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JUNG
E A LITERALIZAÇÃO
Marta Chagas
Hoje estamos aqui para falar sobre o atendimento de crianças e adolescentes segundo a visão junguiana. Trata-se de um tema pouco difundido, apesar de vários analistas junguianos trabalharem com esse tipo de clientela. E por quê? Parece que alguns temas estão “pré”-associados a Jung e à sua teoria; ao ser mencionado o nome de Jung em qualquer conferência ou ciclo de palestras, parece ser sempre esperado que surjam temas, primeiramente, como símbolos, mitologia, religião, contos de fada, arquétipos, inconsciente coletivo, fantasias, visão holística da personalidade, processo de individuação, análise de sonhos, imaginação ativa, alquimia, técnicas de expressão não-verbais; quando o enfoque recai no trabalho clínico junguiano, o que se espera é que se fale sobre o atendimento de pacientes da chamada “segunda metade da vida”, o que sugere o tratamento de adultos e de indivíduos, no máximo, da “terceira idade”, ou seja, àqueles que estão em busca do significado de suas vidas. E por quê não pertenceria ao “imaginário” junguiano o trabalho com crianças e com adolescentes? Por quê essa clínica é tão menos divulgada? Como tentativa de responder a essas perguntas, vou formular hipóteses, um tanto complementárias, sendo que irei tratar da última mais detidamente, tal como aponta o título da palestra. Em primeiro lugar, parece que ficou estabelecida uma certa confusão entre os termos “análise da infância” e “análise da criança”. Acredito que o próprio Jung tenha sido o primeiro a não deixar clara a diferença entre eles quando, por exemplo, questiona a importância da infância para Freud e, conseqüentemente, para a psicanálise, principalmente sobre seus “achados” teóricos sobre a sexualidade infantil e suas conseqüências para a vida dos indivíduos adultos. Em alguns de seus textos, como os que se referem aos dois tipos de métodos utilizados em análise, ou seja, o redutivo e o sintético, Jung muitas vezes parece deixar a cargo da psicanálise a “análise da infância”, com seus conteúdos pessoais, com suas repressões, censuras, atuações, sendo que o método mais “junguiano”, ou o sintético-construtivo, estaria mais voltado para outras confrontações com o inconsciente, no sentido de realização do processo de individuação. Também as referências sobre infância e criança ficam misturadas em outras passagens de sua obra. Em seu texto As Etapas da Vida Humana, de 1930, ele diferencia 4 estágios do desenvolvimento psíquico humano, a saber: 1) Infância: Nas palavras de Jung: No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas, nada depende do sujeito, porque a própria criança ainda depende inteiramente dos pais. É como se ainda não tivesse nascido inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorre na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este freqüentemente se impõe desmedidamente... Até este período, a vida psicológica do indivíduo é governada basicamente pelos instintos e por isto não conhece nenhum problema. Mesmo quando limitações externas se contrapõem aos impulsos subjetivos, estas restrições não provocam uma cisão interior do próprio indivíduo. Este se submete ou as evita, em total harmonia consigo próprio. Ele não conhece o estado de divisão interior, induzido pelos problemas. 2) Juventude: Tal fase tem como característica “o despedaçar dos sonhos da infância”. Segundo o Dicionário Junguiano de Paolo Francesco Pieri, “essa fase caracteriza-se pelo completamento da formação do Eu e, portanto, pela diferenciação entre si próprio e o mundo circundante (tanto interno como externo), motivo pelo qual se assiste à adaptação em relação à realidade que circunda a realidade do Eu que veio a se constituir e, portanto, também à confirmação da própria identidade sexual”. 3) Maturidade: Esse estágio traz um avanço da consciência, ou seja, a consciência de um estado de dualidade ou de divisão. Nas palavras de Jung: “Algum leitor talvez deseje saber por que começo com a segunda etapa da vida humana, como se a do estágio infantil fosse um estágio sem problemas. Normalmente, a criança ainda não tem nenhum problema pessoal, mas sua complexa psique constitui um problema de primeira grandeza para seus pais, educadores. Só o ser humano adulto é que pode ter dúvidas a seu próprio respeito e discordar de si mesmo”. Utilizando uma imagem para essa fase da vida, Jung se refere a ela como um sol que, após iluminar o mundo, trazendo-lhe calor, recolhe seus raios para iluminar a si mesmo. Seriam típicos desse estágio, os processos de interiorização, contatos e diferenciação entre arquétipos como a sombra, o arquétipo da anima ou do animus e do Si-mesmo. 4) Velhice:
Seria caracterizada
pelo enfraquecimento da consciência e de uma nova imersão
no inconsciente da psique da qual havia emergido. Nas palavras de
Jung:
“Para concluir, gostaria de voltar, por um momento, à comparação com o Sol. Os 180º do arco de nossa vida podem ser divididos em quatro partes. O primeiro quarto, situado a Leste, é a infância, aquele estado sem problemas conscientes, no qual somos um problema para os outros, mais ainda não temos consciência de nossos próprios problemas. Os problemas conscientes ocupam o segundo e o terceiro quartos, enquanto o último quarto, na extrema velhice, de nossa consciência, mergulhamos naquela situação em que, a despeito do estado de nossa consciência, voltamos a ser uma espécie de problema para os outros. A infância e a extrema velhice são totalmente diferentes entre si, mas têm algo em comum: a imersão no processo inconsciente. Como a alma da criança se desenvolve a partir do inconsciente, sua vida psíquica, embora não seja facilmente acessível, contudo não é tão difícil analisar quanto a das pessoas velhas que mergulham de novo mo inconsciente, onde desaparecem progressivamente. A infância e a extrema velhice são estados da vida sem qualquer problema consciente; por esta razão, eu não as levei em consideração nesse meu estudo.”
Apesar de Jung
afirmar, em seus vários textos, que não há
espaço para generalizações no entendimento do
psiquismo, que o importante é se tratar cada caso que aparece
com todo cuidado e de forma bastante singular, pois, segundo suas
próprias palavras
“a terapia da neurose, para ser verdadeira e eficaz, deve ser sempre individual. Por isso o emprego obstinado de determinada teoria e de certo método deve ser considerado errado. Se em algum caso já se tornou evidente que não existem doenças mas sim pessoas doentes, isto certamente ocorre nas neuroses. Nelas encontramos sintomas mais individuais que em todas as outras doenças”, mesmo assim, ele parece tender a uma certa generalização quando aborda os temas da criança e da infância, com sua pouca diferenciação da consciência, com “sua falta de problemas próprios”, com sua imersão no mundo dos pais ou no mundo da inconsciência. Nessa distinção das etapas da vida, poder-se-ia interpretar, de forma errônea, talvez, que a infância, marcada por sua pouca diferenciação da consciência, seria uma etapa de poucos conflitos, de pouca angústia, uma vez que a criança estaria imersa num “mundo” mais próximo dos instintos, das requisições inconscientes e do “mundo dos pais”, onde não caberia discussões sobre os problemas enfrentados pela consciência, ainda que incipiente, e seus possíveis tratamentos. Porém, o volume XVII das Obras Completas traz vários textos, escritos em diferentes ocasiões, sob o título de Desenvolvimento da Personalidade, onde Jung irá abordar mais conscistentemente o tema da análise infantil, da criança e de seus problemas, assim como “conselhos” ou questionamentos pertinentes aos que pretendem trabalhar com crianças, como os educadores e médicos. A tônica da maioria desses textos é que quando a criança apresenta problemas, a origem dos mesmos deve ser procurada nos pais ou em pessoas próximas, como em educadores, por exemplo. A criança não teria problemas específicos seus, e, sim, estaria reagindo aos problemas conscientes e/ou inconscientes de seus pais, o que levaria a supor que a melhor indicação de tratamento deva ser para os mesmos. Uma vez liberada de seu fardo de reagir como indicativo ou sintoma do “mal-funcionamento” paterno, a criança voltaria a agir e a se comportar de forma totalmente satisfatória, “essencialmente” saudável. Para haver o estabelecimento de neurose, seria necessário decorrer um certo número de anos, quando a consciência se desenvolverá de forma muito rígida e unilateral. No texto Psicologia Analítica e Educação, referente a três conferências proferidas em 1924, Jung diz: “...Sempre que uma criança pequena manifeste os sintomas de uma neurose, não se deveria perder muito tempo na pesquisa de seu inconsciente. A pesquisa deveria ser iniciada em outro lugar, a saber, na própria mãe, pois de acordo com a regra geral, os pais são quase sempre os auotres diretos da neurose da criança, pelo menos fatores importantes... Além disso, analisar crianças é um empreendimento muito difícil e especial; trabalha-se em condições muito diversas das existentes na análise de adultos. A criança tem uma psicologia muito singular... sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais... Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais. Tal dependência é normal e pertubá-la se torna prejudicial ao crescimento natural da mente infantil...” Outro fator importante a ser levado em consideração no tratamento com crianças é a proximidade de sua consciência, ainda em formação, com os conteúdos do inconsciente coletivo, com a proximidade com os arquétipos. Segundo Jung, a criança não deve confrontar esses conteúdos arquetípicos, uma vez que sua fase de desenvolvimento requer que ela se diferencie do inconsciente para melhor fortalecer sua consciência. Logo, tanto a análise de sonhos (...“Em crianças não se pode ainda empregar o método da análise dos sonhos por penetrar profundamente no inconsciente”), como a análise do inconsciente coletivo, não devem ser propostas, uma vez que a criança ainda não teria a requerida consciência para poder estabelecer um diálogo com as figuras arquetípicas. Em suas palavras: “Como problema prático, o inconsciente coletivo não deve ser considerado em crianças, pois para elas a acomodação ao ambiente desempenha um papel capital. Seu enlace com o inconsciente original é que deve ser desfeito, porque a permanência ulterior dessa ligação seria empecilho para o desenvolvimento da consciência, e é sobretudo da consciência que elas precisam... Devemos precaver-nos contra a suposição de que as crianças têm a mesma vida psíquica que os adultos. A criança não pode ser tratada como um adulto...Nas crianças nem sequer é possível ainda a análise perfeita e sistemática dos sonhos, porque nelas não se deve dar importância demasiada ao inconsciente. Muito facilmente poderia acontecer que se despertasse cedo demais uma espécie de curiosidade mórbida ou que se apressasse de modo anormal o amadurecimento psíquico e a formação da consciência de si mesmo, caso o analista insista em pormenores psicológicos que somente apresentam interesse em se tratando de adultos. Ao ter-se de lidar com uma criança difícil, o melhor que se pode fazer é abstrair completamente o conhecimento de psicologia, pois o principal nesta tarefa é a simplicidade e o bom senso.” Ou seja, tentando compreender um pouco mais porque o tema da análise de crianças é pouco ligado à teoria junguiana, parece que esse “conselho” dado por Jung quanto ao que deve ser feito com crianças “difíceis”, onde simplicidade e bom senso devam substituir completamente o conhecimento da psicologia, induz a se pensar que a análise deva ser estabelecida apenas com os adultos. A criança, por estar mais próxima às influências do inconsciente, pelo fato do mesmo possuir força auto-reguladora, se ela não receber “más influências” de seu meio ambiente, se não tiver que carregar os problemas psicológicos de seus pais, sempre tenderá a se desenvolver plenamente, de maneira normal, não neurótica. Mas, de onde vem essa idéia? Que arquétipo estaria orientando essa visão? Acredito que podemos, agora, trazer o conceito de Jung sobre o arquétipo da criança. Em
seu texto A
Psicologia do Arquétipo da Criança,
de 1940, Jung vai discorrer sobre as características do
arquétipo da criança e suas funções,
sendo que, em uma nota de rodapé, ele mesmo faz uma ressalva
quanto a não confundí-lo com a criança real. Em
suas palavras: Talvez não seja supérfulo mencionar um preconceito de caráter leigo, que sempre tende a confundir o motivo da criança com a experiência concreta da ‘criança’, como se a criança real fosse o pressuposto causal da existência do motivo da criança. Na realidade psicológica, porém, a representação empírica da ‘criança’ é apenas um meio de expressão (e nem mesmo o único!) para falar de um fato anímico impossível deapreender de outra forma. Para Jung, a imagem da criança traz em si a idéia de futuro, de potencialidade, de enteléquia, ou seja, termo aristotélico que significa ato final ou perfeito, e, portanto, realização completa da potência. No indivíduo, a imagem da criança aparece como uma “antecipação de desenvolvimentos futuros, mesmo que possa ser associada como uma imagem retrospectiva”. Durante o processo de individuação, a criança é uma imagem-síntese dos conteúdos conscientes e inconscientes da personalidade, uma figura de união de opostos. Segundo Jung, “a vida é um fluxo, um fluir para o futuro, e não um dique que estanca e faz refluir”. O destino da criança traz em si a idéia de fragilidade, de impotência que, no entanto, faz revelar a enteléquia do Si-mesmo, ou seja, “o desamparo daquele impulso de vida que obriga a tudo o que cresce a obedecer à lei da máxima auto-realização”. A criança é, ao mesmo tempo, aquilo que acabou de nascer, aquilo que precisa de cuidados e proteção, ao mesmo tempo aquele que traz todo o futuro em cada olhar, em cada descoberta, em cada reconhecimento. Nas palavras de Jung: “ ‘Criança’ significa algo que se desenvolve rumo à autonomia. Ela não pode tornar-se sem desligar-se da origem: o abandono é pois uma condição necessária, não apenas um fenômeno secundário. O conflito não é superado portanto pelo fato de a consciência ficar presa aos opostos; por este motivo, necessita de um símbolo que lhe mostre a exigência do desligamento da origem. Na medida em que o símbolo da ‘criança’ fascina e se apodera do inconsciente, seu efeito redentor passa à consciência e realizaa saída da situação de conflito, de que a consciência não era capaz. O símbolo é a antecipação de um estado nascente de consciência.” Ou seja, carregado de tantas funções e atributos poderosos, o motivo da criança parece atrair para si mesmo a própria “realidade” e concretude da criança. Apesar desse texto ter sido publicado 16 anos depois daquele sobre psicologia e educação, podemos supor que essas idéias já poderiam estar sendo delineadas por Jung, ainda que não sistematizadas, durante suas conferências de 1924. Quando Jung se refere à criança e à falta de problemas “próprios”, quando ele afirma que as dificuldades que aparecem no comportamento das crianças são, invariavelmente, oriundas dos pais e educadores, uma vez que elas tendem ao pleno desenvolvimento de sua personalidade, parece que Jung estaria literalizando o arquétipo da criança na própria criança, ao mesmo tempo que afirma que o tratamento dedicado à mesma tenha que ser diferente do realizado com adultos. Ao literalizar o arquétipo da criança, Jung passa a não reconhecer a individualidade da mesma, suas singularidades. Ele parece estar sugerindo que a criança poderia “cuidar” de si própria, por ser esse elemento que traz o impulso à autonomia e à realização, invocando, dessa maneira, a força do símbolo da criança, confundindo a criança com este arquétipo. Porém, como foi muito bem demonstrado por Melaine Klein, por exemplo, pequenas diferenças do próprio organismo da criança, pelo fato de algumas necessitarem às vezes de um pouco mais de leite, sua percepção do mundo torna-se bastante diferente, vivenciando o chamado Seio Mau, ou, em termos junguianos, a Mãe Terrível; e essas vivências trarão conseqüências no desenvolvimento de sua personalidade, podendo trazer mais angústia, mais sensação de abandono, mais sentimentos de rejeição, ainda enquanto crianças. Não é só a psique dos pais que influencia a criança, mas o mundo como um todo, inclusive o seu desenvolvimento físico/orgânico marca profundamente sua consciência incipiente que começa a surgir e se diferenciar do inconsciente. Apesar da visão de Jung ser bastante positiva e carregada de esperança sobre a cirança, devemos estar sempre atentos quanto às informações que as crianças dizem sobre si mesmas, para que possamos intervir com presteza, a fim de se evitar um longo e doloroso processo de criação de neuroses. Gostaria, então, de finalizar essa palestra trazendo mais uma vez uma citação de Jung sobre o arquétipo da criança, devido à sua força poética e beleza: “A ‘criança’ nasce do útero do inconsciente, gerada no fundamento da natureza humana, ou melhor, da própria natureza viva. É uma personificação de forças vitais, que vão além do alcance limitado da nossa consciência, dos nossos caminhos e possibilidades, desconhecidos pela consciência e sua unilateralidade, e uma inteireza que abrange as profundidades da natureza. Ela representa o mais forte e inelutável impulso do ser, isto é, o impulso de realizar-se a si mesmo. É uma impossibilidade de ser-de-outra-forma, equipada com todas as forças instintivas naturais, ao passo que a consciência sempre se emaranha em uma suposta possibilidade de ser-de-outra-forma. O impulso e a compulsão da auto-realização é uma lei da natureza e, por isso, tem uma força invencível, mesmo que seu efeito seja no início insignificante e improvável.” BIBLIOGRAFIA: Jung, C.G. – Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo – Vol. IX/1 – ed. Vozes. Jung, C.G. – A Natureza da Psique – Vol. VIII/2 – ed. Vozes. Jung, C.G. – O Desenvolvimento da Personalidade – Vol. XVII – ed. Vozes. PIERI, Paolo Francesco – Dicionário Junguiano – ed. Vozes. E-mail da autora: martachagas@rubedo.psc.br |