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UM ENSAIO SOBRE ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Carlos Bernardi
Como está, senhor
doutor, é o que dizemos quando
José Saramago
Pensaste já, / ó
Outra / , quão invisíveis somos
Vicente Guedes (heterônimo
de Fernando Pessoa)
O código genético
disso a que, sem pensar
José Saramago
Não se deveria procurar
saber como liquidar uma
Carl Gustav Jung A ética é a ótica espiritual.
Emmanuel Levinas
Adaptações de textos literários para o cinema sempre me deixaram com um pé atrás na hora de comprar o ingresso. É fácil saber o motivo dessa reserva. Em parte, ela se deve à minha paixão pela escrita. Em parte, independente da qualidade do diretor e do roteirista que irão adaptar uma linguagem à outra, o resultado será quase sempre uma redução do romance, visto que os detalhes e filigranas do texto tendem a desaparecer, pois não há como transpor todo o texto para a tela. Além do mais, a escolha do que irá para a tela foi feita pelo roteirista e mesmo pelo diretor. Em outras palavras, o filme já é uma interpretação do texto. Estas minhas dúvidas obviamente se multiplicariam diante de um texto altamente elaborado, complexo e rico como é o texto de José Saramago, autor do romance “Ensaio sobre a cegueira”, ao mesmo tempo uma ficção e um ensaio sobre a ausência de ética de todos nós. Devo acrescentar que nem sempre o resultado dessa interpretação é negativo. Este é claramente o caso com o filme de Fernando Meirelles (veja a reação de Saramago [e a reação de Meirelles à reação de Saramago] ao filme no You Tube http://www.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY). Mesmo tendo lido o livro há muito tempo atrás, assim que foi publicado, no ano de 1995, o seu efeito em mim se manteve presente. Com isso, foi com grande satisfação que pude perceber com que fidelidade Meirelles transpôs para a tela a riqueza do pensamento de Saramago. Ali, diante dos meus olhos, estavam as principais imagens e questões imaginadas pelo nosso grande escritor português e mais do que merecido ganhador de um Nobel de literatura. O filme retrata com precisão toda a angústia e desespero de todos nós quando somos confrontados com nossa cegueira. Os espectadores são transformados em testemunhas oculares das piores características dos seres humanos. Só conseguimos ver porque enxergamos através dos olhos da única pessoa que é capaz de ver no filme, uma mulher. Ela percebe e mostra de maneira inequívoca nossa total inconsciência. Sim, o filme trata de inconsciência e não de cegueira, embora a associação de cegos dos Estados Unidos, que almeja processar os produtores do filme, não tenham “visto” que a cegueira aqui é uma metáfora. Uma reação do tipo não vi e não gostei. Daqui para frente escreverei “cegueira” e “cego” para ficar claro para os membros de tal associação que estamos aqui falando de outra coisa e não dos deficientes físicos visuais como eles talvez ingenuamente entenderam. Disse talvez, pois os membros dessa associação também podem ser “cegos” no sentido saramaguiano e viram nisso a oportunidade de uma ganho financeiro fácil, como está na moda acontecer. O desejo de tirar vantagens pessoais em situações caóticas foi dramaticamente retratada no romance e brilhantemente reproduzida no filme e é um dos momentos centrais do mesmo. A estória se inicia com uma situação que muitos de nós já vivenciaram e que denuncia toda a nossa impaciência e incompreensão em relação aos outros: o semáforo de trânsito. Mal ele indica a permissão para os motoristas começarem a mover seus automóveis, logo estão a buzinar impacientemente para você sair da frente e deixar de atrapalhar o trânsito. Afinal de contas, eles estão perdendo preciosos segundos de suas vidas e o causador deste prejuízo é você. A violência estridente das buzinas, formas não verbais de xingamento. O outro deve sair o mais rapidamente possível da minha frente e não me atrapalhar mais. Vale à pena transcrever este primeiro parágrafo do livro de José Saramago para que aqueles que ainda não o conhecem possam entrar em contato com seu estilo (não se esqueçam que os livros de Saramago, mesmo aqueles publicados por editoras brasileiras, mantém a ortografia de Portugal). O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embreagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente. O sinal verde acendeu-se emfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falhas do circuito electro, se é que não se acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que esta a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça pra eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego. (Saramago, 1995, págs. 11-12). É assim que se inicia um Ensaio sobre a Cegueira. De repente, um motorista que enxergava muito bem, pois nem óculos precisava usar, fica parado diante do semáforo, incapaz de ver. Em meio à confusão descrita acima, um homem se apresenta para, solidariamente, ajudar o motorista e conduzir seu carro, levando-o para casa. Realmente isso acontece, mas essa é apenas parte da história. Impedido de se defender e muito angustiado por sua situação, o motorista “cego” acabou não percebendo que estava lidando com um ladrão de carros que viu no ocorrido uma maneira fácil de roubar um carro, tão fácil como tirar um doce da mão de uma criança. Resistirei a citar trechos o livro de Saramago. Como pudemos observar acima, a maneira de Saramago escrever é bastante dinâmica. Ficção e reflexão filosófica se alternam rapidamente, mal separadas por vírgulas que acabam deixando o leitor atônito. Por isso, irei passar por cima da minha resistência e transcrever mais um vez um trecho do grande livro. Por ora prometo ser a última vez, pois o objetivo aqui não é uma análise pormenorizada do romance Ensaio sobre a Cegueira, mas uma reflexão sobre Blindness, título do filme de Fernando Meireles. Se, ao final conseguirei manter esta promessa, só a continuidade e término deste texto poderá dizer, pois a promessa ao futuro pertence, mesmo que este futuro esteja muito próximo, a poucas páginas. Vamos a Saramago. Ao oferecer-se para ajudar o cego, o homem que depois roubou o carro não tinha em mira, nesse momento preciso, qualquer intenção malévola, muito pelo contrário, o que ele fez não foi mais que obedecer àqueles sentimentos de generosidade e altruísmo que ão, como toda a gente sabe, duas das melhores características do género humano, podendo ser encontradas até em criminosos bem mais empedernidos do que este, simples ladrãozeco de automóveis sem esperança de avanço na carreira, explorado pelos verdadeiros donos do negócio, que esses é que se vão aproveitando das necessidades de quem é pobre. No fim das contas, estas ou as outras, não é assim tão grande a diferença entre ajudar um cego para depois o roubar e cuidar de uma velhice caduca e tatibitate com o olho posto na herança. Foi só quando já estava perto da casa do cego que a idéia se lhe apresentou com toda a naturalidade, exactamente, assim se pode dizer, como se tivesse decidido comprar um bilhete de lotaria só por ter visto o cauteleiro, não teve nenhum palpite, comprou de ver o que dali saía, conformado de antemão com o que a volúvel fortuna [a associação dos cegos americana?] lhe trouxesse, algo ou coisa nenhuma, outros diriam que agiu segundo um reflexo condicionado da sua personalidade. Os cépticos acerca da natureza humana, que são muitos e teimosos, vêm sustentando que se é certo que a ocasião nem sempre faz o ladrão, também é certo que o ajuda muito. Quanto a nós, permitir-nos-emos pensar que se o cego tivesse aceitado o segundo oferecimento do afinal falso samaritano, naquele derradeiro instante em que a bondade ainda poderia ter prevalecido, referimo-nos o oferecimento de lhe ficar a fazer companhia enquanto a mulher não chegasse, quem sabe o efeito da responsabilidade moral resultante da confiança assim outorgada não teria inibido a tentação criminosa e feito vir ao de cima o que de luminoso e nobre sempre será possível encontrar mesmo nas almas mais perdidas. Plebeiamente concluindo, como não se cansa de ensinar-nos o provérbio antigo, o cego, julgando que se benzia, partiu o nariz. A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e nosal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido. Não será possível, portanto, neste caso, deslindar que parte dos medos e que parte da consciência afligida começaram a apoquentar o ladrão assim que pôs o carro em marcha. Sem dúvida nunca poderia ser tranquilizador ir sentado no lugar de alguém que segurava com as mãos este mesmo volante no momento em que cegou, que olhou através deste pára-brisas e de repente ficou sem ver, não é preciso ser-se dotado de muita imaginação para que tais pensamentos façam acordar a imunda e restejante besta do pavor, aí está ela já a levantar a cabeça. Mas era também o remorso, expressão agravada duma consciência, como antes foi dito, ou, se quisermos descrevê-lo em termos sugestivos, uma consciência com dentes para morder, que estava a pôr-lhe diante dos olhos a imagem desamparada do cego quando fechava a porta, Não é preciso, não é preciso, dissera o coitado, e daí para o futuro não seria capaz de dar um passo sem ajuda. (Saramago, 1995, págs. 25-26-27).
Voltando às personagens, o homem “cego” esperou a chegada da sua mulher para irem a um oftalmologista. Depois de exames profundos, com a constatação inicial de que nada de errado havia com as estruturas biológicas responsáveis pela visão, não restou nada mais do que multiplicar hipóteses. Com a multiplicação vindoura de “cegos” o problema foi elevado à categoria de mistério. Havia porém uma diferença. Esta “cegueira” era de outra espécie. Enquanto a cegueira comum (aquela de que sofrem os cegos da já famosa associação americana) gera um estado de escuridão, esta “cegueira” criava um estado intenso de brancura, como se o vitimado estivesse nadando em um mar de leite, como tão bem definiu o motorista que deixou de “enxergar” no semáforo. Para aqueles que possuem algum conhecimento do simbolismo alquímico, é como se esta “cegueira” estivesse mais ligada a albedo, a etapa branca, do que a nigredo, a fase negra. Aqui, contudo, uma possível contradição pode estar se formando. Vimos que Ensaio sobre a Cegueira trata da inconsciência de nossas faltas éticas, de nossas faltas de caráter. Pensar esta inconsciência como nossa parte negra parece ser o caminho mais fácil e até mesmo natural. Porém, o que Saramago nos oferece é uma espécie de inconsciência diferente, uma inconsciência branca. Oferecer algum tipo de entendimento sobre esta incongruência se constitui uma outra promessa deste trabalho.
Esta “cegueira” causada como que por um excesso de luz
me faz recordar Platão e sua alegoria da caverna. Platão
a descreve no livro VII da República onde suas concepções
sobre como construir uma sociedade ideal é explicitada.
Infelizmente, talvez não existisse nela espaço para
Saramago e outros “artesãos” do gênero. Não
entrarei em pormenores. Havia uma caverna onde vários homens
sempre viveram ali acorrentados olhando a sombra de objetos. Por
nunca terem tido um outro referencial, tomavam estas sombras, estas
aparências, como se fossem a própria realidade (veja
algumas animações no You Tube:
Não tardou para a “cegueira” do motorista ser considerada contagiosa, pois cada vez mais pessoas contraíam a estranha e inexplicável doença. A reação do governo foi rápida. Por falta de um conhecimento adequado da etiologia da doença, agora batizada de mal-branco, não havia outra solução que não confinar os doentes em um antigo manicômio. Como não haveria voluntários que não sofressem do mal-branco para tomar conta e coordenar as ações dos “cegos”, e como também não existia tratamento conhecido, eles simplesmente foram abandonados ao deus-dará. O objetivo do confinamento era justamente o confinamento. Para garantir a ordem, vale dizer, para impedir que estes seres perigosos escapassem do manicômio, soldados armados foram postos diante do portão com a ordem expressa de atirar em qualquer um que se aproximasse do mesmo. O mundo daqueles que “enxergavam” deveria ser protegido a todo custo. Para horror da sociedade, o número de “cegos” aumentava rapidamente. O que acontecia lá dentro era problema dos seus próprios habitantes. Dá para imaginar o que aconteceria com um lugar povoado com um sem número de “cegos”. Logo todo o lugar havia se transformado em um grande caos. Sujeira, fezes, urina, mortos, abandonados, restos de comida se espalhavam por todos os lados. Falei que é possível imaginar esta cena, mas não será preciso, pois há alguém cuja função será, além de aliviar o peso do problema que cada um tem, de carregar e buscar um mínimo de organização dentro do possível, a mulher do médico. Ela espontaneamente se deixou confinar junto com o marido, mas estranhamente, continuava enxergando, não era contaminada. Sua presença serve de testemunha ocular dos acontecimentos. Ela empresta seus olhos para que nós, telespectadores na sala do cinema, possamos ver aquilo que não queremos ou conseguimos ver. (Abro um parêntese para uma rápida consideração. A palavra telespectador [tele + espec] significa olhar de longe, olhar à distância. Especulo se no cinema não estaríamos ainda longe demais para sentirmos o impacto de uma narrativa tão séria e profunda. Lanço as questões: é possível sentir algo profundamente comendo-se pipoca? A pipoca aliviaria a experiência da catarse? Como saímos do cinema após “vermos” este filme e outros da mesma espécie? Isso pode ser chamado de diversão? O cinema é um espelho [speculum] confiável para podermos olhar para nós mesmos? Confiram, no dicionário Houais da lingua portuguesa, o verbete sobre o elemento de composição espec e toda a família de palavras e experiência psicológicas a ele associadas. Fecho aqui o parêntese). No manicômio abandonado, com seus deficientes abandonados, criou-se um microcosmo social que serve de espelho para o macrocosmo social. Saramago criou uma situação de laboratório com suas variáveis controladas para ficar claro aquilo que nós somos. Através dos olhos da mulher do médico vimos como poluímos, destruimos, exploramos, chantageamos, ameaçamos e desprezamos uns aos outros. Através do olhar da mulher do médico podemos constatar como somos egoístas, mentirosos, traidores, machistas, agressores, sexistas, gananciosos, aproveitadores, orgulhosos. Independentemente de enxergarmos ou não, somos incapazes de perceber isto, mesmo que isto esteja diante dos nossos olhos. Talvez surja uma esperança real de mudança através da percepção do caos após todos voltarem a “ver”. Talvez nada aconteça, pois já vivemos no caos e não conseguimos enxergar de modo profundo para fazermos mudanças concretas e urgentes no nosso estilo de vida e padrão de sociedade. Nosso modelo de desenvolvimento fracassou e não conseguimos percebê-lo. Nossas relações sociais também fracassaram, mas igualmente não conseguimos percebê-lo. Por todos os lados vemos e ouvimos sinais de que as coisas não estão bem, mas somos incapazes de vê-las e ouví-las. No fundo, somos incapazes de sentir. Estamos anestesiados. Por mais avançada que seja nossa consciência, ainda somos inconscientes de muitas coisas. O problema pode estar justamente por possuirmos uma consciência muito avançada. De que modo isto pode estar associado a este mal-branco?
Sabemos que parte da constituição do inconsciente, ou
melhor, de seus conteúdos, deve-se aos procedimentos descritos
e batizados pela psicanálise como repressão e recalque.
Sem sombra de dúvida, estes mecanismos são
importantíssimos na manutenção de nossas ilusões
acerca de nós mesmos. Através desses mecanismos, partes
nossas ficam separadas ou dissociadas da consciência, passando
a funcionar de maneira autônoma, ou seja, continuamos nos
comportando de acordo com seus significados só que, agora, não
temos mais consciência disso. É como se abrigássemos
uma outra pessoa em nossa casa que comete um sem número de
deslizes, só que não temos conhecimento disso. Jung
referiu-se a estes conteúdos como constituintes do que ele
chamou de sombra, a parte da nossa personalidade que está, por
assim dizer, fora do foco da luz da consciência. Em outras
palavras, algo que existe mas nós não queremos saber
que existe. Todo corpo tridimensional, diz Jung, lança uma
sombra e é justamente nela que devemos penetrar nos esforços
psicoterapêuticos da auto-compreensão e da
auto-transformação. Esta concepção deve
muito à tradição metafísica ocidental que
identifica a consciência, o conhecimento e a sabedoria com o
sol e com a luz, como vimos na alegoria da caverna de Platão,
embora haja aqui uma diferença sutil. Enquanto Platão
nos diz que vivemos na escuridão e nas sombras da caverna e
que devemos sair para termos um real conhecimento do mundo, no caso
da psicologia do inconsciente este real conhecimento das coisas e de
nós mesmos só se aprofundaria com nossa entrada nas
sombras e na escuridão do inconsciente. Lá encontramos
informações fundamentais para impedir que todo este
processo não passe de mais uma mentira que contamos a nós
mesmos e aos outros. É nesse sentido que o inconsciente,
enquanto posição oposta a da consciência,
identifica-se ou o identificamos com o reino da escuridão. Em
livro recente, a psicanalista Elizabeth Roudinesco utiliza-se da
mesma metáfora para falar das perversões: a parte
obscura de nós mesmos. É isto que leva Jung a afirmar: É compreensível que seja o psicólogo clínico o primeiro a perceber as falhas e os males da época, pois diante dele se apresentam as vítimas das dificuldades atuais e ele é o primeiro a se ocupar com elas. A cura da neurose não é, em última análise, um problema técnico, mas um problema moral. Há, supostamente, soluções técnicas provisórias, mas que nunca resultam numa atitude ética que poderíamos chamar de verdadeira cura. Toda conscientização e todo ato de cura significam no mínimo um passo adiante no caminho da individuação, ou seja, da “totalização” do indivíduo. Mas a integração da personalidade é inconcebível sem a relação responsável, ou seja, moral, das partes entre si, assim como é impossível a constituição de um país sem a inter-relação de seus membros. Portanto, o problema ético se coloca por si, e cabe, em primeiro lugar, ao psicólogo encontrar uma resposta e ajudar a seus pacientes a encontrá-la também. Este trabalho é muitas vezes enfadonho e difícil; ele não pode ser realizado através de curtos-circuitos intelectuais ou de receitas morais, mas unicamente através da cuidadosa observação das condições internas e externas e através de paciência e tempo para a cristalização gradual de um objetivo e de uma orientação pelos quais o paciente possa responsabilizar-se. O analista aprende sempre que a problemática ética é assunto da maior intimidade do indivíduo, que as diretrizes morais coletivas são no máximo soluções provisórias que nunca levam a decisões capazes de mudar o destino da pessoa. (Jung, prefácio a Psicologia Profunda e uma Nova Ética, 192-193).
Não sei se toda esta retórica de luz e escuridão nos ajudaria a entender a “cegueira” de que nos fala Saramago, pois, como sabemos, ela não conduz a um estado de escuridão, mas a um estado de brancura. Devemos continuar nossa busca por uma explicação dessa “cegueira”, na busca de um outro tipo de inconsciente ou de um inconsciente, só que agora não mais negro, mas branco. Um “inconsciente branco”. Seria este mais um oximoro, como aquele outro que mencionei, que fala do estado neurótico normal? Vejamos. Jung não pensa que os estados de dissociação sejam causados apenas pela repressão ou pelo recalque. Eles também podem ser produzidos por um desenvolvimento anômalo da consciência, uma hipertrofia da consciência. O desenvolvimento de uma consciência especializada, que é o estilo de consciência da nossa cultura, levou a um desequilíbrio de tarefas. Grande parte de nossos interesses concentram-se no progresso e na conquista de um lugar nesse fluxo progressista. Trabalhamos demais, consumimos demais. Estamos atolados até o pescoço neste modelo de desenvolvimento que não percebemos, ou ficamos anestesiados, diante dos efeitos colaterais do mesmo. Com isso, deixamos de lado vivências psíquicas importantíssimas para nosso equilíbrio anímico. O resultado só pode ser o surgimento de um disposição neurótica, de uma desunião do ser humano, que, por ser compartilhada por todos e, assim, ideologicamente naturalizada, podemos chamar de um estado neurótico normal. Está justificado, desta maneira, um dos oximoros mencionados acima. Em 1961, em seu último escrito, Jung tece considerações proféticas e temerosas acerca do nosso mundo. Nosso intelecto criou um novo mundo que domina a natureza e povoa com máquinas monstruosas que se tornaram tão úteis e imprescindíveis que não vemos possibilidade de nos livrarmos delas ou de escaparmos de nossa subserviência odiosa a elas. O homem nada mais pode do que levar adiante a exploração de seu espírito científico e inventivo, e admirar-se de suas brilhantes realizações, mesmo que aos poucos tenha de reconhecer que seu gênio apresenta uma tendência terrível de inventar coisas cada vez mais perigosas porque são meios sempre mais eficazes para o suicídio coletivo. Considerando a avalanche da população mundial em rápido crescimento, procuram-se meios e saídas para deter a torrente. Mas a natureza poderia antecipar-se a todas as nossas tentativas, voltando contra o homem seu próprio espírito criativo, cuja inspiração ele deve seguir, pelo acionamento da bomba H ou de outra invenção igualmente catastrófica que poria um fim à superpopulação. Apesar de nosso domínio orgulhoso da natureza, ainda somos vítimas dela tanto quanto sempre o fomos, e não aprendemos a controlar nossa própria natureza que, devagar mas inevitavelmente, contribui para a catástrofe. Não há mais deuses que pudéssemos invocar em auxílio. As grandes religiões sofrem no mundo todo de crescente anemia porque os numes prestativos fugiram das matas, rios, montanhas e animais, e os homens-deuses sumiram no submundo, isto é, no inconsciente. E supomos que lá eles levem uma existência ignominiosa entre os restos de nosso passado, enquanto nós continuamos dominados pela grande Déesse Raison que é nossa ilusão dominadora. Com sua ajuda fazemos coisas louváveis: por exemplo, livramos da malária o mundo, difundimos em toda a parte a higiene, com o resultado de que povos subdesenvolvidos aumentem em tal proporção que surgem problemas de alimentação. “Nós vencemos a natureza” é apenas um slogan. A chamada “vitória sobre a natureza” nos subjuga com o fato muito natural da superpopulação e faz com que nossas dificuldades se tornem mais ou menos insuperáveis devido à nossa incapacidade de chegar aos acordos políticos necessários. Faz parte da natureza humana brigar, lutar e tentar uma superioridade sobre os outros. Até que ponto, portanto, “vencemos a natureza”? (Jung, A Vida Simbólica, vol. I, paragrafos 597-598).
O homem, bobo da sua inspiração, sombra chinesa da sua ânsia inútil, segue, revoltado e ignóbil, servo das mesmas leis químicas, no rodar imperturbável da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperança, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilusões da realidade e a realidade das suas ilusões. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si memórias de batalhas, versos, estátuas e edifícios. A Terra esfriará sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascença, o sol um dia, se alumiou, deixará de alumiar; se deu vida, dará a si a morte. Outros sistemas de astros e satélites darão porventura novas humanidades; outras espécies de eternidades fingidas alimentarão almas de outra espécie;outras crenças passarão em corredores longínquos da realidade múltipla. Cristos outros subirão em vão as novas cruzes. Novas seitas secretas terão na mão os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia será outra, e essa Cabala diferente. (Pessoa, Fernando, Obra em Prosa, pág. 162). Como escreveu Jung, a deusa Razão é quem nos domina e parece que ela não é capaz de ver tudo. Jung, contudo, vislumbra um caminho, pensa uma possibilidade. O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje. (Jung, Psicologia do Inconsciente, pág. IX). Talvez, antes de voltarmos a enxergar, tenhamos que ficar completamente “cegos” para podermos perceber, através dos olhos da mulher do médico, tudo que nos somos e fazemos. Talvez tenhamos que ficar “cegos” para que, depois que o mal-branco passar, possamos perceber o caos que tudo se tornou, mas um caos que já existe e que está tão bem disfarçado que nós não o vemos. Por isso, talvez, esta “cegueira” de que nos fala Saramago seja realmente branca, pois o branco desta “cegueira” é da mesma cor da consciência racional identificada com a luz, por isso não a vemos. Não a vemos porque todo este caos é um subproduto deste modelo de desenvolvimento de que falei acima e não há, até agora, ao que parece, entre aqueles que tomam as decisões, nenhum projeto de mudança radical de valores e objetivos. Tudo por causa desse branco que nos possui. Em um profundo e fecundo artigo, James Hillman analisa as características e patologias do branco. O artigo trata da supremacia do branco, não necessariamente a supremacia do homem branco, mas dos sentidos que damos à cor branca, embora, historicamente, homem e cor tenham se confundido. Hillman inicia seu estudo afirmando que a cor branca é vivenciada como superior em inúmeras culturas, tanto naquelas constituídas pelos homens brancos, assim como nas crenças da África Negra. Para Hillman, a fantasia de supremacia está arquetipicamente vinculada à própria brancura. Nossa tradição cultural distingue três constelações de significados do branco, cada uma das quais governada por um arquétipo. A primeira diz respeito à brancura do céu. Aqui o branco é visto a partir da perspectiva arquetípica do pai celestial. O brilho do céu em um dia ensolarado, a cor mais apropriada para os deuses devido à pureza e à paz que eles encarnam. O branco como soma de todas as cores e matizes. O segundo grupo trata da pureza. Neste caso, a perspectiva arquetípica é da criança. Simples, sem corrupção, doença ou mal, a criança representa a brancura do começo ainda não estragada pelos erros. Crianças mortas são sepultadas em caixões brancos. Este branco inocente exclui todas as cores e matizes, e surge nas idealizações da figura da criança não estragada ou contaminada pela cultura. É o branco da matéria-prima. A terceira constelação arquetípica do branco vem do arquétipo da anima e nos simbolismos alquímicos da lua e do albedo. O branco é identificado com o feminino, com o suave e a beleza vulnerável. Ele é inferior, mas, mesmo assim, mantém sua relação com a supremacia, pois seu surgimento mostra que estamos limpos e purificados dos conflitos intensos da fase anterior do nigredo, vinculado àquilo que é ainda negro e obscuro. Este branco não admite a menor mancha. A sujeira em intenso contraste com o fundo branco destacaria-se e desviaria nosso olhar. A sensação de limpeza é que não nos permitiria ver as falhas em nossos valores e escolhas, pois estes se apresentam da mesma cor dos nossos valores e escolhas. Na medida que não temos consciência deste processo é que se justificaria falarmos, aqui, de um inconsciente branco. Para Hillman, a idéia da supremacia do branco está vinculada ao pensamento oposicional que funciona percebendo a si próprio apenas em distinção às suas oposições. Por este motivo é fácil percebermos uma mancha preta em um fundo branco e vice-versa, ao passo que é praticamente impossível percebermos uma mancha branca em um fundo branco. Hillman vai aplicar esta distinção à própria psicologia. Neste caso, a sombra escura do recalcado, apesar das resistências, seria mais fácil de perceber do que a sombra branca existentes nos valores e projetos da consciência, daí a feliz escolha de James Hillman em chamar esta sombra de inconsciente branco. Com a eliminação deste pensamento oposicional não haveria mais uma divisão radical entre branco e preto enquanto metáforas da consciência e do inconsciente. Nem “consciente” nem “inconsciente” podem ser literalmente como tais; de fato, “discernir” ou “perecer” torna-se impossível, visto que, justamente por meio do que discernimos requer, ele mesmo, discernimento. Não há ponto de vista que não seja inconsciente. Não há luz totalmente branca, nenhum percepção imaculada. Somos todos mulatos da mente. (Hillman, Notes on white supremacy, pág. 48).
Voltando ao Ensaio sobre a Cegueira, o papel da mulher do médico fica mais fácil agora de se compreender. Ela encarna justamente esta figura de anima que, como mediadora, não somente guia e facilita a vida dos “cegos” em seu mal-branco, mas que também guia a todos nós, que lemos o livro de Saramago ou vimos o filme de Meirelles, para fora de nossa “cegueira”, para fora de nossa inconsciência branca, fazendo-nos perceber as manchas brancas em nossos próprios valores brancos, áreas tornadas invisíveis devido à inflação de nossa consciência. Foi ela também, com sua imunidade à “cegueira”, pois não somente era capaz de “ver” tudo, mas, principalmente, desejosa de assim fazê-lo, que nos mostrou uma das cenas mais enigmáticas do ensaio, livro e filme, as imagens vendadas dos santos. Como sempre, são os olhos da mulher do médico, nossa anima mediadora, que nos faz “ver” o que não queremos ou conseguimos “ver”. Abalada com o que “via”, pois verdadeiramente abrir os olhos para aquilo que somos deixa qualquer um estarrecido, ela passa mal e ameaça desmaiar. Seu marido médico a conduz para o interior de uma Igreja para ela poder descansar e se recuperar. É aconselhada a abaixar a cabeça para irrigar o cérebro com o precioso sangue. Levantou a cabeça para as colunas esguias, para as altas abóbadas, a comprovar a segurança e a estabilidade da circulação sanguínea, depois disse, Já me sinto bem, mas naquele mesmo instante pensou que tinha enlouquecido, ou que desaparecida a vertigem ficara a sofrer de alucinações, não podia ser verdade o que os olhos lhe mostravam, aquele homem pregado na cruz com uma venda branca a tapar-lhe os olhos, e ao lado uma mulher com o coração trespassado por sete espadas e os olhos também tapados por uma venda branca, e não eram só este homem e esta mulher que assim estavam, todas as imagens da igreja tinham os olhos vendados, as esculturas com um pano branco atado ao redor da cabeça, as pinturas com uma grossa pincelada de tinta branca... (Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, pág. 301).
É a única hipótese que tem um verdadeiro sentido, é a única que pode dar alguma grandeza esta nossa miséria, imagino este homem a entrar aqui vindo do mundo dos cegos, aonde depois teria de regressar para cegar também, imagino as portas fechadas, a igreja deserta, o silêncio, imagino as estátuas, as pinturas, vejo-o ir de uma para outra, a subir aos altares e a atar os panos, com dois nós, para que não deslacem e caiam, a assentar duas mãos de tinta nas pinturas para tornar mais espessa a noite branca em ue entraram, esse padre deve ter sido o maior sacrílego de todos os tempos e de todas as religiões, o mais justo, o mais radicalmente humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus não merece ver. (Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, pág. 302).
Ensaio sobre a cegueira termina com todos gradativamente voltando a “enxergar”, começando com o primeiro a contrair o mal-branco. A alegria é geral. A personagem do homem realmente cego é que passa a temer pelo seu futuro. Antes, enquanto todos estavam na mesma situação, não havia mais discriminação e diferença. E agora? Agora dependerá de como elaboraremos toda esta experiência ou se a deixaremos apenas como um fato. A diferença entre experiência e fato é, para James Hillman, a diferença entre algo que foi sentido com profundidade e nos tocou a alma, ou algo que foi vivido de forma totalmente exterior e superficial. Isso vale tanto para as personagens do romance quanto para os leitores, e todos nós que nos dispusemos a ir ao cinema assistir a belíssima contribuição de Fernando Meirelles. Se o filme não nos tocou, talvez tenhamos comprado o ingresso apenas para servir de álibi para nossa necessidade de matar o tempo e comermos pipoca, pois, afinal de contas, cinema é diversão.
Para todos aqueles que foram tocados pela “cegueira”
psicossomática, é importante estarmos atentos para o
fato dela poder ser o caminho da nossa cura, pois, como “vimos”
Jung dizendo, é a neurose quem nos cura e não nós
que a curamos. Em seu aspecto finalista a “cegueira” veio
para nos ajudar a verdadeiramente ver. PS: Rapidamente, só para mencionar, principalmente porque ainda não li o romance, José Saramago acredita que esta cegueira pode não ter sido em vão. Em seu Ensaio sobre a Lucidez (2004), que aqui podemos interpretar como a transformação de uma luz intensa que cega em uma luz que leva à compreensão e o entendimento, Saramago novamente nos inunda de branco, agora batizado de “insurgência branca”. Em uma eleição municipal, a esmagadora maioria dos votos foram em branco para a estupefação e desespero das autoridades. A própria contracapa do livro reproduz o texto que vincula os dois romances: ... falemos abertamente sobre o que foi a nossa vida, se era vida aquilo, durante o tempo em que estivemos cegos, que os jornais recordem, que os escritores escrevam, que a televisão mostre as imagens da cidade tomadas depois de termos recuperado a visão, convençam-se as pessoas a falar dos males de toda a espécie que tiveram de suportar, falem dos mortos, dos desaparecidos, das ruínas, dos incêndios, do lixo, da podridão, e depois, quando tivermos arrancado os farrapos de falsa normalidade com que temos andado a querer tapar a chaga, diremos que a cegueira desses dias regressou sob uma nova forma, chamaremos a atenção da gente para o paralelo entre a brancura da cegueira de há quatro anos e o voto branco de agora... (Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, contracapa). Mais uma vez surge aqui a normalidade neurótica, a normalidade como esquecimento e recusa. Em oposição a isso, temos a responsabilidade ética de votarmos em prol do benefício do outro. Como será que votamos? E-mail do autor: bernardi@rubedo.psc.br |