caminhar ao largo das ameaças das interrupções bruscas; escapar das possíveis ingerências quer do mercado, quer do mal das eleições. Para isto, tinha de ser pequeno, teria de caber no nosso bolso. A idéia é que, a longo prazo, poderia tornar-se auto-sustentável. Mas deveria ter fôlego para continuar. Outra resolução foi a que o espaço físico não deveria parecer-se com um equipamento de saúde. Como os usuários das oficinas são atendidos em outros lugares para obter medicação e acompanhamento, as oficinas seriam seu lugar de trabalho. Eles mesmos diziam que a casa “parece a casa da gente”. O começo, então, foi em uma casinha onde cabiam a sala de oficinas e as outras salas serviam de consultórios privados. Dar tempo de trabalho era algo que todo o grupo podia fazer. Cada oficina ocorre em grupos de, no máximo, sete pessoas, número que o espaço permite. Esta maneira pragmática garantiu que as oficinas se mantivessem até hoje e ainda tem fôlego para mais. Depois de uns anos, mudamos para uma casa maior, onde todos nos acomodamos com mais conforto. Embora ainda seja pequeno, cabe no bolso. As primeiras questões ficaram bem equacionadas. A casa é um lugar de trabalho (dos técnicos e dos usuários), é “a casa da gente” e ninguém pode decidir por nós se queremos ou não continuar. Todo o resto do projeto não passou por qualquer resolução ou planejamento. Foi surgindo à medida em que as questões se apresentavam, foi se construindo com todos os participantes aprendendo juntos. Trabalhar com pedras. Ninguém tinha a menor idéia de como se trabalhava com mármore. Este material surgiu da doação de amigos, donos de uma marmoraria. Forneciam cinzeiros e saboneteiras já cortados para dar o acabamento. Com o tempo, isto ficou monótono e pouco atraente. Começou a etapa de inventar. Ir às marmorarias e pedir restos, sobras que vão para o lixo. Conseguido o material, começava a discussão sobre o que daria para fazer. As pedras, na grande maioria das vezes, nos diziam o que fazer com elas: seu tamanho, dureza, porosidade... Surpreender-nos juntos ao ver que as pedras de mármore são muito frágeis, delicadas, que qualquer coisa as estilhaça, que requerem muito cuidado. Descobrir ferramentas que se adaptassem às nossas necessidades porque não tínhamos à disposição ninguém com quem aprender: ou há ferramentas industriais ou o cinzel do artista. Nenhuma delas servia para os cacos com que trabalhamos. Inventar modos de lidar com um material que oferece um infinito de possibilidades. Ao longo de seis anos foi se criando um saber com as pedras que permite retirar de sua aparência bruta o brilho e a maciez que encanta o olhar e o tato. Descobrir a capacidade de dar forma ao informe, consertar o deformado, dar leveza ao que parece pesado; criar luxo do lixo. 4. A Clínica do Trabalho A prática clínica era o território privilegiado de discussão, de aprendizagem, de avanços. Os pacientes e os familiares nos diziam se estávamos na trilha mais acertada - ou não. O intervalo entre as crises espaçava; relatos de melhora na condução de suas vidas, menos turbulência na relação com os familiares. Os parentes falavam de como “agora está tudo melhor” ou vinham pedir apoio para interferir quando havia problemas mais sérios. Tudo ficou menos ameaçador, menos solitário. Contavam conosco, nosso trabalho se mostrava efetivo, sentiam-se amparados. O desamparo de “ter de lidar sozinhos com isto” era bastante aliviado pela existência de um lugar de cuidado solidário. Se pensarmos na clínica apenas como um projeto gerador de renda, fracassamos. Não conseguimos criar renda nem para eles nem para nós. Continuamos pagando e eles recebendo muito pouco dinheiro. O que nos junta, então? Por que vamos para lá todas as semanas e como nosso trabalho faz diferença nas vidas dos usuários? Porque a diferença é visível no empenho em suas produções, no riso mais farto e solto, no carinho e cuidado de uns com os outros, na melhora de suas vidas em casa. Há uma enorme discussão entre os profissionais que trabalham com oficinas de geração de renda. Alguns dizem que não leva a lugar nenhum, outros que não é um trabalho terapêutico e, portanto, não pertence ao âmbito da saúde mas deveria passar por outras políticas públicas etc.. Nós assumimos que trabalhar pode ser psicoterapia. Mas trabalhar, como? Se pensarmos o trabalho como o entendemos hoje, todos os nossos projetos estarão fadados à frustração. A socióloga Leila Blass diz que “toda forma de vida societária pressupõe atividades e tarefas de trabalho, ou seja, não existe vida coletiva sem trabalho”. Diz, também, que o trabalho como o conhecemos hoje, data do século XVIII na Europa e que, antes disso, economia, produção, trabalho, estavam fundidos com a política e a religião. Das atividades humanas, trabalhar, é, talvez, a que mais carrega a característica de ser “para os outros”. Qualquer que seja a produção – peças de mármore, comida, espetáculo – destina-se a um outro que, muitas vezes, nem sabemos quem é. No caso das nossas oficinas era evidente a diferença na satisfação de saber que um cliente desconhecido havia comprado “minha peça”. Quando o comprador era um parente ou amigo, pairava a suspeita de ter comprado “só para ajudar”. A autenticação da qualidade do trabalho vinha de um outro desconhecido. Ao longo do tempo fomos adquirindo um aprimoramento técnico que permitiu maior discriminação e exigência na qualidade do produto final, ao mesmo tempo em que a maneira de cada um trabalhar mostrava seu jeito de conduzir as “questões da vida”; a maneira de lidar com os processos de produção da peças traduzia os modos de produzir a vida. Um dos modos mais freqüentes fala assim: No início, cada vez que eu pegava uma pedra, não via nada que pudesse fazer com ela. Era só um caco de pedra bom para se jogar fora, quebrado e feio. Cada vez que quebrava no meio do trabalho minha vontade era largar tudo, ir embora. Não dá nada certo, mesmo! Não sei fazer nada direito. Jogar tudo fora, ver nas coisas quebradas o lixo como único destino, tomar como erro e incapacidade pessoal tudo o que acontece de ruim é a tônica de sua forma de viver. Aprender com as pedras. Juntar e colar de um jeito diferente e novo pode dar em alguma outra coisa. Aprender a não jogar tudo fora porque se a gente olhar bem, pode achar alguma coisa legal para fazer. Persistir. A dureza das pedras esconde uma fragilidade que requer muito cuidado. Seus veios e poros nos dizem onde cortar, preencher. A qualquer interferência brusca, ela quebra. Às vezes, quase no final do trabalho, um pequeno golpe dado no lugar errado desmonta tudo o que foi feito. E, no entanto, o erro não foi “meu”, não sou “incompetente”; só não prestei atenção ao que a pedra dizia. O outro-pedra ensina a olhar para além de mim: minhas dores, fragilidades, meus cacos. Ensina a atender às necessidades dela, a olhar bem quais são suas características, prestar atenção ao que ela requer. Para ressaltar suas qualidades não visíveis é necessário desbastar, colar, polir, juntar; ensina, também, que nem sempre ela se curva a meus desejos, aceita minha intervenção, mesmo que cuidadosa e carinhosa. Às vezes ela, simplesmente, me ignora e impõe outro destino. O outro-comprador gostou do meu trabalho. Nem estava tão bom, era uma peça igual às outras. Mas alguém escolheu esta. Aprender que alguém gosta do meu trabalho que “nem estava tão bom” lança dúvidas sobre a noção cristalizada do não sei fazer nada direito. Insinua para outras possibilidades que não a da inutilidade e estorvo. Se alguém gosta do que faço, pode ser que haja algo apreciável em mim. O desvalor completo como marca da existência, comporta-se como a dureza da pedra que, ao contato com o outro, encontra fendas e porosidades, capazes de mudar o manejo. O outro-vozes ensina o silêncio. Calar é necessário quando há muitas vozes falando ao mesmo tempo, atormentando, fazendo muito barulho. Não é o momento de acrescentar mais uma voz dizendo o que se tem que fazer. Aprender a negociar com um venusiano travestido de terráqueo e mostrar-lhe que as pedras da Terra não são como as de Vênus e não dá para fazer as mesmas esculturas que lá. O outro-paciente ensina a não se espantar ou querer resolver as dores do colega, porque as reconhece e sabe que, nesse momento agudo, é preciso tempo e paciência; ensina outra noção de tempo, de intervenção. Às vezes, ficar quieto, outras ficar ao lado. Em todas, entretanto, fazer saber que este é um lugar onde a acolhida e o suporte estão presentes. Que aqui, se pode descansar um pouco. Com os outros, também é a marca do nosso trabalho. O encontro freqüente, sistemático e compromissado com a produção de algo, inaugura um corpo, uma corporação. Este corpo em ação que vai se compondo ao longo do tempo em que este encontro compromissado se processa, cria um mínimo social onde seus componentes se reconhecem como parceiros. Pedir emprestada esta noção de Antonio Cândido, que a destinava a sugerir as condições de vida no tipo disperso de povoamento. Este mínimo social, composto por pessoas dispersas por toda a cidade de São Paulo, se comporta como os Parceiros do Rio Bonito: cria uma base territorial, um sentimento de localidade, cuja formação depende do intercâmbio entre as pessoas; (...) é uma naçaõzinha, que requer a necessidade de cooperação. Um dos elementos de sua caracterização [é] o trabalho coletivo. (...) Poderia (...) definir-se como o agrupamento territorial (...) cujos limites são traçados pela participação dos [usuários] em trabalhos de ajuda mútua. É membro do [território] quem convoca e é convocado para tais atividades. (...) Nesta maneira de trabalhar ‘ não há obrigação com as pessoas e, sim, com Deus, por amor de quem serve o próximo’ , contou um velho caipira. Durante o trabalho, levam-se em conta os de menor capacidade devendo [o mestre] moderar o ritmo a fim de não forçá-los... (Candido, PRB pp 65 a 70) Este povoado disperso requeria um mínimo social para poder constituir-se como naçaõzinha; para poder criar o sentimento de localidade, necessitava de um lugar a que os participantes têm consciência de pertencer. Estas parecem ser as condições necessárias para que uma clínica do trabalho possa se configurar em psicoterapia. Um dos aspectos importantes da vida do mínimo social é seu aspecto festivo. Neste pequeno sócio criou-se um agrupamento de vizinhança que promove encontros, acompanha o colega de trabalho até a condução “para ficar batendo papo”, comemora aniversários, chama amigos de fora para ver nossas peças; permite dizer às pessoas que vou ao meu emprego, encontrar com meus amigos. Se pensarmos a clínica como um lugar onde se dá voz às conexões, então criar o mínimo social permite a conexão com esses outros-pedras, pessoas, temas, conflitos; permite esquecer-se de si mesmo e poder criar o dom narrativo, acompanhado de todos os outros que não, apenas, da minha doença. Enquanto nosso mínimo social criava um território onde a rede de relações se ampliava, nós continuávamos “no mesmo lugar”. Nosso trabalho para “dentro da casa” estava na contramão do projeto de levar a psicoterapia para as ruas. Uma dos propósitos das oficinas passava por sair do confinamento, do isolamento. Os portadores de distúrbios passam a vida (na maioria dos casos) relegados ao confinamento, quer nas internações fechadas ou abertas, nas casas onde vivem. Dificilmente conseguem sair, ter uma rede de amizades. Marcados por serem diferentes, estranhos, ou se restringem “a ficar em casa sem fazer nada, vendo televisão” ou a esconder sua condição “para ninguém olhar pra gente como se a gente fosse louco”. Regra geral, a vida destas pessoas acontece em lugares fechados, com os familiares “é difícil conhecer gente nova, a gente fica sem graça”. Colocar a possibilidade de circulação dos produtos implicava ações de saída, ampliação. Tentaram-se várias maneiras de ir para o mundo. Participar de feiras, fazer parcerias com lojas, montar uma loja gerenciada pelos usuários. O mundo do comércio tornou-se nosso cavalo de batalha. Amigos tentaram ajudar, orientações de empresários, tentar lidar com as intrincadas regras dos negócios. Várias reuniões de todos os participantes para compor um empreendimento que fosse adiante. A constatação de nossa incompetência nos fez saber várias coisas: nenhum de nós tinha a menor vocação para o comércio, não tínhamos nem vontade de aprender esse ofício; sozinhos não chegaríamos a lugar nenhum. Além disso, verificamos que nós também estávamos confinados. Sair do isolamento implica deixar que a clínica se contamine pela rua. A clínica asséptica dos lugares abrigados, cuidada por técnicos especializados, está exigindo outras misturas; ousar em terrenos não palmilhados, ao invés do consagrado que nos autoriza. Nosso saber, nosso esteio, colocado em suspenso, no lugar do chão que pisamos. E aí, repensar o que será e poderá esta clínica. Estávamos neste pé, quando fomos invadidos pelo mundo dos negócios. Recebemos uma proposta de um grande laboratório farmacêutico que, se fosse aprovada, teríamos de produzir de 200 a 300 peças. Até aqui, cada um trabalhava no seu ritmo, respeitadas as condições e estilos de cada pessoais, como mandava o figurino técnico. Discussão coletiva. Fazer, dar conta, aceitar prazos, colocar preços justos, redefinir horários, disponibilidades. E, de novo, constatar que o ritmo e o estilo pessoais são mutantes (mesmo com doenças no meio) quando as situações o exigem. Falas do tipo: agora a gente não vai poder ficar parando a toda hora; não dá pra ficar dormindo, agora é a maior responsa. Temos de ter mais compromisso com as peças. E quem não fizer? Aí tem de dar pro outro e ficar sem a grana. Não dá pra todos perderem porque uns não fazem. Se ficar mal, paciência, quando melhorar, volta. E aí também não dá pra reclamar. Resolvido que também os técnicos iam ganhar igual a eles pelas peças que fizessem. E que seria necessário mais gente. Quem? Quem quisesse trabalhar. De outros lugares, de outras instituições, parentes, vizinhos... E que, daqui pra frente, cada um será responsável sozinho pelo controle e andamento de seu trabalho sem a supervisão de nenhum técnico. Não haverá ‘clínicos’, apenas, mestres do saber com as pedras. Aí, qualquer um dos mais antigos poderá ensinar os mais inexperientes. No entanto, de algum modo, ainda nos atribuíamos o encargo de ser os mestres, aqueles que deveriam impor o ritmo do trabalho. Impor, neste caso, era fazê-los aceitar nossas propostas. Ao longo do tempo em que trabalhamos juntos, alguns se esforçavam mais que outros para dar conta de fazer suas peças. Quando havia prazos de entrega era preciso ajudar a terminar as peças dos retardatários. Mas, depois, eles recebiam por peça produzida. Isto não pareceu justo aos mestres, que propuseram o que lhes parecia mais justo: dividir o dinheiro com quem trabalhou. Os outros-pacientes discordaram; nossa justiça foi confrontada com outra justeza. Não importava se alguém fez mais que outro: estava ali, fazia parte da naçãozinha, seu ritmo precisava ser levado em conta. O valor de sua produção era equivalente, não se media por concretudes acabadas. Saímos desta reunião cientes de que nosso modo anterior de conduzir as oficinas carregava um pesado viés da prática oficial, encoberto pelo cuidado clínico. Chegarão pessoas novas, o encargo do trabalho não recairá, apenas, sobre os técnicos, poderemos ser mais integralmente NÓS. E, talvez, finalmente, começar a clínica que queríamos no início. Instalar esse NÓS significa repensar o ofício de clinicar. O cuidado solidário, no lugar do trabalho solitário. Se as famílias e pacientes não se sentiam mais sozinhos para lidar com as questões que a doença trazia, agora seria a vez de criar um território onde os técnicos não se sintam desamparados. Um lugar onde não caiba ao técnico a função de tudo saber, ter a solução para todos os problemas dos pacientes. Esta maneira de ver não inclui um olhar em que o paciente, por definição, é excluído, frágil e requer proteção. Se nos propusemos a criticar o Trabalho Moral, será necessário, agora, repensarmos o quanto há de moral nos termos em que pautamos nosso trabalho. Pensar na clínica como um projeto solidário, como um modo de lidar que Não é propriamente um socorro, um ato de salvação ou um movimento piedoso; é antes um gesto de amizade, um motivo de folgança, uma forma (...) de cooperação para executar um trabalho. (Candido, PRB, p69) E criar nela experiência partilhada, embora jamais possamos adivinhar seu fim. Uma clínica que se realize no entre, este tempo que fala e aponta para a análise que não se dá de pessoa a pessoa - de ego para ego - mas entre. Uma clínica que se faz enquanto se narra, que se faz no gerúndio. Um tempo de fazer alma. Até porque, assume radicalmente a máxima dita por um grande louco, sonhador da humanidade, chamado Cervantes: Tudo é o que tudo pode vir a ser. Bibliografia ARANHA E SILVA, Ana Luisa – O projeto Copiadora CAPS – Do trabalho de reproduzir coisas à produção de vida. São Paulo: Dissertação de Mestrado, 1997. CANDIDO, Antonio – Os Parceiros do Rio Bonito. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1975. (PRB) FARES, Claudia – O Arco da Conversa: um ensaio sobre a solidão. Niterói: Casa Jorge Editorial, 1996. (AC) HILLMAN, James – Cem Anos de Psicoterapia ... e o mundo vai cada vez pior. São Paulo. Summus Editorial, 1992. (100 anos...) HILLMAN, James – Cidade e Alma. São Paulo: Ed. Pensamento Ltda, 1992. (C&A) KERÉNY – Os Deuses Gregos. São Paulo: Ed. Cultrix, 1993. (DG) *Rosa Maria Carollo Blanco é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade de São Paulo, analista junguiana e pesquisadora de novas propostas clínicas para o sofrimento psíquico. Dirige a Clínica-Oficina Kairós desde 1999. E-mail rosamblanco@yahoo.com.br 1 As iniciais em maiúscula que se seguem ao nome do autor referem-se às iniciais dos livros de refrência. Este recurso tornou-se necessário porque várias obras citadas de Hillman foram publicadas no mesmo ano. |